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É pastor da IBAB, doutor em Ciências da religião, escritor e professor

Como líder religioso, preciso admitir que somos parte do problema

Aos colegas pastores, padres, obreiros e demais, um apelo que não pode ser adiado. Ou abrimos a boca e atuamos de verdade contra essa desgraça infernal da violência de gênero ou nos tornamos, por omissão, participantes de uma realidade que deveríamos combater

  • Kenner Terra É pastor da IBAB, doutor em Ciências da religião, escritor e professor
Publicado em 31/03/2026 às 11h00

Lamento profundamente o brutal assassinato de Dayse Barbosa, primeira mulher a comandar a Guarda Municipal de Vitória. Mãe de uma menina de 8 anos, Dayse foi vítima de feminicídio. Seu namorado, policial rodoviário federal, com quem mantinha um relacionamento conturbado, atirou covardemente contra ela e, em seguida, tirou a própria vida.

Dayse era policial e se destacava justamente na luta contra a mesma forma de violência que, de maneira trágica, acabou por vitimá-la. Sua trajetória representava não apenas uma conquista individual, mas um avanço simbólico importante na presença feminina em espaços historicamente marcados pela predominância masculina.

Casos como esse não podem ser tratados como episódios isolados ou meras fatalidades. Eles revelam uma engrenagem social perversa, na qual a violência de gênero ainda encontra justificativas explícitas ou veladas. Quando uma mulher é assassinada em um contexto de relação afetiva, não estamos diante de um crime comum, mas de uma expressão extrema de desigualdade, de posse e de negação da dignidade feminina. Nomear isso como feminicídio não é um capricho ideológico, mas um reconhecimento jurídico e social de uma realidade que precisa ser enfrentada com seriedade.

Violência doméstica; violência contra a mulher
Violência doméstica; violência contra a mulher. Crédito: Arte/Geraldo Neto

Não devemos hesitar em repudiar e corrigir com rigor, por uma questão de preservação civilizatória, qualquer discurso que relativize a violência doméstica. que, sob cegueira ideológica, defenda o suposto “direito dos homens” de se imporem, popularize ideias típicas de red pill ou de machonarias, ou, a despeito dos dados, ainda insista em negar a existência do que a lei definiu como feminicídio. Palavras não são neutras. Discursos constroem ambientes, legitimam comportamentos e, em última instância, podem contribuir para a perpetuação da violência.

Esse caso me toca profundamente, porque tenho duas filhas, tenho amigas policiais, porque interrompeu uma história linda de liderança feminina e porque ocorreu na minha terra natal. Há, aqui, uma dor que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva. Cada mulher atingida por esse tipo de violência carrega consigo não apenas sua própria história, mas também os sonhos, vínculos e possibilidades que são abruptamente interrompidos.

Diante disso, não basta lamentar. É necessário agir, educar, denunciar e transformar. A responsabilidade não é apenas das instituições públicas, mas de toda a sociedade. Famílias, escolas, igrejas e lideranças precisam assumir seu papel na formação de uma cultura que rejeite qualquer forma de violência e que promova relações baseadas no respeito e na dignidade humana.

Como líder religioso, preciso admitir que, somos parte do problema, porque igrejas costumam acabar legitimando violências simbólicas ao colocarem as mulheres em um lugar ontologicamente inferior ou quando espiritualizam violências de gênero em nome da preservação de um modelo rígido de família.

Aos colegas pastores, padres, obreiros e demais, fica um apelo que não pode ser adiado. Ou abrimos a boca e atuamos de verdade contra essa desgraça infernal da violência de gênero ou nos tornamos, por omissão, participantes de uma realidade que deveríamos combater. O silêncio, nesse caso, não é neutralidade. É cumplicidade.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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