“Acho que as mulheres precisam acordar e saber que ninguém vai vir salvar a gente”. A fala é da comandante da Guarda Municipal de Vila Velha, Landa Marques, sobre o feminicídio da Dayse Barbosa, comandante da Guarda Municipal de Vitória. Esse assassinato brutal, precedido e sequenciado por tantos outros do mesmo tipo, nos convoca a mudar de comportamento para ficarmos vivas.
Chega de bons modos! Sinto que ser "agradável" ou "bem-educada" não se encaixa quando a nossa integridade física, emocional e psicológica está em jogo. E se sinto, sei que é tempo de parar de silenciar. Seguimos caladas e reduzidas ao servir. Estamos dando espaço demais para sermos constantemente sufocadas. Gritem!
A comunicação, em sua essência mais pura, é a materialização da existência. O que é dito, o que é contado, ganha forma, torna-se real e palpável. O que permanece oculto, velado nas profundezas do não dito, do silêncio profundo, dissolve-se em uma não-existência, uma dor que se perpetua sem nome, sem reconhecimento, sem a possibilidade de justiça. Falar é uma forma de resistir.
Precisamos contar as nossas vidas para que não nos reste apenas ter narradas as nossas mortes. Fomos meticulosamente moldadas por uma sociedade patriarcal que nos relegou a um papel secundário, nos confinando em papéis de silêncio.
É tempo de transgredir os limites invisíveis. Ainda somos prontamente rotuladas como escandalosas, histéricas, descontroladas e loucas. A vítima é facilmente transformada na ré, a perturbadora da ordem, a causadora de problemas. Não é simples reação. É uma tática de descredibilização para manter o status quo, que assegura o silêncio imposto com violência.
A dor infligida por homens violentos não pode mais ser abafada. Gritem! As vozes das mulheres que nos precederam, e que foram brutalmente silenciadas, clamam por justiça através de cada uma de nós. Gritem! Não podemos mais carregar o peso desse fardo histórico. A herança do silêncio precisa ser desfeita. Gritem!
Quem os protege? O mundo. A estrutura social, as lacunas nas leis, a cultura arraigada, os discursos complacentes. Tudo parece conspirar para proteger o masculino violento, para justificar seus excessos, para minimizar suas falhas. E o que resta à mulher? Silenciosamente implorar por vida?
Vamos abandonar os "bons modos" que nos foram impostos como grilhões invisíveis. É o momento de deixar claro, em alto e bom som, os nossos limites inegociáveis. E temos que ser e estar umas pelas outras, para que o silêncio se torne a lembrança sombria de um passado que decidimos coletivamente deixar para trás.
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