Economista, doutor em Ciência Política e Estudos Estratégicos, e professor do Departamento de Relações Internacionais do Ibmec, José Luiz Niemeyer, acompanha a cena brasileira e internacional há mais de quatro décadas. Na visão dele, além de turbulento, o momento é fluido, por isso, fazer prognósticos é complicado. Quando questionado sobre a guerra no Oriente Médio, ele responde: "temos um acordo, mas serão 60 dias até a ratificação. Me parece muito para um cenário internacional tão fluido".
Ele enxerga um pós-Trump com os Estados Unidos voltando à posição de estabilizador do sistema internacional. "Teremos algo menos radical na Casa Branca. A administração atual, para ser educado, é muito alternativa e isso atrapalha muito o sistema internacional".
E o Brasil? Apesar das turbulências internas, olha com otimismo. "O Brasil tem de observar o sistema internacional e identificar as oportunidades onde pode ajudar o sistema a ficar menos tensionado. Por exemplo: ofertando energia, temos uma matriz ampla e limpa, e comida. São várias as oportunidades de negócio aqui dentro do país, temos de conversar com multinacionais norte-americanas, chinesas, alemãs, francesas, indianas, enfim, com todos. Vejo a posição brasileira no sistema como muito interessante".
Niemeyer, que mora no Rio de Janeiro, participou de eventos, em Vitória, durante a semana e conversou com a coluna. Confira a entrevista completa:
Como o senhor está enxergando o cenário internacional? Esse acordo entre Irã e Estados Unidos retira um pouco da nebulosidade?
Temos um acordo, mas serão 60 dias até a ratificação. Me parece muito para um cenário internacional tão fluido. Considero que o evento mais grave do século XXI, mais do que o 11 de Setembro, mais do que a invasão da Ucrânia pela Rússia, é o afastamento dos Estados Unidos de seus aliados da União Europeia. É um distanciamento dentro da estrutura de defesa do mundo ocidental. Isso se dá principalmente em função do presidente (dos Estados Unidos, Donald) Trump. Ele tem uma visão isolacionista de mundo, mas não é um isolacionismo qualquer, é algo do jeito dele. Se dá quando ele percebe, e percebe de maneira errada, que determinada ação pode lhe render votos do ponto de vista da política interna. Vejo o Trump trabalhando mal nessas análises que ele faz, afinal, vive no fio da navalha. Ele como um representante do partido Republicano, verdade que é um representante bem alternativo, ele acaba não conseguindo manter pontes nem no ambiente internacional e muito menos no ambiente interno. Por isso, vejo, na próxima corrida eleitoral à presidência dos Estados Unidos, que não terá a participação de Trump, o partido Republicano apresentando uma candidatura que dê mais estabilidade à posição dos Estados Unidos como potência central do sistema. Vejo o (J.D.) Vance (vice-presidente dos EUA) como candidato do partido Republicano. O sistema, então, é muito fluido, com a China ganhando cada vez mais poder relativo... Não é que os Estados Unidos estejam mais fracos, podem até estar em algum ponto específico, mas é que a China ganhou muita força. A Rússia também recrudesceu a sua posição no continente euroasiático... Veja que estamos falando de um continente só, Europa e Ásia. Os Estados Unidos estão preocupados com esse avanço chinês, com a chamada nova Rota da Seda (projeto lançado pela China, em 2013, que visa expandir a sua influência global por meio de investimentos em infraestrutura, comércio e conectividade em dezenas de países). Também estão preocupados com esse acordo Mercosul-União Europeia, já olhando aqui para o Brasil. Veja que na última doutrina norte-americana, assinada em dezembro passado, eles deixam claro que querem defender o hemisfério Ocidental. É um mundo mais fragmentado, mais competitivo e com a ascensão de potências regionais como a Índia, que vem com uma agenda de política externa muito assertiva.
E o Brasil no meio disso tudo?
Não tem que ficar nem lá e nem cá. Aliás, como se consolidou a política externa brasileira ao longo do século XX. Uma política externa sólida, responsável, longe de ideologias e equidistante dos centros de poder. Uma aliança exclusiva seria um grave erro da política externa brasileira. O Brasil tem de observar o sistema internacional e identificar as oportunidades onde pode ajudar o sistema a ficar menos tensionado. Por exemplo: ofertando energia, temos uma matriz ampla e limpa, e comida. São várias as oportunidades de negócio aqui dentro do país, temos de conversar com multinacionais norte-americanas, chinesas, alemãs, francesas, indianas, enfim, com todos. Vejo a posição brasileira no sistema como muito interessante. Ainda com grandes áreas a serem ocupadas sob o aspecto de produção, com grande diversidade ambiental... Isso faz do Brasil um país que oferta soluções para o sistema internacional. Eu sou muito otimista com relação ao posicionamento do Brasil.
Mas será possível manter-se equidistante após a nova doutrina dos EUA?
Por isso falei na saída de Trump. Estou olhando para o médio e longo prazos. Teremos mais dois anos de Trump, mas ele vai perder a maioria na Câmara (os EUA vão ter eleições para o Congresso no final do ano) e pode ser que perca no Senado também. Vejo os próximos dois anos de Trump como anos de um pato quase manco. Como será depois disso? Vi, recentemente, um filme sobre o vice-presidente Vance. Fiquei bastante impressionado com a história de vida dele, uma história de muita violência. Tenho a impressão de que ele vindo como candidato Republicano, e acho que ele tem mais chances do que (Marco) Rubio (secretário de Estado dos EUA), teremos algo menos radical na Casa Branca. A administração atual, para ser educado, é muito alternativa e isso atrapalha muito o sistema internacional.
Temos também uma transição em curso no Brasil. É a última candidatura de Lula, Jair Bolsonaro não está na disputa. Para onde iremos?
O cenário internacional é mais complexo. O Brasil, com seus problemas, vive uma estabilidade institucional. O presidente Lula não será mais candidato depois desta eleição. O que virá depois disso? Vejo uma plêiade de candidaturas tanto à direita como à esquerda, talvez com novos nomes surgindo na cena nacional. Pode não ser para ganhar a eleição, mas para marcar posição. Creio que a direita moderada ganhará mais espaço no debate público brasileiro.
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