Em um país onde as mulheres, em sua esmagadora maioria, acumulam jornadas exaustivas dentro e fora de casa, debater o tempo dedicado ao trabalho é refletir sobre o direito de existir com dignidade. Todos nós almejamos e merecemos ter qualidade de vida, mas a realidade cotidiana impõe barreiras estruturais que nos distanciam desse ideal.
O debate da redução da jornada de trabalho e do fim da escala 6x1, que atualmente mobiliza o Congresso Nacional, não representa só uma revisão das normas trabalhistas. Trata-se de uma questão urgente de justiça social e de saúde pública que impacta diretamente quem já sustenta rotinas ininterruptas.
Adiar esse debate penaliza milhares de mulheres trabalhadoras responsáveis por manter suas famílias e o país em funcionamento. Eu, inclusive, sou coautora da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 8/2025) para o fim da escala 6X1, de autoria da deputada federal Erika Hilton.
Ao lançarmos um olhar atento sobre o Espírito Santo, essa urgência se torna ainda mais evidente. Segundo dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 45,5% dos lares capixabas são chefiados por mulheres, sendo 28% mães solo, que assumem toda a responsabilidade pela geração de renda, cuidado dos filhos e organização do lar. Não existe margem de descanso para elas e, sim, uma rotina contínua marcada por uma sobrecarga física e emocional.
A imposição da escala 6x1 estabelece um modelo de trabalho incompatível com essa realidade. O único dia de "folga" concedido não se traduz em descanso ou lazer. Pelo contrário, representa a concentração de todas as tarefas invisíveis e não remuneradas que sustentam a vida familiar. É o dia destinado a limpar, cozinhar, cuidar de dependentes, resolver pendências burocráticas e reorganizar a semana que recomeçará sem qualquer pausa.
Os dados nacionais também reforçam o abismo dessa desigualdade. As mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens, apenas 11,7 horas.
Analisando o recorte racial, essa situação torna-se muito mais cruel para as mulheres negras. Uma sobrecarga que compromete a saúde física e mental, restringe as oportunidades de qualificação profissional e reduz a autonomia econômica das mulheres.
O Espírito Santo também ostenta, de forma alarmante, a maior desigualdade salarial entre homens e mulheres no Brasil. Dados do 3º Relatório de Transparência Salarial, de 2026, pelo Governo Federal, revelam que as mulheres capixabas ganham 28,53% a menos que os homens.
A média salarial feminina no Estado é de R$ 2.991,13, em contraste com os R$ 4.184,91 recebidos pelos homens. Aqui, mais uma vez, as mulheres negras capixabas são prejudicadas, recebem em média de R$ 2.582,64, a diferença é de 32,9% em relação às mulheres não negras.
Como relatora da Lei de Igualdade Salarial (Lei 14.611/2023), acompanho de perto esse debate. A legislação que obriga empresas a adotarem medidas de transparência salarial foi um passo fundamental, mas a verdadeira igualdade exige o enfrentamento a essa pobreza de tempo que assola as mulheres.
Não existe igualdade de oportunidades quando milhares de trabalhadoras acumulam múltiplas jornadas sem qualquer reconhecimento. Não há liberdade genuína quando o tempo feminino é constantemente capturado por um sistema que naturaliza a exaustão.
Nessa frente de batalha, a Secretaria da Mulher na Câmara dos Deputados, em articulação com a bancada feminina, tem se posicionado como uma voz decisiva. Mesmo representando menos de 20% do Parlamento, as mulheres têm desempenhado um papel central na construção de pautas estruturantes.
É essa força coletiva que tem pressionado o Congresso a encarar essa pauta urgente. Projetos de Lei e Propostas de Emenda à Constituição (PECs) em tramitação propõem a redução da carga horária semanal sem redução de salários, buscando assegurar o direito fundamental ao descanso.
O Brasil e o Espírito Santo precisam, urgentemente, avançar para um modelo de trabalho mais equilibrado. Mas essa transformação não está apenas nos corredores do Congresso. Cada pessoa que lê este artigo é parte integrante dessa engrenagem.
Se você é mulher e vivencia essa exaustão, saiba que sua luta é coletiva e sua voz importa, mas se não vivencia essa realidade diretamente, o convite é para que se torne um agente ativo de mudança. A construção de uma sociedade mais justa depende de um compromisso conjunto. É hora de garantir que a vida aconteça além do trabalho.