Vídeos virais e manipulados por inteligência artificial (IA), divulgados por diferentes perfis no TikTok, exibem o senador e candidato à presidência da República pelo Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, segurando uma peça de picanha e supostamente defendendo que o salário mínimo seja R$ 3 mil para que “o povo possa comprar o que quiser”.
Em uma primeira análise, o Comprova já constatou pequenos detalhes e imperfeições visuais que evidenciam o uso de IA, como por exemplo, o rosto de Flávio Bolsonaro com aspecto excessivamente liso, sem poros ou rugas. Além disso, alguns dos vídeos contém a etiqueta “mídia gerada por IA” apontada pelas próprias plataformas.
O projeto também analisou a proposta de governo de Flávio Bolsonaro e não encontrou nenhuma informação ou citação sobre aumento de salário mínimo até R$ 3 mil.
Conforme apurado pelo Comprova, há outros vídeos sintéticos de Flávio ao lado do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com o mesmo discurso, mudando apenas o cenário.
Ademais, o Comprova fez uso de ferramentas de verificação dos conteúdos, como a Backstory, e identificou os padrões consistentes com a geração de imagens por IA. A busca reversa realizada pelo Google Lens identificou diferentes contas nas plataformas TikTok e Instagram, que divulgaram conteúdos semelhantes, e em distintos cenários.
Em entrevista ao Jornal Nacional, no dia 28 de agosto, Flávio Bolsonaro foi questionado sobre o salário mínimo, mas não respondeu se pretende alterar ou manter a atual fórmula de reajuste salarial.
O perfil analisado pelo Comprova reúne características suspeitas sobre a origem e a forma de produção de conteúdos. A conta apresenta poucas informações pessoais. Como nome de usuário, utiliza um endereço de e-mail e possui 36,8 mil seguidores. O perfil publicou outros quatro vídeos de Flávio Bolsonaro segurando a picanha, com o mesmo discurso.
No perfil, os cinco vídeos sintéticos de Flávio atingiram 696,4 mil visualizações e 62 mil curtidas. O Comprova tentou entrar em contato com o responsável pelo perfil, mas não recebeu resposta até a publicação desta checagem.
Entre as estratégias usadas para chamar a atenção dos usuários estão o uso de conteúdo sintético, a divisão entre grupos políticos e o apelo à emoção. A combinação desses elementos cria uma situação que não corresponde à realidade e busca aumentar o conflito político. Para isso, os vídeos recorrem a temas de forte impacto social, como o preço dos alimentos básicos, e transformam uma questão econômica complexa em um ataque simples contra adversários políticos.
Os vídeos também incentivam os usuários a interagir com as publicações por meio de frases como “se você concorda, comenta e segue”, “clique em todos os botões ao lado” e “comenta Brasil 22”. A estratégia busca manipular o engajamento orgânico das redes sociais, aumentando o número de comentários, curtidas e compartilhamentos. Com mais interações, a publicação pode ser considerada relevante pelos sistemas de recomendação das redes sociais e alcançar um número maior de pessoas.
Para detectar conteúdos em vídeo que tenham sido manipulados por inteligência artificial é preciso olhar com atenção e de maneira crítica. Como não há um “selo único” de falsificação, a análise deve combinar a observação de detalhes visuais, a checagem do contexto e o uso de dados técnicos.
O material explicativo do Aos Fatos cita alguns sinais de manipulação para ter atenção: sinais visuais e de áudio, área focal, contexto da cena e marcas d’água.
O guia da Global Investigative Journalism Network (GIJN) para detectar conteúdo gerado por IA, elaborado pelo especialista em buscas on-line e inteligência artificial Henk van Ess, recomenda alguns pontos de atenção: observar possíveis falhas anatômicas; desconfiar de uma aparência perfeita demais para a situação; conferir se roupas, vegetação, iluminação, arquitetura e veículos são compatíveis com a data e o local atribuídos ao vídeo; verificar quem publicou o conteúdo e procurar outros registros do mesmo acontecimento.
É importante também ficar atento aos rostos e expressões. Repare na textura da pele: se parecer de plástico ou perfeita demais para o contexto, desconfie. Áudio e sincronia também escondem alterações. Fique atento ao movimento dos lábios, se acompanham perfeitamente a fala, sobretudo em consoantes que exigem o fechar da boca (como P, B e M). Avalie se o áudio possui respiração natural, pausas de hesitação e a acústica adequada para o ambiente mostrado.
Um caminho também é verificar outras publicações do mesmo criador, para analisar o histórico, consistência do conteúdo e padrões de edição.
Esses tipos de conteúdos integram o que os pesquisadores do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) chamam de campanha “Firehose”, que é a distribuição massiva e multiplataforma da desinformação, que se caracteriza pelo grande volume, rapidez, continuidade e repetição.
Na série, a Trilha sobre desinformação, uma parceria da Politize! com o *desinformante, há também a citação sobre ações articuladas e coordenadas para criar narrativas desinformativas, principalmente em eleições com o uso de contas falsas, perfis de pessoas fictícias, e de canais de conteúdo.
Fontes que consultamos: O Comprova utilizou ferramentas para verificar a autenticidade dos vídeos, incluindo o Backstory e o Google Lens. Também pesquisou e analisou o plano de governo de Flávio Bolsonaro, além de uma entrevista recente do candidato à TV Globo. Assim como utilizou orientações do guia da Global Investigative Journalism Network (GIJN) sobre conteúdos gerados por IA.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: O Comprova checou um vídeo em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com cinco dedos na mão esquerda, contendo manipulação por inteligência artificial (IA) e que alimentava teorias conspiratórias sobre o uso de um sósia. A Agência Lupa checou e identificou deepfakes de Lula, Bolsonaro e outras figuras públicas em plataformas como o TikTok, que visam monetização.
Investigação e verificação
Investigado por: A Gazeta, Correio Braziliense e Projeto de Residência Comprova
Texto verificado por: Correio de Carajás, GZH, AFP e Agência Tatu
O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a fraudes virtuais. A Gazeta faz parte dessa aliança.
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