A revolução dos veículos eletrificados começa nos portos. E, no Brasil, tem encontrado no Espírito Santo seu principal ponto de entrada.
O aumento das importações vem acompanhado da formação de um novo eixo logístico e industrial, impulsionado pela estratégia global das montadoras, por políticas públicas voltadas à mobilidade sustentável e pela engenharia tarifária progressivamente restritiva.
No encontro entre transição energética e reorganização das cadeias produtivas, o Estado passou a ocupar posição singular. Tornou-se plataforma de acesso ao mercado brasileiro e espaço de experimentação de desafios ligados à infraestrutura, regulação, tributação e capacidade logística.
A compreensão desse movimento possui três vetores: a escalada das importações, a estrutura logística e aduaneira instalada e o cronograma de recomposição tarifária que vem reorganizando o mercado desde 2024.
A escolha do Espírito Santo como hub automotivo não é casual. O Estado reúne infraestrutura portuária integrada, rede de CLIAs (a maior área de recintos alfandegados de zona secundária da América Latina) e programas estaduais de competitividade que reduzem custo logístico e aumentam previsibilidade para importadores.
Em 2025, dados do Sindiex (Sindicato do Comércio de Exportação e Importação do Estado do Espírito Santo) apontaram que 165 mil veículos eletrificados ingressaram pelos portos capixabas, em operações concentradas sobretudo em BYD e GWM. E o principal vetor dessa expansão é de natureza normativa e estrutural.
A Lei nº 14.902/2024 instituiu o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), com diretrizes voltadas à eficiência energética, inovação e sustentabilidade. Paralelamente, a Resolução Secex nº 532/2023 definiu a recomposição gradual do Imposto de Importação dos veículos eletrificados: 10% em janeiro de 2024, 18% em julho de 2024, 25% em julho de 2025 e 35% em julho de 2026.
O modelo combina política industrial e comercial e previsibilidade regulatória. Ao mesmo tempo em que induz investimentos e estimula cadeias produtivas, permite que montadoras e importadores antecipem embarques, reorganizem estoques e reduzam custos dentro dos marcos legais.
Em 2026, o setor passa por um ponto de inflexão. A aproximação da alíquota de 35%, somada à entrada simultânea de fabricantes como Omoda & Jaecoo, GAC, Zeekr, Jetour e SAIC, consolida o Estado como uma das principais portas de entrada de veículos no país.
O movimento ganhou escala. Apenas no primeiro trimestre, o valor importado de automóveis triplicou, saltando de US$ 370 milhões para US$ 1,1 bilhão na comparação anual, segundo o Sindiex. A projeção para o primeiro semestre já se aproxima de todo o volume desembarcado em 2025.
Ao mesmo tempo, a expansão pressiona a infraestrutura logística. A retomada mais intensa dos navios Ro-Ro (roll-on/roll-off), exigindo áreas substancialmente maiores do que as operações em FlatRack (que permitem melhor aproveitamento vertical dos armazéns), amplia os desafios operacionais e exige decisões rápidas sobre capacidade operacional.
O projeto da fábrica da GWM em Aracruz sugere a direção da próxima etapa. À medida que a produção local avance, a tendência é a substituição gradual da importação de veículos acabados pela internalização de cadeias produtivas, com aumento do fluxo de autopeças e componentes destinados às linhas de montagem.
Nesse cenário, o Estado deixa de ser apenas porta de entrada para se consolidar como plataforma integrada de produção, logística e distribuição. É a eletrificação automotiva redesenhando rotas, pressionando estruturas institucionais e reorganizando centros logísticos. E, até aqui, esse mapa passa pelo Espírito Santo.