Cascas de sururu, resíduos de café e entulhos. Materiais que seriam descartados e poderiam causar impactos ambientais viram matéria-prima para soluções sustentáveis e novas oportunidades de renda. Essa é a proposta de iniciativas apresentadas no Recicla Summit 2026, considerado o maior evento de reciclagem do Espírito Santo.
Com o tema “Cidades que Reciclam, Territórios que Prosperam”, o evento reuniu palestras, debates e exposições de projetos que transformam resíduos em produtos e soluções ambientais. A programação foi realizada na terça (20) e quarta-feira (21), no auditório da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), em Vitória.
As marisqueiras fazem parte da cultura e da culinária capixabas. Por meio do trabalho dessas mulheres, são extraídos o sururu e o mexilhão, alimentos importantes para a economia local. A atividade, porém, também gera um problema ambiental: o acúmulo de cascas de sururu descartadas no litoral, o que pode provocar o assoreamento dos manguezais.
Para enfrentar esse problema, o Instituto Goiamum desenvolveu o Projeto Sururu. A iniciativa compra cascas de sururu de mulheres marisqueiras e transforma o material em corretivo agrícola.
O produto ajuda a corrigir a acidez do solo e fornece sais minerais que contribuem para o cultivo agrícola. Atualmente, o projeto processa cerca de 10 mil toneladas de resíduos por mês, com aproveitamento próximo de 98% da matéria-prima recebida. O modelo busca fortalecer a economia circular feminina e valorizar o trabalho das marisqueiras, já que a iniciativa compra exclusivamente cascas coletadas por mulheres.
Segundo o presidente do Instituto Goiamum, Iberê Sassi, a expectativa é ampliar a operação a partir de 2027, com a meta de chegar a 30 mil toneladas e iniciar a comercialização do produto. A proposta também prevê aumentar o retorno financeiro para as trabalhadoras.
“Vamos valorizar a cultura delas, colocando-as em um ambiente onde tenham o trabalho reconhecido”, afirma.
O Espírito Santo é o segundo maior produtor de café do Brasil, segundo dados da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A atividade gera grandes quantidades de cascas, que podem ser reaproveitadas como matéria-prima.
Em Vila Velha, a SymBiotech desenvolveu uma solução que utiliza a casca do café como suporte para microrganismos benéficos às plantas. O processo começa com a secagem, a moagem e o peneiramento do material, até que adquira uma textura fina. Em seguida, são adicionados microrganismos que ajudam as plantas a absorver nutrientes.
Segundo a CEO da SymBiotech, Amanda Azevedo Bertolazi, a próxima etapa é concluir os testes de campo e definir o preço do produto. A tecnologia pode contribuir para aprimorar o cultivo agrícola.
“O microrganismo junto da casca serve como meio, porque tem nutrientes e proteção UV (ultravioleta). O microrganismo se associa e cresce junto às raízes das plantas, que, assim, absorvem mais água e nutrientes, aumentando a produtividade”, comenta.
O descarte irregular de resíduos é um problema recorrente nos centros urbanos. Para a CEO e fundadora da Manacá, Rayssa Mendes, a falta de informações sobre a frequência das ocorrências, o volume e o tipo de material descartado dificultam a adoção de medidas eficazes pelas prefeituras.
A empresa desenvolveu uma tecnologia que combina câmeras de monitoramento e inteligência artificial para identificar descartes irregulares. O sistema instala equipamentos em pontos recorrentes de descarte e, quando uma ocorrência é identificada, emite um alerta com informações que podem auxiliar a atuação do poder público.
“Isso ajuda a prefeitura a saber que, se um local tem muito descarte de lixo domiciliar, é preciso disponibilizar mais serviços de limpeza e conscientização. No lugar que tem mais entulho, no caso de empresas, é preciso responsabilizá-las”, afirma.
O projeto foi selecionado pela Prefeitura do Recife e está em funcionamento desde maio de 2026, em seis pontos críticos de descarte irregular. Segundo Rayssa, em menos de três meses, o sistema identificou 308 ocorrências e contabilizou 128 metros cúbicos de resíduos em vias públicas. Os registros incluem informações como data, horário, tipo e volume do material descartado.
Para o presidente da SimReciclo, Luiz Alberto Baptista, eventos como o Recicla Summit são importantes para apresentar à sociedade novas formas de lidar com os resíduos e mostrar o potencial dos produtos feitos com materiais reaproveitados.
“A gente precisa mostrar para a sociedade que esses produtos têm valor e competem de igual para igual com os de origem virgem”, explica.
O evento também contou com a Vitrine da Reciclagem, espaço dedicado à apresentação de iniciativas de economia sustentável. Para Baptista, apesar de ter um território relativamente pequeno, o Espírito Santo tem capacidade para desenvolver soluções ambientais com potencial de expansão. “As soluções que nascem aqui têm capacidade de se replicar em escala para o Brasil e o mundo inteiro”, comenta.