Publicado em 2 de outubro de 2021 às 10:12
A vacinação de jovens, obstáculo na campanha de imunização dos Estados Unidos e da Inglaterra, é mais rápida e mais eficiente no Brasil, mostram dados oficiais analisados pelo jornal Folha de S.Paulo. >
No último dia 18, o país tinha vacinado com ao menos uma dose 70% da população com 18 a 24 anos. >
Já é mais que a cobertura nessa faixa etária de EUA (63%) e Inglaterra (66%), dois países pioneiros na vacinação. Enquanto o Brasil lidava com falta de doses para idosos, grupo de risco para a Covid, ambos já iniciavam a administração dos imunizantes em pessoas jovens. >
Os dois países enfrentam resistência de parte da população em se vacinar. É justamente entre os mais jovens que está a menor cobertura. Nos EUA, campanhas já chegaram a oferecer cerveja e prêmios para quem fosse tomar os imunizantes. >
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No Brasil não há brindes, mas a adesão do público tem permitido que a imunização alcance grande parcela da população em menos tempo, mesmo que interrupções na campanha em algumas cidades e estados sejam razoavelmente frequentes, em razão do desabastecimento de doses. >
No dia 18 de junho, o Brasil tinha vacinado 10% dos jovens de 18 a 24 anos. Em 28 de agosto, 71 dias depois, a cobertura tinha chegado a 60%. >
Em comparação, os Estados Unidos precisaram de 165 dias para alcançar o mesmo patamar de imunização, mais do que o dobro do tempo brasileiro. Para a Inglaterra, foram necessários 135 dias. >
Especialistas apontam que o sucesso da campanha aqui está relacionado ao histórico do PNI (Programa Nacional de Imunização). Movimentos antivacina são raros e pouco expressivos no Brasil, diferentemente do que ocorre nos EUA. Ligia Kerr, epidemiologista, membro da câmara técnica do PNI e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, afirma que o PNI e o SUS construíram, ao longo dos anos, a confiança do brasileiro na vacinação. >
Também deram ao sistema de saúde a capacidade de organizar e realizar uma campanha de vacinação em todos os municípios do país, embora ela ressalte que falta coordenação nacional na campanha contra a Covid. >
A abrangência colabora para a adesão grande e rápida dos jovens à vacina contra o coronavírus no Brasil, de uma forma que não acontece nos EUA, por exemplo. >
"O brasileiro confia na vacina, quer ser vacinado. Tanto é que gente com muito dinheiro foi para fora para se vacinar logo quando ainda não havia vacinas suficientes no Brasil", afirma. >
Ainda assim, os jovens levaram mais tempo para alcançar os 60% de cobertura do que a população com mais idade. No caso dos idosos com 70 a 79 anos, por exemplo, a proporção de vacinados saiu de 10% para 60% em menos de 20 dias. >
Há várias possíveis explicações para isso, e uma delas perpassa a organização do programa de imunização. Não foi adotado um padrão nacional para a aplicação das vacinas, e coube às prefeituras decidirem o cronograma. Assim, a vacinação de jovens começou em momentos diferentes pelo país. >
Enquanto São Luís vacinava pessoas de 24 anos, Palmas ainda estava na faixa dos 60 anos, por exemplo. >
Isso aconteceu menos com os idosos porque o início da campanha foi razoavelmente semelhante para todos. Havia poucas doses, e foram priorizados os mais velhos. À medida que a campanha foi avançando, a desigualdade entre as faixas etárias atendidas pelas cidades cresceu. >
Além disso, idosos são uma parcela menor da população, o que demanda um esquema menos robusto de organização da campanha. São 4,6 milhões os brasileiros com mais de 80 anos, ante 23,6 milhões com 18 a 24 anos. >
É mais fácil, portanto, vacinar os mais velhos de forma rápida. >
Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, diz que, em qualquer campanha vacinal, é esperado que haja menor adesão de jovens. É um grupo saudável, que procura pouco os serviços de saúde e precisa conciliar os horários em que os postos funcionam com trabalho e estudo. >
No caso da Covid, isso se soma a uma menor sensação de risco por parte dos jovens, que são minoria entre casos graves e mortes pela doença. Entre os internados, os que têm 18 a 24 anos não chegam a 3%. >
Flávia diz também que pesquisas nos EUA apontam que, quando se fala na população mais jovem, há uma grande quantidade de pessoas que adiam a vacinação por desinteresse, não por serem convictamente antivacina. >
"A maior parcela é de jovens hesitantes, não radicalmente contra. A realidade é que eles estão levando a vida, não estão se preocupando com isso. Há sobretudo um desconhecimento do papel na vacinação, não conseguem se mobilizar enquanto cidadãos fazendo parte de uma campanha coletiva. Mas você consegue convencê-los com boa comunicação sobre vacina", diz. >
Ligia Kerr, por sua vez, lembra que, ainda que os jovens sejam minoria entre os hospitalizados, não estão a salvo de ter complicações da Covid. Além disso, existe um papel coletivo na imunização. >
"A Covid pode matar qualquer pessoa, mesmo sem fatores de risco. Também precisamos pensar que, quando a gente se vacina, não protege só a nós mesmos, protege também quem está ao redor", diz. >
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