O recente depoimento ao Senado norte-americano do Dr. Anthony Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) e principal conselheiro de saúde pública dos Estados Unidos durante a pandemia de Covid-19, reacendeu debates sobre a origem do coronavírus, as políticas de lockdown e as campanhas de vacinação.
Como costuma acontecer em discussões dessa natureza, o espaço público rapidamente foi tomado por interpretações ideológicas, desinformação e notícias falsas.
O retorno desse discurso tem encorajado grupos negacionistas que haviam perdido espaço diante da expressiva redução de mortes proporcionada pelas campanhas de vacinação, da ampla comprovação científica de sua eficácia e do fracasso de tratamentos sem evidências robustas.
Em vez de promover uma avaliação crítica das políticas públicas adotadas durante a pandemia (discussão legítima e necessária em qualquer democracia), muitos voltaram a reciclar as mesmas narrativas falsas que já haviam sido amplamente contestadas pela comunidade científica.
Nesse debate, a religião inevitavelmente aparece. No Brasil, os evangélicos frequentemente são associados (às vezes com razão, outras por generalizações injustas) ao negacionismo científico e ao movimento antivacina.
É inegável que algumas lideranças religiosas contribuíram para a disseminação de desinformação durante a pandemia. Entretanto, identificar a tradição evangélica com a rejeição à ciência representa um equívoco histórico que precisa ser corrigido.
A ciência moderna mantém uma relação estreita com a história da Reforma Protestante. Embora ela não seja a causa única do desenvolvimento científico, diversos historiadores reconhecem que o ambiente intelectual criado pela Reforma favoreceu, em muitos contextos, a valorização da investigação da natureza, da educação, da leitura e da racionalidade.
Não é coincidência que importantes protagonistas da Revolução Científica fossem protestantes, como Johannes Kepler, Robert Boyle, Isaac Newton e, posteriormente, Michael Faraday. Para muitos deles, investigar a criação era também uma forma de contemplar a sabedoria do Criador.
A própria história das vacinas ilustra essa aproximação entre fé e ciência. Em 1721, durante uma epidemia de varíola em Boston, o pastor puritano Cotton Mather defendeu publicamente a prática da inoculação após aprender sobre ela com Onesimus, um africano escravizado.
Apesar da forte oposição que enfrentou, encontrou apoio no médico Zabdiel Boylston, que realizou o procedimento e demonstrou sua eficácia na redução da mortalidade. Décadas mais tarde, Edward Jenner desenvolveria a primeira vacina moderna, inaugurando uma nova era na prevenção de doenças infecciosas.
Ao longo do século XIX, missionários protestantes fundaram hospitais, escolas de enfermagem e centros médicos em diversos continentes. Em muitas regiões da África, da Ásia e da Oceania, campanhas de vacinação caminharam lado a lado com o trabalho missionário. A promoção da saúde era compreendida como expressão concreta do amor ao próximo e do cuidado integral com a vida.
Isso não significa afirmar que a ciência seja infalível. A boa ciência vive da revisão constante de hipóteses, da correção de erros e da produção contínua de evidências. É justamente essa capacidade de revisão que a torna confiável.
O negacionismo, ao contrário, costuma selecionar informações isoladas, desprezar o consenso científico e transformar convicções ideológicas em critérios de verdade.
Diante desse legado, a discussão que desqualifica ou rejeita as vacinas (e que voltou a circular nas redes sociais) é incompatível com a melhor tradição protestante e evangélica.
A valorização do conhecimento científico, do cuidado com a vida e da responsabilidade para com o próximo sempre fez parte da herança de amplos setores do protestantismo.
Desprezar esse legado significa romper com uma tradição que compreendeu a ciência e a medicina como expressões da graça de Deus e instrumentos legítimos para a promoção da vida e do bem comum.