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Operação

MP mira operadores financeiros do PCC que atuavam em tribunais do crime em SP

Investigados são suspeitos de movimentar recursos do crime e participar de reuniões para resolver conflitos financeiros entre membros da facção

Publicado em 21 de Julho de 2026 às 14:49

Agência FolhaPress

Publicado em 

21 jul 2026 às 14:49

Uma operação do Ministério Público de São Paulo deflagrada nesta terça-feira (21) mira um grupo suspeito de movimentar valores ilícitos a favor do PCC (Primeiro Comando da Capital) e que também teria participação nos chamados tribunais do crime, por meio do qual a facção pune —inclusive com morte— quem quebrar suas regras.


As investigações são conduzidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado), braço especializado do Ministério Público contra organizações criminosas, e resultam do conteúdo armazenado em celulares apreendidos em três operações anteriores.


Segundo as investigações, os suspeitos atuavam na troca de transferências eletrônicas por valores em espécie e vice-versa. Os próprios investigados falavam em "troca de TED por vivo", de acordo com as autoridades.


Quem tinha dinheiro em espécie proveniente do tráfico (o "vivo") entregava as cédulas ao grupo e, em troca, recebia uma transferência bancária, que já entrava no sistema financeiro com aparência lícita, sob alguma justificativa econômica.


Isso ocorria por meio de empresas de fachada. A Promotoria diz que uma delas pertencia a uma cabeleireira em nome de quem havia uma empresa de importação e exportação e outra, por sua vez, a uma moradora de um conjunto habitacional em Itapevi, dona de uma firma de ecommerce.


Segundo as investigações, a movimentação real nessas contas bancárias era incompatível com a declarada. Parte disso contava com dois antigos conhecidos do Poder Judiciário: Meire Poza e Leonardo Meirelles, investigados na Operação Lava Jato sob a suspeita de integrar a estrutura financeira do doleiro Alberto Youssef.


Em março deste ano, ambos foram alvo de uma operação, a Baazar, que apura crimes de corrupção e lavagem de dinheiro dentro da Polícia Civil de São Paulo. Meire chegou a ser presa, mas foi solta uma semana depois por meio de um habeas corpus.


A decisão que autorizou a operação desta terça diz que as investigações identificaram "a vinculação entre os operadores financeiros que atuavam como corruptores na Operação Bazaar e o PCC".


Segundo a Promotoria, foram identificadas orientações de Meire para ocultação de rendimentos ilícitos. Um promotor do Gaeco disse à Folha que as investigações demonstram a existência de um núcleo de pessoas que prestam serviços de lavagem de dinheiro em setores distintos —da corrupção policial ao PCC— e que têm grande conhecimento sobre as técnicas de lavagem ou de ocultação de patrimônio.


Segundo esse promotor, os prestadores são procurados por diversos tipos de clientes e têm domínio sobre uma grande circulação de valores.


A Folha entrou em contato com o advogado que defende Meire no âmbito da Baazar, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. A reportagem tenta localizar a defesa de Meirelles. A operação desta terça cumpre ao todo 18 mandados de prisão e outros 18 de busca e apreensão.

Léo do Moinho

Além de Meire e de Meirelles, as diligências também miram Leonardo Monteiro Moja, o Léo do Moinho, antiga liderança da Favela do Moinho, na região central de São Paulo. Leonardo está preso desde 2024 sob a suspeita de tráfico de drogas. No ano passado, a Polícia Civil e o Ministério Público apontaram que ele mantinha controle sobre o Moinho mesmo detido.


A operação desta terça menciona Léo em duas frentes. A primeira envolve a própria lavagem de dinheiro --as investigações dizem que ele se tornou um "relevante cliente" nas operações de lavagem de dinheiro do grupo.


A segunda, por sua vez, o conecta a um tribunal do crime realizado por ocasião de desavenças sobre o pagamento de R$ 2 milhões num imóvel em Riviera de São Lourenço, em Bertioga, litoral paulista. A disputa não era especificamente dele, mas de Cléber Azevedo dos Santos, também alvo da Baazar.


Numa conversa obtida pela polícia, Cléber "informou estar enfrentando problemas relacionados às 'ideias do comando' [sic] acerca de imóvel de sua propriedade em Riviera e esclareceu que a questão seria dirimida no 'resumo de SP'". Seria "uma referência aos mecanismos paralelos de resolução de conflitos instituídos pelo crime organizado", segundo a Justiça.


Segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, mensagens obtidas ao longo das investigações mostram que coube a Léo encaminhar o caso de Cléber ao tribunal do crime. O advogado dele, Rodrigo Benetti, declarou à Folha desconhecer "o teor de qualquer investigação, a não ser pelo que está sendo veiculado na mídia" e afirmou que "nem ele se reconhece com essa nomenclatura (vulgo) que há anos vem sendo pejorativamente imputada a ele", em referência a "Léo do Moinho".


A defesa afirmou ainda que "esta arbitrária e abusiva prisão será revogada" e que reafirma a inocência de Leonardo. "Nos causa até espanto, mais uma vez, essa situação onde uma investigação (se é que existe) em tese em segredo de Justiça não é de conhecimento da defesa ou dos acusados e já está sendo amplamente veiculada na imprensa", declarou.


O responsável por essa intermediação teria sido Antônio Carlos Ubaldo Júnior, também alvo da operação Baazar em março. Ubaldo foi funcionário comissionado do deputado estadual Rodrigo Moraes (PL) na Assembleia Legislativa de São Paulo durante um ano e dois meses.


O gabinete do parlamentar declarou à Folha que "Ubaldo integrou o quadro entre 12/04/2023 e 14/06/2024, data em que seu vínculo foi encerrado" e que "desde então, não mantém qualquer relação profissional ou institucional com o mandato".


"O deputado Rodrigo Moraes não é investigado, não é alvo da operação mencionada e não possui qualquer conhecimento sobre os fatos que motivaram a ação policial contra o ex-funcionário", afirmou.

Bloqueio de bens

A Justiça também determinou o bloqueio de contas bancárias e aplicações financeiras, a indisponibilidade de imóveis e veículos e o sequestro de bens dos investigados até o limite de R$ 10 milhões por investigado, além de medidas de constrição sobre empresas suspeitas de fazerem parte da estrutura financeira que dá apoio às atividades do PCC.


O nome da operação faz referência a Janus, divindade romana associada às passagens e transições, remetendo à atuação investigada de movimentação de recursos entre o dinheiro em espécie e o sistema financeiro formal.


Os mandados são cumpridos com apoio da Polícia Militar.

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