Num domingo como hoje, duas semanas atrás, um grupo de mulheres escritoras se reuniu na escadaria Maria Ortiz, no Centro de Vitória, para uma foto histórica, aberta a todas que escrevem no Espírito Santo.
O movimento se repetiu em dezenas de cidades pelo país, com o mesmo objetivo: celebrar a presença e a potência femininas na literatura.
Pouco antes, em Brasília, outra foto escancarava o lugar em que tentam nos colocar na política, como no resto. Nove homens, todos brancos, comemoram (chancelam?), uma candidatura feminina à presidência do país em que 52,5% dos votos são de eleitoras.
A candidata, única mulher da reunião, aparece ao fundo, na tela do computador, à distância e à margem.
Quatro dias, 1.200 quilômetros e muitas batalhas separam as duas fotos. A primeira compõe um marco de representatividade e diversidade, um retrato de que existem centenas de mulheres, de todos os jeitos, em todos os cantos, produzindo literatura, apesar da desigualdade, da sobrecarga e dos obstáculos muitíssimo conhecidos por nós.
A segunda simboliza o quanto ainda falta.
O clique das mulheres escritoras teve como inspiração o retrato Um Grande Dia no Harlem, feito por Art Kane para a Revista Esquire, em agosto de 1958, numa escada da Rua 126, em uma região de origem afro-americana e grande vocação cultural de Nova York.
A foto dos políticos teve cenário bem diferente, a sede do Senado, na Praça dos Três Poderes, na capital federal. Um espaço ocupado majoritariamente por homens (8,5 em cada 10, para ser exata), que julgaram por bem engavetar o projeto de lei que destina às mulheres 30% do comando de partidos, institutos e fundações políticas.
A ideia, parada desde 2020, foi proposta pela senadora que se tornaria, dois anos depois, a mulher solitária da foto na Praça dos Três Poderes.
O que as fotos não dizem é que, a despeito de tudo, seguimos. Seguimos, apesar da desigualdade, da sobrecarga e dos obstáculos muitíssimo conhecidos. Seguimos, apesar dos escanteios impostos. Seguimos, como bem escreveu o Velho Braga certa vez, porque ainda há muitas abolições a fazer.