Ganhei de Denis Barreto, colega do grupo escolar em Cachoeiro, quatro pedaços de bambu balde, trazidos de seu sítio em Vargem Alta. Eles têm mais de metro de comprimento, uns 15 cm de diâmetro e paredes bem grossas. Pesadíssimos e portadores de destino nobre, ficaram encostados, um ao lado do outro, no muro do jardim, para serem apreciados até de longe.
Deitado na rede, eu me dei conta de que um deles era tudo o que eu precisava para fazer a espada, dessas de samurai, que Gael me pediu de presente de aniversário: gomo de 70 cm de comprimento para uma lâmina grande, e metade de um outro, para o cabo a ser segurado por duas mãos.
A notícia correu no grupo da família e um áudio de Biel, neto que mora em São Paulo, me fez prever que a inveja vai se instalar na alma de moleques querendo espada para lutar contra guerreiros do mal, desses que estão por todo lado nas redes.
Gael bem que tentou facilitar o meu serviço, segurando bambu, apanhando ferramentas, dando palpites, aprovando as formas que iam surgindo, mas sempre com um joystick nas mãos e os olhos na pancadaria na TV, ao lado. Numa das vezes que pedi ajuda, ele falou que não podia parar, porque estava jogando com outra pessoa. Quis saber contra quem, mas ele disse não saber e que poderia ser alguém em qualquer lugar do mundo.
Sem interromper o que estava fazendo, pedi que desligasse tudo pra gente conversar um pouco sobre espadas, joguinhos viciantes, perda de tempo e, também, sobre o ato de produzir alguma coisa e a satisfação que se sente ao ter feito algo bonito ou com alguma utilidade. À medida que fui enaltecendo o poder das mãos, a capacidade de inventar, a vontade de fazer cada vez melhor, a carinha dele foi ficando a de moleque sagaz e os olhinhos ganharam brilho.
As mudanças nos hábitos das crianças de hoje, provocadas pelo poder de comunicação das redes e por estratégias sofisticadas de marketing que incluem publicidade sedutora e uso de influenciadores digitais, vão ocupando as atenções, consumindo o tempo livre da garotada, empobrecendo o universo das experiências de brincar e de aprender. Isso tudo, além de restringir os momentos de convivência com os mais velhos da família, frequentemente vistos como retrógrados e ultrapassados.
Fazendo a espada, fiquei pensando na função nobre dos avós no mundo de hoje. Avós que viveram em outros tempos, quando as partidas eram disputadas cara a cara, nas mesas de pingue-pongue e de sinuca, nas caixas de totó, nos campos de futebol de botão, e também na porrinha, no pique esconde, no carrinho de rolimã, nas pipas e peladas de rua.
Gosto de pensar que somos pessoas experientes, informadas e sabidas, donas de ótimas lembranças e histórias interessantes para contar, ainda que insuficientes para enfrentar a concorrência digital e os males da overdose de joguinhos eletrônicos que vêm afetando nossas crianças e adolescentes.
Está mais do que provado que iniciativas de os afastar dos celulares, tablets e joysticks podem resultar em protestos de toda ordem, choros desvairados, xingamentos infantis e até em argumentações constrangedoras de pais já derrotados em tentativas anteriores.
Sendo assim, convém que cada um de nós esteja munido da disposição do exército de Brancaleone, da imaginação de Leonardo da Vinci, da paciência de Jó e da sabedoria de Buda para irmos à luta por netos saudáveis, criativos, corajosos, participantes e realizadores.