BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a afirmar nesta sexta-feira (6) que tem compromisso com a responsabilidade das contas públicas, num novo aceno ao mercado. O petista também disse que passará a acompanhar pessoalmente as entregas, cobrando o cumprimento dos prazos das ideias a serem implementadas no seu novo governo.
"Quantos países do mundo têm a seriedade fiscal que temos? Pegamos esse governo com déficit de 2,8% e agora estamos entregando o orçamento com superávit. Mas temos consenso de que o pobre não pagará a conta. Nós não levaremos o povo pobre a nenhum sacrifício", disse Lula durante reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), em Brasília.
A reunião do conselho aprovou uma resolução que estabelece diretrizes para a redução gradual da dependência de combustíveis fósseis no país.
Ao fim do evento, os ministros detalharam as metas de transição energética e o que foi alcançado no prazo da COP31, conferência climática da ONU que ocorrerá entre 9 e 20 de novembro, na Turquia. Entre os temas tratados, a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, comentou que há a intenção de que a regulamentação do Redata seja anunciada na semana seguinte à viagem do presidente ao evento.
Em seu discurso, Lula deu destaque a produções brasileiras de carros híbridos. "Não sei se o carro elétrico ou ônibus elétrico vai ser o que vai predominar. Não sei se temos competência de produzir energia para tudo que precisamos, porque a prioridade é iluminar a casa das pessoas, hospitais e escolas", declarou.
O governo federal enviou em agosto o Projeto de Lei Orçamentária com a previsão de um superávit primário de R$ 18,6 bilhões para 2027. O Orçamento do próximo ano ainda será analisado pelo Congresso.
Lula vem sendo cobrado pelo mercado a indicar as diretrizes econômicas do seu novo governo. O presidente reeleito, porém, tem segurado o nome do seu próximo ministro da Fazenda. Hoje, a pasta é comandada por Dario Durigan, que era secretário-executivo de Fernando Haddad e assumiu o cargo após o petista deixar a Esplanada para concorrer na eleição em São Paulo.
As medidas anunciadas por Lula antes da eleição, como o reajuste do Bolsa Família e o novo programa de renegociação de dívidas, geraram uma má reação no mercado, que fechou em baixa após o petista virar a eleição contra Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno.
Houve expectativa de que Lula antecipar o nome do seu ministro da Fazenda para acalmar o mercado. Um dos nomes cotados é o do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT). Apesar disso, o presidente decidiu aguardar, principalmente diante de divergências internas do governo e do seu partido.
Na quinta-feira (5), Lula falou em responsabilidade fiscal durante um evento sobre a política nacional para as terras raras. O presidente puxou o assunto ao falar sobre atração de investimentos para o setor.
"Aqui também está dito que se a gente quiser atrair capital, temos que ter seriedade. Ninguém vai colocar dinheiro aqui pelos belos cabelos do Lula ou do [vice-presidente Geraldo] Alckmin. As pessoas vão colocar se perceberem que os investimentos deles vão gerar retorno financeiro. É por isso que precisamos ter responsabilidade jurídica. É por isso que temos que ter responsabilidade fiscal", comentou.
Ainda nesta sexta-feira, Lula indicou uma mudança de postura para o seu quarto mandato. O presidente disse que acompanhará pessoalmente como as decisões do governo serão implementadas e vai cobrar entregas dentro do prazo.
"Além da Casa Civil, o Lulinha vai ser fiscal do cumprimento de cada coisa que a gente aprovar. Aprovou, quero saber data de entrega, quanto tempo, porque o Brasil não pode esperar. Estou com pressa", disse Lula no evento.
O presidente ainda expressou desejo de oferecer um retorno aos eleitores: "Quando vejo aquelas pessoas com dificuldade andando... Hoje eu fui para a esteira, fazer panturrilha, braço, correr 8 km/h. Queria que eles tivessem como eu, mas não estão, não tiveram a mesma sorte que eu tive. Mas quero que eles tenham o prazer de ver que valeu a pena levantar pra votar", disse.
A virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro é atribuída à queda da abstenção entre o primeiro e o segundo turno. Após a derrota na primeira rodada da eleição, o PT apostou na mobilização para tirar eleitores de casa.