Havia um reencontro de grandes amigos no sábado de carnaval. O cenário: um bar frequentado pelos velhos camaradas ao longo de três ou quatro décadas - talvez cinco. Marchinhas que hoje soam politicamente incorretas dividiam o som com hits nascidos na Bahia dos anos 1990 e um repertório sertanejo de doer o cotovelo.
Um homem na cadeira de rodas me chama e pergunta se eu sou eu. Preso no próprio corpo por uma doença motora que não sei qual é, mantém intacta a memória de coisas e nomes e textos. Com dificuldade na fala e brilho no olho, diz por trás da máscara que lê o que eu escrevo por aqui desde o remoto 2004. Pergunta se ainda escrevo cantando e me bota comovida como o diabo do poema.
Penso em como a gente emociona as pessoas sem saber, sem a mais vaga ideia de quando e quanto. Por livre associação ou proximidade do tema, lembro da luxuosa companhia das horas anteriores - as cápsulas do tempo dos mestres Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, José Carlos Oliveira, Vinicius de Moraes e Sérgio Porto reunidas no livro "Os Sabiás da Crônica".
Recomendo.
O volume foi organizado por Augusto Massi, a partir de uma foto feita no verão de 1967, na cobertura do Velho Braga na Barão da Torre, em Ipanema, Rio de Janeiro. Na varanda do apartamento, os seis craques da crônica posam para a posteridade e para a divulgação da recém-inaugurada Editora do Autor, registrando a amizade e o afeto ao redor da linha de frente da crônica brasileira.
Como bem dito na apresentação do livro, a maior parte dos jornais, revistas e editoras que publicaram as crônicas do grupo desapareceu. Os bares, boates e restaurantes nelas festejados igualmente fecharam suas portas. Os autores também se foram. No entanto, basta colocar os olhos naquelas páginas para perceber que os textos resistiram à passagem dos anos.
Ali figuram - palavras de Augusto Massi - a etnografia sentimental dos bairros e bares, os diálogos com a cultura, os perfis de artistas e amigos, o versiprosa, as histórias de passarinho, o futebol, os tipos urbanos.
Ali figuram - alguém disse, com razão - generosas notas de hedonismo-ostentação e outras discretas de melancolia.
Ali figura, num círculo virtuoso, a própria matéria-prima dos cronistas que emocionam as pessoas sem a mais vaga ideia de quando e quanto.