Conteúdo analisado: Uma postagem no Facebook viralizou com a afirmação de que uma pesquisa eleitoral no Paraná apontou um “índice de rejeição próximo de 70%” ao presidente Lula (PT), candidato à reeleição, o que acende um alerta para uma “derrota iminente” nas eleições presidenciais. O post foi feito em 24 de agosto e teve mais de 6,3 mil compartilhamentos e 15,3 mil comentários no Facebook.
Comprova Explica: Sem indicar a origem ou a data da pesquisa, a postagem compartilha um card com a imagem de Lula e o texto: “Rejeição de Lula chega a quase 70% no Paraná e equipe de campanha acende alerta para derrota iminente”.
O Comprova identificou que uma pesquisa realizada pela Quaest, em parceria com a plataforma de investimentos Genial, em julho, entre eleitores do Paraná, apontou que Lula era o candidato à Presidência mais rejeitado no estado (68% disseram que não votariam nele). Porém, ao contrário do que a postagem dá a entender, a rejeição no Paraná não significa que o candidato irá sofrer uma “derrota iminente”.
“Dizer que 68% de rejeição significa ‘derrota iminente’ é ir além do que a pesquisa permite afirmar”, afirmou a Quaest em nota ao Comprova. “O dado sustenta a conclusão de que Lula enfrenta uma situação eleitoral muito difícil no Paraná naquele momento. Não sustenta, sozinho, a conclusão de que ele está derrotado, porque pesquisa não prevê o futuro: ela mede o eleitorado no momento da coleta.”
Cientista político e CEO da Quaest, Felipe Nunes acrescenta que o colégio eleitoral do Paraná tem baixa representatividade no cenário nacional, e que nenhum dado de pesquisa feita em um estado pode ser extrapolado nacionalmente. “Ele representa exclusivamente a opinião daquela fração do eleitorado brasileiro”, afirma.
Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), José Paulo Martins Júnior reforça que o Paraná responde por cerca de 5% do eleitorado brasileiro e que, por isso, mesmo que a rejeição a Lula seja alta no estado, o dado não é capaz de significar uma derrota do candidato nas eleições neste momento.
“Ter uma alta taxa de rejeição no Paraná não significa absolutamente nada em termos de resultado geral”, explica o professor. “Se o dado fosse do estado de São Paulo ou de Minas Gerais, eu diria que, aí sim, ele poderia influenciar o resultado final.”
Segundo dados atualizados do TSE, São Paulo e Minas Gerais são os maiores colégios eleitorais do país, sendo seguidos por Rio de Janeiro e Bahia. Paraná aparece em quinto. A representatividade do eleitorado brasileiro em termos estaduais está dividida da seguinte forma:
- São Paulo: 34.104.226 eleitores – 21,48% do total
- Minas Gerais: 16.377.659 – 10,32%
- Rio de Janeiro: 12.857.000 – 8,10%
- Bahia – 11.321.005 – 7,13%
- Paraná – 8.609.026 – 5,42%
Martins ainda avalia que Lula está, no momento, com mais intenções de voto nos principais colégios eleitorais do país do que em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro.
Segundo o professor da UFF, outro aspecto que aponta para o inexpressivo impacto da rejeição de 68% no Paraná é o fato de o dado ser de julho. Martins explica que há uma tendência histórica de queda de rejeição de candidatos à reeleição à medida em que a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão avançam: “Isso porque o candidato tem a oportunidade de mostrar suas realizações. Mesmo que diminua pouco, a tendência é de queda”.
Felipe Nunes e José Paulo Martins fazem uma ressalva: em uma eleição acirrada, qualquer variação pode ser significativa, mesmo no Paraná. “Mas isso só pode se tornar uma realidade lá na frente, às vésperas da votação. Não em julho”, destaca o professor da UFF.
Uma pesquisa eleitoral é uma fotografia do período em que as entrevistas foram realizadas, não uma previsão do resultado das urnas. Para interpretar os números, é preciso observar informações como a data da coleta, a área abrangida, a pergunta feita, a margem de erro e o nível de confiança.
No caso da pesquisa Genial/Quaest, foram sorteados 59 municípios e feitas 1.104 entrevistas com eleitores do Paraná com 16 anos ou mais entre os dias 21 e 25 de julho. As amostras tentam reproduzir a composição da população, escolhendo pessoas de diferentes idades, sexos, rendas e escolaridades.
Para medir a rejeição, a pesquisa perguntou se o entrevistado conhecia cada candidato e votaria ou não nele. No caso de Lula, 68% responderam que o conheciam e não votariam nele, 30% disseram que o conheciam e votariam e 2% afirmaram que não o conheciam. Portanto, os 68% representam a parcela dos eleitores paranaenses entrevistados que rejeitavam Lula naquele período, e não o cenário nacional ou o resultado da eleição.
Considerando a margem de erro máxima de 3 pontos percentuais da pesquisa, o índice de rejeição pode variar entre 65% e 71%. Já o nível de confiança de 95% indica que, se a pesquisa for repetida 100 vezes, em 95 delas os resultados estarão dentro da margem de erro para mais ou para menos.
Sabendo o número de identificação do levantamento, é possível acessar o site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para conferir mais informações sobre determinada pesquisa eleitoral. As entidades que realizam esses levantamentos são obrigadas a registrar informações como custo, quais pessoas foram ouvidas e de que forma os questionamentos foram feitos.
No Instagram e no Facebook, a página publica notícias de variedades, segurança e política de alguns estados do país, além de classificados de negócios e eventos de Goiás. Algumas das publicações distorcem e exageram fatos que circulam na imprensa, aparentemente buscando aumentar o potencial de engajamento nas redes sociais.
Antes e depois da postagem sobre a rejeição de Lula, a Mundo Novo Mil Grau fez publicações com os resultados de pesquisas eleitorais de outros estados (MA, BA, MT) e citando as fontes. O Comprova entrou em contato com o administrador para questionar a motivação da postagem, mas não obteve retorno.
A publicação utiliza três principais táticas de persuasão para se comunicar com o público. A começar pela linguagem emocional, com expressões adjetivadas como “cenário desfavorável” e principalmente “derrota iminente”. Essa última, mesmo que a publicação deixe claro, na legenda, que se trata de uma “interpretação política”, o que sobressai é a imagem do card, com a chamada que vincula o dado de rejeição no Paraná diretamente a um sinal de fracasso nas eleições.
Além disso, também é possível perceber a estratégia de cherry-picking, quando a publicação seleciona informações e destaca exclusivamente um dado negativo. No entanto, o post não apresenta o instituto responsável pela pesquisa, o período de coleta, o número de entrevistados, a margem de erro ou outros resultados do levantamento que permitiriam contextualizar o percentual próximo a 70%.
Também é possível identificar uma tática de falácia lógica, pois há um salto entre o dado apresentado e a conclusão sugerida. Uma taxa de rejeição, isoladamente, não permite concluir que um candidato sofrerá uma “derrota iminente” na eleição, já que o resultado eleitoral depende de diversos fatores, incluindo intenção de voto, outros candidatos, evolução da campanha e comportamento do eleitorado até a votação.
Fontes consultadas: O Comprova analisou o relatório da pesquisa Genial/Quaest, os registros do levantamento na Justiça Eleitoral, a explicação da Quaest sobre sua metodologia em 2026 e as regras do TSE para pesquisas eleitorais, além das postagens da página “Mundo Novo Mil Grau”. O projeto também entrou em contato com a Quaest, o CEO da empresa, Felipe Nunes, e com o professor do Departamento de Ciência Política da UFF José Paulo Martins Junior. O Comprova ainda fez contato com o administrador da página, mas não houve resposta.
Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Para se aprofundar mais: Consulte a explicação da Quaest sobre as mudanças na metodologia das pesquisas para 2026 e o sistema do TSE para consultar pesquisas eleitorais registradas.
Investigação e verificação
Investigado por: Nexo, GZH, NSC, Estadão e Projeto de Residência Comprova
Texto verificado por: Correio Braziliense, A Gazeta e SBT News
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