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Projeto Comprova

Como são feitas as pesquisas eleitorais? Entenda metodologias

Amostra, entrevistas, margem de erro, ponderação e período da coleta ajudam a entender o que os números de uma pesquisa mostram

Publicado em 24 de Setembro de 2026 às 18:06

Redação de A Gazeta

Publicado em 

24 set 2026 às 18:06
Conteúdo analisado pelo Comprova
Conteúdo analisado pelo Comprova Projeto Comprova

Conteúdo analisado: Post no X afirma que em época eleitoral, com tantas pesquisas publicadas, entramos na era da “cegonha das pesquisas eleitorais”. O usuário afirma que as pesquisas trazem “os dados no bico, as pessoas discutem com grande autoridade, e poucos se dão ao trabalho de entender como os dados foram produzidos”. Ao final, propõe que alguém explique as técnicas da coleta de dados e modelagem estatística para os que acompanham a política.


Comprova Explica: Às vésperas de mais uma eleição geral no Brasil, as pesquisas eleitorais voltam ao centro do debate, pois funcionam como um termômetro das campanhas políticas.


Só neste ano, até o dia 23 de setembro, foram registradas 2.928 pesquisas eleitorais no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em todo o país até 24 de setembro, a um custo total de R$ 170.965.325,86. Em 2022, por exemplo, última eleição presidencial, o ano finalizou com 2.971 pesquisas que custaram R$ 142.836.303,03.


Com tantas pesquisas de diferentes institutos publicadas nesse período e uma enxurrada de termos como amostra, margem de erro e ponderação, muita gente acaba tendo dificuldade em saber como elas de fato são feitas ou em avaliar se um levantamento é confiável. A seguir, o Comprova Explica traz detalhes sobre o tema. 

Como funcionam as pesquisas eleitorais

As pesquisas analisam uma amostra representativa do eleitorado, sendo que o instituto responsável define o público-alvo, seleciona a amostra por critérios estatísticos, aplica o questionário e estima o cenário político daquele período.


Os levantamentos destinados à divulgação pública devem ser registrados no sistema PesqEle, do TSE, até cinco dias antes da publicação. O registro reúne contratante, metodologia, plano amostral, margem de erro, nível de confiança e o questionário. O TSE disponibiliza esses dados para consulta pública, mas não realiza nem aprova previamente os resultados.

Como uma pesquisa consegue estimar a intenção de voto de milhões de eleitores ouvindo apenas algumas centenas ou milhares de pessoas?

O segredo de um levantamento não está no volume absoluto de entrevistados, mas na representatividade do grupo selecionado, segundo explicação da Quaest ao Comprova. O instituto diz que o princípio é o mesmo de um exame de sangue: não é necessário extrair todo o sangue do corpo para medir a glicose, pois uma pequena amostra, coletada corretamente, reflete o todo.


Para construir essa “miniatura” da população (amostra estatística), os institutos aplicam a amostragem estratificada com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do TSE. O eleitorado é segmentado em cotas proporcionais que reproduzem a sociedade em sexo, idade, escolaridade, renda e região, entre outros. Dentro dessas cotas, a escolha de quem será entrevistado deve ser puramente aleatória, garantindo que cada indivíduo com aquele perfil tenha a mesma probabilidade de ser sorteado.

Como é definido quem será entrevistado? O tamanho da amostra não precisa ser proporcional ao tamanho do eleitorado? Por quê?

No caso da Quaest, por exemplo, a seleção é feita em etapas: sorteiam-se primeiro os municípios (com probabilidade proporcional ao eleitorado local), depois as regiões ou os setores censitários e, finalmente, os domicílios e as pessoas, respeitando as cotas populacionais.


O instituto explica que o tamanho da amostra não precisa crescer proporcionalmente ao do eleitorado. A margem de erro e a precisão estatística dependem do tamanho absoluto da amostra e do rigor na seleção do grupo, não da população total. A partir de um determinado volume de entrevistas (cerca de 2 mil em pesquisas nacionais no Brasil), o ganho de precisão ao aumentar a amostra torna-se muito pequeno. É por isso que uma pesquisa nacional com 2 mil entrevistados pode apresentar uma margem de erro semelhante à de uma pesquisa estadual com 2 mil entrevistados.


“Toda pesquisa de opinião não é nada mais, nada menos do que um retrato do momento. Cada vez mais, com notícias saindo e a campanha acontecendo, é natural que os eleitores mudem de opinião”, detalha Guilherme Russo, diretor de Inteligência da Quaest, ao G1 Amazonas.


O Datafolha também explica que, quando realiza uma pesquisa para conhecer a intenção de voto do eleitorado brasileiro, ouve apenas um grupo de pessoas (amostra) cujas características (idade, sexo, escolaridade, distribuição regional etc.) representam o conjunto de cerca de 136 milhões de eleitores (universo).

Conteúdo do Comprova explica como funcionam as pesquisas
Conteúdo do Comprova explica como funcionam as pesquisas Projeto Comprova
O que é ponderação em uma pesquisa eleitoral? Ela é necessária? 

De acordo com o TSE, a ponderação é um ajuste estatístico pós-coleta aplicado para garantir que a composição da amostra corresponda com exatidão às proporções da população pesquisada. Caso algum grupo tenha ficado proporcionalmente acima ou abaixo do peso esperado na amostragem, suas respostas recebem um peso ajustado no cálculo final.


A ponderação não é um procedimento padronizado ou obrigatório de forma idêntica para todas as pesquisas, pois depende da metodologia de cada instituto. A legislação exige, contudo, que o plano amostral e a ponderação adotada (por sexo, idade, escolaridade, nível econômico e área) sejam declarados no registro do TSE.

A ponderação altera o resultado de uma pesquisa? Como? 

Sim. Como a ponderação atribui pesos diferentes às respostas de cada segmento, ela pode alterar os percentuais finais obtidos em comparação à contagem direta das entrevistas.


Por exemplo, se determinado grupo representa 20% da população real, mas compõe 25% da amostra coletada, suas respostas terão menor peso no resultado final. Da mesma forma, grupos sub-representados recebem peso maior. Por essa razão, ao comparar pesquisas, deve-se verificar a construção da amostra e os critérios de ponderação informados no PesqEle.

O que são margem de erro e nível de confiança — e o que significam na prática? 
  • Margem de erro: É a estimativa da variação máxima, para mais ou para menos, em torno do resultado obtido na amostra. Se um candidato aparece com 24% de intenção de voto e a margem de erro é de 3 pontos percentuais, a votação real provável estaria entre 21% e 27%.
  • Nível de confiança: Indica a probabilidade do resultado real da população estar dentro do intervalo da margem de erro. O padrão utilizado no Brasil é de 95%.


Na prática, um nível de confiança de 95% significa que, se a pesquisa fosse repetida 100 vezes com amostras idênticas, em cerca de 95 delas o resultado estaria dentro da margem de erro divulgada e em 5 ficaria fora dela.

O que significa quando dois candidatos estão tecnicamente empatados? 

O empate técnico ocorre quando a diferença de pontuação entre dois candidatos é menor do que o dobro da margem de erro da pesquisa. Como os intervalos de erro de ambos os candidatos se sobrepõem, não é possível afirmar, com base no levantamento, qual deles está efetivamente à frente no eleitorado real naquele momento.

Por que pesquisas diferentes, realizadas quase na mesma época, podem apresentar resultados distintos?

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, pesquisas capturam a preferência dos eleitores em um determinado momento. Além de pequenas variações nas datas de coleta, cada instituto pode aplicar metodologias e amostras distintas: há diferenças na forma de abordagem (presencial ou por telefone), no plano amostral, nos critérios de ponderação (sexo, idade, escolaridade, renda), no período de campo, na margem de erro e no nível de confiança.

Por que uma pesquisa pode estar metodologicamente correta e, ainda assim, não acertar o resultado da eleição? Ela pode ser interpretada como uma previsão do resultado eleitoral?

Uma pesquisa eleitoral não é uma previsão do resultado das urnas, mas sim uma “fotografia” do período em que as entrevistas foram realizadas. Ela retrata exclusivamente a intenção de voto do momento da coleta. Entre a realização das entrevistas e o dia da votação, o eleitor pode mudar de opinião, fatos novos podem alterar o cenário político e uma parcela expressiva de eleitores pode decidir o voto apenas na reta final.


Como ler uma pesquisa eleitoral?

Para interpretar os números corretamente e evitar confusões com previsões, o Comprova recomenda analisar as informações oficiais cadastradas no TSE: a data da coleta, a abrangência geográfica, a pergunta formulada, o perfil da amostra, a margem de erro e o nível de confiança.


Fontes consultadas: Buscamos informações no TSE e no Datafolha e ouvimos a Quaest.


Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.


Para se aprofundar mais: O Comprova verificou conteúdos que confundem enquetes em redes sociais com pesquisas eleitorais. O Aos Fatos também checou publicações que apresentavam uma pesquisa restrita a Santa Catarina como se representasse todo o eleitorado brasileiro e outra que atribuía a um levantamento números que não correspondiam aos seus resultados.


Investigação e verificação

Investigado por: A Gazeta, GZH e Programa de Residência do Projeto Comprova

Texto verificado por: Correio Braziliense, Correio do Estado e Programa de Residência do Projeto Comprova


O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a fraudes virtuais. A Gazeta faz parte dessa aliança.

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