Imagino que muita gente já se deu conta de que as laranjas-bahia, as minhas preferidas, estão começando a aparecer, embora meio verdes e com pouco caldo. Ainda estão escassas as de bom tamanho e de casca lisa, que formam parelha com as mexericas azedinhas de muitos caroços que, felizmente, também já podem ser encontradas.
Talvez por serem produzidas em pequena escala, tanto umas como as outras, nunca são vendidas nos supermercados, que preferem oferecer produtos mais padronizados e de fornecimento garantido. Nas barracas das feiras livres, elas ficam sempre em caixas colocadas em posições de menor destaque. Acho que pouca gente sai de banca em banca procurando por elas, como costumo fazer em tempo de safra.
Fora de época só se vê aquelas de casca amarelo forte, oferecidas como importadas, que me nego a comprar por ter me sentido enganado, faz tempo. Creio que elas sejam de uma espécie geneticamente desenvolvida para atrair o olhar dos potenciais compradores pelo visual: belas por fora, mesmo que passadas por dentro.
Tendo conseguido umas tantas laranjas-bahia promissoras, é a vez de me sentar para chupar algumas delas com toda a calma desse mundo, sempre me valendo de uma faquinha de lâmina curta e perfeitamente amolada para a ocasião, e quase sempre sob olhares interesseiros do pessoal da casa.
Descascar cada uma sem ferir a pele que fica na parte de baixo da parte branca da casca é desafio que enfrento há décadas e que tem quem afirme ser mais uma mania do velho. A tal pele funciona como divisor entre a parte de fora da casca, dotada de sumo que faz arder os olhos dos desprevenidos, e da parte de dentro, que contém o caldo da laranja.
Trata-se de uma película fina, flexível e resistente, que envolve cada um dos 8 ou 10 gomos, todos contendo centenas de pequenos favos alongados e durinhos. Tenho na mais alta conta essa solução de revestimento, uma engenharia natural capaz preservar o conteúdo de cada favo contra contaminantes saídos de algum outro, que esteja comprometido.
Às vezes tento produzir uma longa tira de casca que as moças de antigamente giravam em torno da cabeça enquanto iam dizendo os nomes de rapazes conhecidos, até que se rompesse. O último nome dito por cada uma era o de com quem ela iria se casar. Embora lembrar disso me divirta, nada sei que confirme tal crença.
Escoteiro e pescador de praia, aprendi cedo que casca seca de laranja é um combustível poderoso, muito útil para acender fogueiras. Avô experiente, na semana passada comecei a introduzir Yara, a neta caçula, nos prazeres de chupar laranja-bahia. Ela começou fazendo careta, franzindo a testa e, logo, logo, passou a pedir mais outros pedaços, boa boca que é.