Sair
Assine
Entrar

  • Início
  • Artigos
  • Conheça o mito do "governo grátis" e seu risco após a pandemia
Carlos Aguiar

Artigo de Opinião

Populismo

Conheça o mito do "governo grátis" e seu risco após a pandemia

Não duvidemos de que haja neste momento uma forte pressão para que boa parte dos programas de emergência se tornem permanentes. Alguns talvez até mereçam, mas não todos
Carlos Aguiar

Publicado em 29 de Maio de 2020 às 09:30

Publicado em 

29 mai 2020 às 09:30
Filas para receber o auxílio emergencial da Caixa Econômica Federal de Serra-Sede
Filas para receber o auxílio emergencial da Caixa Econômica Federal de Serra-Sede Crédito: Ricardo Medeiros
Preocupam-me as propostas de escalada de gastos dos governantes por causa da Covid-19. É evidente que somente o Estado federal pode ajudar de forma direta a diminuir as grandes perdas  advindas da pandemia que abalou o mundo. Mas não temos o cacife dos países desenvolvidos, para aumentar a dívida pública além dos 100% do PIB.
Ninguém discute as ajudas do Estado, é para isso que ele existe e é por isso que ele deve sempre estar preparado, tendo suas contas em dia e fundos de reservas para as emergências, como tem por exemplo o Chile: 20 bilhões de dólares para os grandes terremotos que o atingem. A Noruega, grande produtora de petróleo, também tomou a decisão anos atrás de criar um fundo soberano, que pode ser usado em eventos do tipo Cisne Negro, que são raros, mas destruidores.
O mundo, desde que é mundo, sempre se iludiu com os governos grátis. E o que é um governo grátis? Me apego aqui ao livro do professor Paulo Rabello de Castro, “Governo Grátis “, de onde bebo as águas deste texto e que o define bem.  Abro aspas: "O regime de governo grátis se baseia numa premissa simples: de tirar de quem pode e repassar (uma parte, claro) para quem precisa, ou diz precisar".
Com certeza aproveitando o ensejo da pandemia, devem existir muitos grupos pensando nisso. Continuando com Paulo Rabello:
“E logo, como sempre, se formará uma longa fila de candidatos a participar do grupo dos necessitados... é um reflexo natural dos incentivos à inação que, de pronto, se instalam na sociedade a partir do governo grátis.
Mas não é por defeito do tecido social. É mera resposta de qualquer sociedade atenta aos estímulos recebidos das instituições do governo.
Os mais produtivos entre os cidadãos serão, normalmente, os selecionados a pagar a conta da mágica social. E tentarão se defender conforme seu caráter — os mais empreendedores reagirão com ainda mais empenho no trabalho e com a busca de mais produtividade, de modo a reequilibrar a equação do excesso de imposto a que são submetidos. Essa reação de resistência à perda de rentabilidade do negócio taxado também é natural e ajudará o governante populista a ampliar a busca dos recursos extrativos com que planeja contar para manter e fomentar, entre os demais cidadãos, a ilusão do governo grátis.
O final destes mecanismos será, no entanto, o declínio inapelável da capacidade de trabalho e de contribuição dos elementos mais produtivos da sociedade. Não haverá mais poupança, inovação ou, muito menos, criação de valor. Finalmente, haverá a falência do empreendedorismo. Vencerá o princípio da acomodação. Mas será uma falência lenta. Um declínio, que é a lenta subjugação do espírito empreendedor do país ao ditame do governo grátis.”

DISCURSO POPULISTA

Estamos vendo e lendo nas entrelinhas, como os principais líderes populistas do Brasil tem se manifestado neste momento de pandemia, em busca por soluções do Estado. A hora é de grande vontade de ser amado e querido por seu povo, dando a ele um governo no qual magicamente tudo parece vir de graça. Uma grande oportunidade dos políticos favoráveis ao governo provedor de tudo. Momentos de ameaças? Precisamos de um salvador.
Voltando ao nosso autor do "País Grátis" : “No limite, o governante tentará deixar no governado a sensação de que nada pagou para o muito que recebeu. Nesse limite está o populismo, termo que define a situação de máxima ilusão do cidadão perante o discurso de realizações do governante. No populismo, não há mentira nem mentiroso. Apenas ilusão de ótica. O populista é aquele cujo discurso faz a leitura coletiva da realidade parecer outra coisa. Há emoção ao invés da razão. O ponto culminante do ilusionismo político é o mito do governante que seja capaz de produzir benefícios coletivos sem qualquer custo para a sociedade, uma forma sofisticada de criar a ilusão coletiva da gratuidade a respeito de tudo que seja ou provenha do setor público... O governo grátis provoca uma sintonia absoluta entre os cidadãos e pode, com isso , invocar um uníssono, que é a reação dos indivíduos como massa.”
Já vimos isso na Argentina com o peronismo, na Venezuela com o chavismo, aqui mesmo com o getulismo e mais recentemente com o lulismo. E agora o bolsonarismo. São encantadores de massas apaixonadas, onde a razão é trocada pelas emoções. Por isso ficam em evidência por anos e anos, como o peronismo na Argentina.
Não duvidemos de que haja neste momento uma forte pressão para que boa parte dos programas de emergência se tornem permanentes. Alguns talvez até mereçam, mas não todos. Há os que querem aproveitar o ensejo e pagar dívidas de Estados mal geridos, há os que querem dar aumentos a seus grupos de pressão pois, em tese, o Estado pode arcar com tudo. Porque então não fomos espertos e já fizemos isso 100 ou 200 anos atrás? Perdemos essa magia toda?

QUEDA DA PRODUTIVIDADE E ESTAGNAÇÃO

O mito do governo grátis, aquele que distribui vantagens a todos sem nenhum custo para a sociedade, está na raiz do declínio da produtividade e na atual estagnação do processo produtivo brasileiro, que antecede a pandemia.
Com a grande interferência do Estado neste momento, corremos os riscos de aqueles que sempre se beneficiaram do governo grátis aprofundarem a crença nas pessoas e sairmos definitivamente da rota dos países eficientes, produtivos e geradores de riquezas, empregos e impostos. Com um mundo em mudanças, iniciando um novo ciclo tecnológico, não podemos nos dar ao luxo de perder mais um bonde da história.
Não iremos para um novo normal, como querem nos fazer crer, iremos para um novo ciclo, cuja transição levará toda esta década. Veremos muita volatilidade à frente.
Acho que é hora de atenção, alerta, pois como diz Paulo Rabello, o governo grátis "fala ao ouvido de cada cidadão, tem interlocução pessoal com o representado e, finalmente, mora no coração de cada um deles”. E tem vários deles falando às mentes e aos corações dos brasileiros, propagando essa ideia.
Cuidemos de nosso futuro.
O autor é conselheiro do ES em Ação
Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados