Ao contrário do que afirmam algumas publicações no X, a imagem do ministro Alexandre de Moraes, ao lado de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, desembarcando de uma aeronave ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, é verdadeira e não foi gerada por inteligência artificial (IA). A foto analisada pelo Comprova é uma captura de tela de um vídeo, publicado inicialmente pelo O Globo e posteriormente reproduzido nas redes sociais, com a adição da frase: “Não é Alexandre de Moraes”.
Após a divulgação das imagens, surgiram diversas versões sobre os voos. O ministro manteve a afirmação de que nunca havia viajado em aeronaves de Vorcaro. Já o escritório de sua mulher confirmou que contratou serviços de táxi aéreo da empresa ligada ao ex-banqueiro. Em nota, o escritório afirmou que, em determinadas viagens, Viviane foi acompanhada pelo marido.
O Comprova submeteu a imagem ao Undetectable AI, ferramenta de detecção de conteúdo gerado por IA, que apontou 76% de probabilidade de a imagem ser real. Na comparação com o vídeo publicado originalmente pelo O Globo, é possível observar que a imagem compartilhada nas redes sociais é um recorte ampliado da gravação, com menos pessoas ao redor e maior destaque ao ministro e sua esposa.
A imagem também foi analisada pelo Google Gemini, que apontou alteração apenas na inclusão da frase sobre a foto original. A ferramenta classificou o conteúdo como “contexto enganoso” e indicou que o vídeo utilizado como base é autêntico.
Em março deste ano, a coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, revelou por meio do cruzamento de dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e do Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), que Alexandre de Moraes e Viviane Barci de Moraes haviam realizado oito viagens em aeronaves de empresas ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Em resposta à coluna, o gabinete de Alexandre de Moraes afirmou em abril que a matéria era “fantasiosa” e que suas afirmações eram “absolutamente falsas”. “O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel (cunhado de Daniel Vorcaro), a quem nem conhece”, completou.
Na mesma época, o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci, informou que contrata diferentes serviços de táxi aéreo e que, entre as empresas utilizadas, estava a Prime Aviation, ligada à Prime You, empresa associada a Vorcaro. O escritório afirmou que, nos voos realizados por seus integrantes, Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel não estavam presentes e que todos os valores eram pagos mediante compensação de honorários advocatícios, conforme os contratos firmados.
O escritório também declarou que nenhum de seus integrantes conhecia Zettel e que “jamais viajou em aviões de Daniel Vorcaro ou de Fabiano Zettel”. A nota ainda contestava as conclusões da reportagem, argumentando que os dados utilizados não permitiam identificar especificamente os passageiros dos voos.
Em setembro, porém, o colunista d’O Globo Lauro Jardim divulgou um vídeo da Aviation TV (AVTV) que mostra Alexandre de Moraes e Viviane Barci desembarcando no Aeroporto Santos Dumont após um voo realizado em um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, aeronave pertencente à Prime You. A publicação foi apresentada como evidência de que o casal utilizou ao menos uma aeronave ligada ao grupo empresarial de Vorcaro.
Após a divulgação do vídeo, o escritório Barci de Moraes divulgou uma nova nota. Diferentemente da manifestação de março, o texto reconheceu que a Prime Aviation foi contratada em “determinadas ocasiões” e informou que, em alguns voos realizados pela empresa, Viviane Barci esteve acompanhada de Alexandre de Moraes.
O escritório reiterou que Vorcaro não estava presente nas viagens e afirmou que a contratação dos serviços seguia “critérios operacionais, sem “qualquer vínculo pessoal com os proprietários das aeronaves”. Também declarou que não possui contrato de prestação de serviços advocatícios com a Prime Aviation.
O conteúdo investigado foi divulgado por duas contas no X. A primeira publicação, que alcançou 168,2 mil visualizações, foi feita por um perfil que se intitula socióloga e servidora pública e afirma ter posicionamento político de esquerda.
É possível que o perfil seja um bot, dada a velocidade com que essas publicações são feitas (muitas vezes postando vídeos longos ou notícias logo após o acontecimento), o que sugere o uso de ferramentas de automação (como o TweetDeck ou APIs de postagem) programadas para manter o perfil ativo 24 horas por dia.
Já a publicação do segundo perfil alcançou 313 mil visualizações. O usuário se apresenta no X como profissional do mercado financeiro e especialista em Order Flow. Na descrição do perfil, informa ter mais de 15 anos de atuação como trader, ser campeão brasileiro de pôquer e oferecer ferramentas e cursos relacionados ao mercado financeiro.
Os dois perfis são verificados e comentam sobre assuntos políticos em alta. É possível que eles estejam utilizando as postagens para gerar engajamento e obter remuneração da plataforma. O Comprova entrou em contato com ambos os perfis, até a publicação desta matéria não obtivemos retorno.
Táticas como ataque à credibilidade e deslegitimação do conteúdo podem ter contribuído para que pessoas tenham acreditado no conteúdo da publicação. Quando o post aponta perfis de veículos de imprensa profissionais e alega que eles teriam cometido um “crime” por supostamente ter cometido um erro de identificação na imagem, a publicação busca minar a confiança do público no jornalismo profissional.
E ainda se combina à tática do apelo emocional e polarização, ao usar termos comemorativos que incitam o confronto. Somado a isso, o uso de recursos visuais chamativos, como caixas de texto sobrepostas afirmando que “NÃO É Alexandre de Moraes”, induz o leitor a uma conclusão precipitada antes mesmo que a imagem ou o vídeo possam ser devidamente checados ou contextualizados.
A provocação feita pela publicação estimula ainda o engajamento e o compartilhamento acelerado, fazendo com que o conteúdo viralize nas redes sociais antes que a verificação dos fatos possa ser feita.
Fontes que consultamos: O Comprova comparou a imagem investigada com o vídeo original publicado pelo O Globo e consultou as manifestações do escritório Barci de Moraes sobre os voos realizados pela Prime Aviation. A imagem também foi analisada pelas ferramentas Undetectable e Google SynthID, para verificar possíveis alterações e identificar a origem do conteúdo.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou outras postagens envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, como um vídeo que defende que o ex-presidente Jair Bolsonaro poderia ser solto caso Moraes fosse preso e um conteúdo gerado por inteligência artificial que diz que o Jornal Nacional anunciou um pedido de prisão preventiva contra o ministro.
Notas da comunidade: Há uma nota da comunidade junto a um dos posts. Ela informa que “a imagem foi aprimorada por IA, que pode reconstruir ou inventar detalhes ausentes na imagem original, especialmente em imagens de baixa qualidade, comprometendo a fidelidade aos detalhes reais” e fornece como link adicional uma página da Wikipédia sobre alucinações de inteligência artificial.
Investigação e verificação
Investigado por: A Gazeta, Correio Braziliense, Nexo, GZH e Programa de Residência do Projeto Comprova
Texto verificado por: Correio de Carajás, NSC, Correio do Estado e Programa de Residência do Projeto Comprova
O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a fraudes virtuais. A Gazeta faz parte dessa aliança.
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