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Tullio Cezar de Aguiar Brotto

Artigo de Opinião

Pandemia

Por que é tão difícil manter a quarentena? Psicologia tem algumas respostas

Nossas ações são mantidas pelas consequências que produzem. Assim, se algo agradável ocorre depois de uma conduta, tendo a continuar; mas se algo desagradável ou incômodo acontece, tendo a parar o que estava fazendo
Tullio Cezar de Aguiar Brotto

Publicado em 16 de Abril de 2020 às 09:30

Publicado em 

16 abr 2020 às 09:30
Data: 05/04/2020 - Ruas e praias da Grande ficam movimentadas mesmo com a orientação de quarentena. Foto: Vitor Jubini
Ruas e praias da Grande ficam movimentadas mesmo com a orientação de quarentena Crédito: Vitor Jubini - 05/04/2020
É preciso começar este texto apontando uma coisa boa. Em tempos de exceção como este imposto pela Covid-19 é importantíssimo encontrar e valorizar qualquer vitória – ainda que pequena ou agridoce – que possa nos animar o espírito por mais alguns dias ou semanas. E eu tenho uma: o isolamento social está funcionando!
Claro, não como a gente gostaria. Já é possível se ter notícias de superlotação e mortes em alguns hospitais. Mas se fizermos um resgate rápido à memória, perceberemos do que estou falando. Há um mês dizia-se que o pico de contágio no Brasil ocorreria em meados de abril. Vencemos a páscoa, e agora as projeções apontam o pico entre maio e junho, segundo o próprio Ministério da Saúde.
Está funcionando!
É isso o que se quer. Atrasar a progressão dessa doença. Achatar a curva. Ganhar tempo. Ganhar tempo para que os serviços de saúde possam conseguir se equipar melhor e abrir mais leitos. Ganhar tempo para que os profissionais de saúde já adoentados se restabeleçam e voltem ao fronte de batalha. Ganhar tempo para que tratamentos eficazes sejam descobertos. Ganhar tempo para minimizar o estrago... Está funcionando.
Mas, então, por que temos ouvido, com grande preocupação dos especialistas, seus alertas para não afrouxar o isolamento? Por que tem tanta gente ainda nas ruas? Por que tem gente já fazendo petições pelo fim do isolamento e que acredita que esta pandemia é um exagero ou uma conspiração? Por que a taxa de adesão ao isolamento tem oscilado e, de fato, nunca chegou aos 70% preconizados?

ESQUIVA COMPORTAMENTAL

Existem alguns fatores envolvidos neste processo. Um deles, sem dúvida, é o enfraquecimento da esquiva comportamental.
O que quero dizer com isso? Nossas ações são mantidas pelas consequências que produzem, principalmente aquelas consequências mais imediatas. Assim, se algo agradável ocorre depois de uma conduta, tendo a continuar; mas se algo desagradável ou incômodo acontece, tendo a parar o que estava fazendo.
Porém, existe um tipo específico de comportamento chamado de esquiva. São aquelas situações em que agimos para evitar que algo ruim aconteça. Geralmente esse tipo de conduta está ligado a sentimentos de medo e precaução. Evitamos passar naquela rua à noite para não sermos assaltados. Evitamos oportunidades de dançar ou de falar em público para não passar por constrangimento. Evitamos pegar mais um pedaço de bolo para não engordar. Os exemplos são inúmeros. E qual é a consequência destas ações? Nada. Coisa nenhuma. A consequência é não sermos assaltados. É não passar pelo constrangimento. É não engordar. É permanecer as coisas como estão.
O isolamento social é uma conduta desse tipo, uma conduta de esquiva. Ficar em casa não salva vidas, não diretamente. Ficar em casa evita que mais pessoas sejam infectadas. E se todo mundo ficar em casa o que acontece? Novamente a resposta é: nada. Se todo mundo ficar em casa ninguém se infecta, ninguém fica doente, nada muda. É por isso que se tem dito por aí que “quanto mais o isolamento social funcionar, mais ele parecerá desnecessário”.

PRECISAMOS DE CONFIRMAÇÃO

Qual o problema? Para mantermos nossas atitudes por longo período, buscamos confirmação de seus efeitos no mundo imediato. Se isso está dando certo a gente continua, se está “dando ruim” a gente tenta outra coisa. Mas os comportamentos de esquiva não geram mudanças evidentes.
Então as pessoas começam a se sentirem privadas de movimento, privadas da sensação de realização pessoal encontrada no trabalho, privadas do convívio com aqueles que amam, sem de fato ver algo que justifique todas essas privações. Se o meu vizinho estivesse doente, eu ficaria em casa para não me contaminar. Mas o que estamos fazendo é ficar em casa para que o vizinho não fique doente. Então eu olho da minha janela para meu vizinho, ele olha da dele para mim, nos cumprimentamos de longe, reclamamos de ficar presos em casa e não vemos ninguém doente. É de se supor que surja a dúvida se de fato essa doença é tudo isso que estão dizendo.
Por outro lado, os meios de comunicação, para tentar convencer-nos a ficar em casa, usam diariamente estratégias de choque, de impacto. Assustam-nos. Então, enquanto alguns vão se convencendo que não há porque temer essa “conspiração da mídia golpista” com o “vírus chinês” e passam a deixar o isolamento (enfraquecimento da esquiva), outros tantos vão se sentindo cada vez mais impotentes e assustados, intensificando seu isolamento e sua ansiedade (generalização da esquiva).
Este efeito paradoxal é conhecido pelas ciências comportamentais e esperado em situações de exceção como esta. Efeito que se agrava porque a esquiva costuma ser acompanhada da sensação de que não importa o que eu faça, pois não será suficiente.
Então, como ficar em casa sem sofrer tanto? E como convencer as pessoas que amamos a não saírem do isolamento?
É preciso ter clareza de que assustar e brigar não adianta. É preciso aceitar que nosso controle sobre o curso desta doença, e de seus efeitos futuros, é limitado. É preciso valorizar quaisquer pequenas vitórias. E é preciso, principalmente, se comprometer com aquilo que ainda está sob nosso controle. Como costumo dizer em atendimentos clínicos, se a vida está te esmagando por todos os lados, é preciso defender o que ainda resta. E se o que restar for apenas decidir entre opções ruins, decida. Não deixe a vida decidir por você.
É preciso identificar quaisquer atitudes ainda possíveis de serem realizadas dentro do isolamento que nos deem ânimo ou alívio, e decidir pô-las em prática. Porque sabemos que precisamos delas, então decidimos cuidar de nós mesmos, enquanto ficamos em casa, cuidando de não fazer o vírus circular.
Está funcionando. Ainda vai piorar antes de melhorar. Mas ficar em casa ajuda muito. E está funcionando.
O autor é psicólogo clínico, mestre em Saúde Coletiva, servidor público da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em São Mateus, professor universitário da Faculdade Vale do Cricaré.
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