Publicado em 4 de agosto de 2022 às 10:24
A solidão e o isolamento social aumentam os riscos de ataque cardíaco e de AVC (acidente vascular cerebral), além de reduzirem o prognóstico e elevarem as chances de morte por essas emergências, de acordo com um posicionamento da Associação Americana de Cardiologia (em inglês AHA, American Heart Association) publicado nesta quinta-feira (4).>
Coordenado pela professora Crystal Wiley Cené, da Universidade da Califórnia, o documento foi construído por pesquisadores dos Estados Unidos, da França e da Alemanha e sintetiza a literatura existente sobre o assunto em quatro grandes bancos de dados.>
Entre as pesquisas citadas no posicionamento, destaca-se um estudo da Universidade de York, no Reino Unido, que constatou um aumento de 32% no risco de derrame e de 29% no desenvolvimento de doença arterial coronariana entre aqueles com conexões sociais insuficientes.>
Segundo a AHA, ter pouco contato frequente com outras pessoas (isolamento social) ou ter uma percepção de isolamento (solidão) afeta mediadores comportamentais, psicológicos e fisiológicos, que por sua vez podem repercutir na saúde cardíaca e cerebral.>
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Aspectos como dieta, consumo de álcool, sono e atividade física estão entre aqueles que podem ser alterados e levar a consequências mais graves.>
"Ambas as situações, isolamento social e solidão, podem levar à perda de cuidado e a comportamentos danosos, como tabagismo, compulsões alimentares e desnutrição", afirma o médico Bruno Valdigem, membro da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia).>
Uma rede de relacionamentos frágil está ainda relacionada a um processo de inflamação generalizado que afeta a parte interna dos vasos sanguíneos, prejudicando seu funcionamento e aumentando o risco de problemas cardiovasculares.>
"A parte interna das artérias controla nossa pressão, libera algumas substâncias para o sangue não coagular, atua no relaxamento da parte cerebral, então tem um papel muito importante. Quando você está com a artéria inflamada, ela começa a não se contrair adequadamente e deixa acumular gordura, e quando a placa de gordura rompe há coagulação, trombose, infarto e AVC", explica o cardiologista.>
De acordo com a AHA, os dois aspectos também alteram o prognóstico daqueles que já sofreram com problemas cardíacos e neurológicos. O neurologista Marcos Christiano Lange, coordenador do Departamento Científico de Doenças Cerebrovasculares, Neurologia Intervencionista e Terapia Intensiva em Neurologia da ABNeuro (Academia Brasileira de Neurologia), explica que isso pode ocorrer pelo quadro emocional que com frequência acompanha os solitários. Quando a pessoa se sente isolada do convívio social, a probabilidade de ela querer melhorar pode ser menor.>
Além disso, pode haver uma relação mais fraca entre essas pessoas e a rede de apoio. "Um dos pontos importantes desse documento é chamar atenção para a necessidade de, na consulta, examinar a parte física e sentar com o paciente para entender qual rede vai protegê-lo no caso de ele ter dor no peito de novo, ter um AVC de novo. Para quem ele vai ligar? O risco de uma complicação em caso de isolamento é muito mais alto. O maior alerta do documento é este: pacientes que já tiveram um evento cardíaco ou cerebral precisam ter uma rede de proteção e apoio muito bem desenhada", diz Valdigem.>
Outro ponto do documento, esse ainda com poucas evidências, é a associação entre solidão e isolamento social e demência e deficiência cognitiva. "A pessoa que se sente sozinha geralmente é mais introvertida e tem maior dificuldade de interagir com os outros. Isso limita, no passar da sua vida, o estímulo cognitivo, importante para evitar e retardar o desenvolvimento de algumas demências e perda cognitiva. Quando você participa de uma atividade em grupo, por exemplo, você enriquece muito mais do ponto de vista cognitivo do que quando fica sentado estudando sozinho", comenta Lange.>
Os pesquisadores também ressaltam que o isolamento social em crianças está associado a fatores de risco cardiovascular, questão que já começa a surgir nos consultórios. "Na minha época de faculdade, doença cardíaca em criança era basicamente doença congênita. Agora é muito mais frequente encontrar pacientes infantis com síndrome metabólica. Hoje, crianças de todas as faixas etárias estão se tornando menos saudáveis", diz o cardiologista.>
Para os médicos, ao focar no impacto dos relacionamentos e na solidão, o documento traz evidências importantes sobre um assunto que ainda é pouco abordado na medicina e dá um passo no movimento de apresentar a saúde não como ausência de doença, mas sim como bem-estar.>
Por outro lado, eles lembram que ainda há muito a ser pesquisado e para o assunto ser abordado nas consultas é preciso haver tempo. Em um encontro apressado, não há formação de vínculo e nem a possibilidade de entender como o paciente se sente em relação ao convívio social.>
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