No começo da semana, recebi uma notícia desanimadora, frustrante, incompatível com o que entendo como decisão portadora de futuros promissores. Para falar a verdade, ela me pegou de calça curta.
Gosto de pensar que as conquistas são determinadas por iniciativas e providências capazes de alterar o andamento, a direção e a intensidade dos processos em vigor, impondo mudanças de entendimentos e valores, criando fatos que possam produzir felicidades, convergências de interesses, coesões improváveis, possibilidades de ganhos para muitos.
Pois a tal notícia, fruto de decisões de uns poucos e, por certo, do respaldo de pessoas físicas e jurídicas, vem na contramão do interesse geral, destituída de compromisso com processos vitais para o setor de extração, beneficiamento e comercialização de rochas ornamentais, estratégico para a economia do Espírito Santo.
Digo isso com a maior convicção. Explico: nos idos de 1988, atuando no Bandes, sob a direção de Odilon Borges, participei de um movimento de modernização de setores tradicionais da economia capixaba.
Tenho satisfação de constatar que aquela iniciativa produziu resultados fantásticos para os setores de mármore e granito, de metal mecânica, de confecções, de produção de mamão e de café de qualidade.
Naquela época, os olhos e as expectativas estavam inteiramente direcionados para os chamados grandes projetos, geradores de oportunidades para muita gente, embora responsáveis por lançar, em grandes quantidades, particulados poluentes para a população da Grande Vitória.
Cachoeirense descarado, fundamentado na metodologia de promoção de desenvolvimento setorial que vim trazendo do CNPq, em Brasília, e, sobretudo, apoiado por muitos empresários entusiasmados, criamos o CETEMAG para se dedicar à modernização das condições de produção, gerenciamento e comercialização de mármores e granitos.
A Feira de Cachoeiro, criada em novembro de 1989, sob nossa iniciativa, é marco decisivo de um movimento vigoroso, autêntico e coeso que foi colocado em marcha. A decisão de criar um evento desses num lugar aparentemente improvável foi motivada pela notícia da realização de uma feira similar em São Paulo, no início de 1990.
A correria foi grande e os improvisos muitos, mas a satisfação geral foi muito mais expressiva do que os contratempos, incluindo a instalação dos estandes em baias de grandes animais e a queda de energia durante a solenidade de abertura.
A proposta de criar uma Feira em Vitória não contou, de imediato, com a minha aprovação. “Acabar com a de Cachoeiro, só por cima de meu cadáver”, teria dito em voz alta, para quem quisesse ouvir. Gosto de pensar que prevaleceu o bom senso de orientar uma para dentro do setor e a nova, na Capital, para o mercado externo. Deu super certo.
A decisão de acabar com a Feira de Vitória e abrir uma similar em São Paulo me fez pensar, com total ironia, que deveriam experimentar levar a tradicional Feira de Verona, cidade menor do que Cachoeiro, para Milão ou Roma, onde as oportunidades de negócio podem ser mais expressivas.
Deixo registrado aqui a minha inquietude com tal decisão e faço um chamamento às autoridades constituídas e às lideranças da indústria capixaba dos mármores e granitos em favor do bom senso e dos interesses locais.
Como a feira é um trunfo estratégico pros negócios de muitos, vai ser difícil explicar pros netos que ela acabou por mero desaviso e omissão de muitos.