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Kelder José Brandão Figueira

Artigo de Opinião

É vigário episcopal para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória
Kelder José Brandão Figueira

Racismo é algo inaceitável para os cristãos

Não basta as igrejas dizerem que acolhem a todos e que não excluem ninguém. É preciso mais: todos nós cristãos batizados precisamos assumir a luta antirracista
Kelder José Brandão Figueira
É vigário episcopal para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória

Públicado em 

24 mai 2023 às 13:33
13 de maio de luta: dia nacional de denúncia contra o racismo, ato na Praça Costa Pereira
13 de maio de luta: dia nacional de denúncia contra o racismo, ato na Praça Costa Pereira, em Vitória Crédito: Fernando Madeira
Na semana de encerramento dos festejos pascais, preparando-nos para a Solenidade de Pentecostes, celebramos no hemisfério sul a Semana de Oração Pela Unidade Cristã (SOUC), que este ano é inspirada pelo profeta Isaías: Aprendei a fazer o bem, procurai a justiça (Is 1,17).
O material para a SOUC deste ano foi preparado por um grupo ecumênico dos Estados Unidos, a convite do Conselho de Igrejas de Minnesota, onde, em março de 2020, George Floyd foi cruelmente assassinado pelo policial Dereck Chauvim, dando início à gigantesca onda mundial de manifestações antirracistas “Vidas Negras Importam”.
A SOUC 2023 traz para dentro das instituições religiosas cristãs o debate sobre o racismo, tema que é evitado pelas igrejas cristãs devido à apropriação da evangelização pelo projeto colonialista imperial europeu, que teve como expoentes Portugal, Espanha e Inglaterra, que associaram a cruz à espada. Assim, o que houve no continente americano foi um processo de aculturação, marcado pela violência, pela dominação e pelo extermínio dos povos originários e pela vergonhosa prática da escravidão, tudo isso em nome de Deus.
O racismo é um resquício persistente e maldito desse processo histórico, que nós cristãos das Américas herdamos dos colonizadores. Ele está entranhado na base de nossa formação cultural, política e religiosa, sedimentando as desigualdades sociais que marcam a sociedade brasileira, condenando as pessoas negras a humilhações e violências cotidianas, sendo a pobreza dos descendentes dos escravizados uma marca indelével no Brasil.
Um simples olhar ao nosso redor nos mostra a marca vergonhosa do racismo no Brasil. Basta olharmos para a população de rua que veremos que a sua grande maioria é de pessoas negras; o mesmo acontece com a população carcerária, com os adolescentes das unidades socioeducativas, com os assalariados, diaristas e subempregados, com os moradores dos morros e das periferias, em sua grande maioria formada por negros, descendentes de escravizados, contrastando com a população acadêmica e universitária, com a classe política dirigente em todas as esferas do país, com os membros do Poder Judiciário e do Ministério Público, com a classe empresarial e agrícola e, tristemente, com os presbitérios e púlpitos das igrejas cristãs, formados hegemonicamente por brancos.
No domingo em que iniciamos a SOUC, o mundo inteiro foi testemunha da prática odienta do racismo cometido num estádio de futebol na Espanha contra o jogador negro brasileiro, Vinícius Júnior. A partir desse fato, já no decorrer da semana, um senador da República, que representa nosso Estado, fez um pronunciamento criminoso em relação ao ocorrido, ao questionar a ausência de defensores dos macacos, a quem o atacante foi comparado pela torcida.
Aqui no Espírito Santo, presenciamos, às vésperas da data da abolição da escravidão do Brasil, o secretário de Segurança Pública do Estado, diante das câmeras, expondo e ofendendo um adolescente negro, já inerte e sob sua custódia, dirigindo-lhe vaticínios e palavras ofensivas e humilhantes, evidenciando o racismo estrutural nas instituições públicas capixabas.
Foi contra essas situações que se ergueram profetas como Isaías, denunciando as injustiças estruturais que, como o racismo no Brasil, violavam a vida e a dignidade dos pobres de Israel. Ele denunciou os crimes e os pecados da elite econômica, política e religiosa de Israel, exortando-os a procurarem a justiça e a fazerem o bem.
As igrejas cristãs têm um longo caminho a percorrer no Brasil para superar o racismo presente em nossas práticas litúrgicas e pastorais, muitas vezes, camuflado pelos discursos legalistas e pelas práticas de piedosa caridade, mas que legitimam as desigualdades e injustiças contra os descendentes de escravizados.
Não basta as igrejas dizerem que acolhem a todos e que não excluem ninguém. É preciso mais: todos nós cristãos batizados precisamos assumir a luta antirracista e, como igrejas cristãs, um passo importante a ser dado no enfrentamento ao racismo é o reconhecimento, o respeito e a valorização das religiões de matrizes africanas como o candomblé e a umbanda e as inúmeras manifestações piedosas de práticas oriundas da aculturação imposta pelo cristianismo colonizador aos negros em nosso país.
Nós cristãos precisamos ter coragem para vencer as barreiras e a violência do racismo, dos preconceitos e dos pecados que geram divisões e superar essa marca maldita que recebemos dos colonizadores. Precisamos ter ternura para acolher a beleza da diversidade da criação divina que se manifesta na humanidade.
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