Passamos dez dias de abril passeando com amigos, vendo muita coisa boa e relevante no Piauí. Estivera em Teresina em meados de 1980, a mando de Lynaldo Cavalcanti, presidente do CNPq, para conversar com a arqueóloga Niède Guidon.
Ele queria saber o que ela estava precisando para continuar a pesquisar vestígios de ocupação remota na Serra da Capivara, no sul do Piauí. Na ocasião, conheci uma pequena mostra do que a sua equipe, formada por arqueólogas francesas, já havia descoberto.
Me contaram que tudo havia começado no início dos anos 1970, quando lhe apresentaram uma fotografia de inscrições rupestres, existentes no Piauí, que entendeu serem tão antigas quanto as que sabia existirem na França.
Depois disso, ela passou cinco anos estudando em Lascaux, sempre encasquetada com a ideia de que a presença do homem no lugar onde tinha sido tirada aquela foto era muito anterior ao que vinham indicando as pesquisas feitas em universidades dos EUA.
Voltei para Brasília impressionado com sua convicção em descobrir a verdadeira história da ocupação das Américas. E foi sua determinação que a fez seguir em frente, apesar da descrença e má vontade de muita gente, inclusive de governantes locais.
Para tanto, ela decidiu enfrentar o descaso, exigir decisões dos poderes públicos e buscar apoios internacionais. Brigou com deus e o mundo, até conseguir a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara em 1979, reconhecido, anos depois, pela Unesco, como Patrimônio Cultural da Humanidade.
Ela enfrentou poderosos e burocratas para seguir pesquisando e preparando o lugar para receber visitantes, incluindo abertura e pavimentação de trilhas e estradas. Para garantir integridade e proteção do parque, conseguiu desocupar e reflorestar as áreas inteiras, engajando os moradores das comunidades da região a partir de seu desenvolvimento. Liderou a instalação de escolas e postos de saúde, de água encanada e energia, trouxe cursos de capacitação e criou oportunidades de trabalho para muitos.
Com a mesma determinação, ela conseguiu construir o Museu do Homem Americano, nos arredores de São Raimundo Nonato, que também ganhou aeroporto graças às suas insistências. No ano passado, inaugurou o Museu da Natureza, com 1600 m2, no alto de uma colina dentro do parque. Ambos oferecem, com primoroso tratamento expográfico, conteúdos de grande impacto sobre a formação do planeta e sobre os homens que o ocuparam há milênios.
Faz tempo, estive empenhado em fazer um documentário sobre as relações do homem com as pedras. Destaque especial mereceriam as inscrições feitas por nossos antepassados distantes nas rochas, entendidas como as primeiras páginas de registro do que viam e faziam: incluindo lutas, caça, sexo e rituais. Procurei por ela, que prontamente prometeu gravar um depoimento, mas, infelizmente, o filme não vingou.
Encontramos a dra. Niède Guidon nos seus 90 anos, metida numa blusa vermelha, atenta e interativa, perfeitamente ciente do que fez de bom na vida. Contei pra ela, emocionado, minha grande admiração por tanta dedicação e perseverança em fazer o que achava certo.
Pra fechar a visita, dei a ela uma colher de bambu, fininha e comprida, que havia feito na véspera, sugerindo que a usasse para coçar as costas. Foi o bastante para fazê-la rir de satisfação. Pra minha sorte, ela é do tipo de gente que gosta de colheres.