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Projeto Comprova

Flávio Bolsonaro não prometeu salário mínimo de R$ 3 mil; informação circula em vídeos com IA

Vídeos de Flávio Bolsonaro manipulados por IA desinformam sobre promessa de aumento do salário mínimo em um eventual mandato de governo

Publicado em 02 de Setembro de 2026 às 17:11

Redação de A Gazeta

Publicado em 

02 set 2026 às 17:11
Conteúdo foi investigado pelo Comprova
Conteúdo foi investigado pelo Comprova Projeto Comprova

Vídeos virais e manipulados por inteligência artificial (IA), divulgados por diferentes perfis no TikTok, exibem o senador e candidato à presidência da República pelo Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, segurando uma peça de picanha e supostamente defendendo que o salário mínimo seja R$ 3 mil para que “o povo possa comprar o que quiser”.


Em uma primeira análise, o Comprova já constatou pequenos detalhes e imperfeições visuais que evidenciam o uso de IA, como por exemplo, o rosto de Flávio Bolsonaro com aspecto excessivamente liso, sem poros ou rugas. Além disso, alguns dos vídeos contém a etiqueta “mídia gerada por IA” apontada pelas próprias plataformas. 


O projeto também analisou a proposta de governo de Flávio Bolsonaro e não encontrou nenhuma informação ou citação sobre aumento de salário mínimo até R$ 3 mil. 


Conforme apurado pelo Comprova, há outros vídeos sintéticos de Flávio ao lado do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com o mesmo discurso, mudando apenas o cenário.


Ademais, o Comprova fez uso de ferramentas de verificação dos conteúdos, como a Backstory, e identificou os padrões consistentes com a geração de imagens por IA. A busca reversa realizada pelo Google Lens identificou diferentes contas nas plataformas TikTok e Instagram, que divulgaram conteúdos semelhantes, e em distintos cenários. 


Em entrevista ao Jornal Nacional, no dia 28 de agosto, Flávio Bolsonaro foi questionado sobre o salário mínimo, mas não respondeu se pretende alterar ou manter a atual fórmula de reajuste salarial.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O perfil analisado pelo Comprova reúne características suspeitas sobre a origem e a forma de produção de conteúdos. A conta apresenta poucas informações pessoais. Como nome de usuário, utiliza um endereço de e-mail e possui 36,8 mil seguidores. O perfil publicou outros quatro vídeos de Flávio Bolsonaro segurando a picanha, com o mesmo discurso. 


No perfil, os cinco vídeos sintéticos de Flávio atingiram 696,4 mil visualizações e 62 mil curtidas. O Comprova tentou entrar em contato com o responsável pelo perfil, mas não recebeu resposta até a publicação desta checagem.

Táticas orquestradas nas redes sociais

Entre as estratégias usadas para chamar a atenção dos usuários estão o uso de conteúdo sintético, a divisão entre grupos políticos e o apelo à emoção. A combinação desses elementos cria uma situação que não corresponde à realidade e busca aumentar o conflito político. Para isso, os vídeos recorrem a temas de forte impacto social, como o preço dos alimentos básicos, e transformam uma questão econômica complexa em um ataque simples contra adversários políticos.


Os vídeos também incentivam os usuários a interagir com as publicações por meio de frases como “se você concorda, comenta e segue”, “clique em todos os botões ao lado” e “comenta Brasil 22”. A estratégia  busca manipular o engajamento orgânico das redes sociais, aumentando o número de comentários, curtidas e compartilhamentos. Com mais interações, a publicação pode ser considerada relevante pelos sistemas de recomendação das redes sociais e alcançar um número maior de pessoas.

Vídeo com IA mostra Flávio Bolsonaro prometendo salário mínimo de R$ 3 mil
Vídeo com IA mostra Flávio Bolsonaro prometendo salário mínimo de R$ 3 mil Projeto Comprova
Como identificar se um vídeo foi gerado por IA ou não

Para detectar conteúdos em vídeo que tenham sido manipulados por inteligência artificial é preciso olhar com atenção e de maneira crítica. Como não há um “selo único” de falsificação, a análise deve combinar a observação de detalhes visuais, a checagem do contexto e o uso de dados técnicos.


O material explicativo do Aos Fatos cita alguns sinais de manipulação para ter atenção: sinais visuais e de áudio, área focal, contexto da cena e marcas d’água.  


O guia da Global Investigative Journalism Network (GIJN) para detectar conteúdo gerado por IA, elaborado pelo especialista em buscas on-line e inteligência artificial Henk van Ess, recomenda alguns pontos de atenção: observar possíveis falhas anatômicas; desconfiar de uma aparência perfeita demais para a situação; conferir se roupas, vegetação, iluminação, arquitetura e veículos são compatíveis com a data e o local atribuídos ao vídeo; verificar quem publicou o conteúdo e procurar outros registros do mesmo acontecimento. 


É importante também ficar atento aos rostos e expressões. Repare na textura da pele: se parecer de plástico ou perfeita demais para o contexto, desconfie. Áudio e sincronia também escondem alterações. Fique atento ao movimento dos lábios, se acompanham perfeitamente a fala, sobretudo em consoantes que exigem o fechar da boca (como P, B e M). Avalie se o áudio possui respiração natural, pausas de hesitação e a acústica adequada para o ambiente mostrado.


Um caminho também é verificar outras publicações do mesmo criador, para analisar o histórico, consistência do conteúdo e padrões de edição.


Esses tipos de conteúdos integram o que os pesquisadores do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) chamam de campanha “Firehose”, que é a distribuição massiva e multiplataforma da desinformação, que se caracteriza pelo grande volume, rapidez, continuidade e repetição. 


Na série, a Trilha sobre desinformação, uma parceria da Politize! com o *desinformante, há também a citação sobre ações articuladas e coordenadas para criar narrativas desinformativas, principalmente em eleições com o uso de contas falsas, perfis de pessoas fictícias, e de canais de conteúdo.


Fontes que consultamos: O Comprova utilizou ferramentas para verificar a autenticidade dos vídeos, incluindo o Backstory e o Google Lens. Também pesquisou e analisou o plano de governo de Flávio Bolsonaro, além de uma entrevista recente do candidato à TV Globo. Assim como utilizou orientações do  guia da Global Investigative Journalism Network (GIJN) sobre conteúdos gerados por IA.


Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.


Outras checagens sobre o tema: O Comprova checou um vídeo em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com cinco dedos na mão esquerda, contendo manipulação por inteligência artificial (IA) e que alimentava teorias conspiratórias sobre o uso de um sósia. A Agência Lupa checou e identificou deepfakes de Lula, Bolsonaro e outras figuras públicas em plataformas como o TikTok, que visam monetização. 


Investigação e verificação

Investigado por: A Gazeta, Correio Braziliense e Projeto de Residência Comprova


Texto verificado por: Correio de Carajás, GZH, AFP e Agência Tatu


O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a fraudes virtuais. A Gazeta faz parte dessa aliança.

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