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É professora da Faesa, jornalista e advogada

Mulheres, vamos abandonar os 'bons modos'

Sinto que ser "agradável" ou "bem-educada" não se encaixa quando a nossa integridade física, emocional e psicológica está em jogo. E se sinto, sei que é tempo de parar de silenciar

  • Mirella Bravo É professora da Faesa, jornalista e advogada
Publicado em 30/03/2026 às 16h20

“Acho que as mulheres precisam acordar e saber que ninguém vai vir salvar a gente”. A fala é da comandante da Guarda Municipal de Vila Velha, Landa Marques, sobre o feminicídio da Dayse Barbosa, comandante da Guarda Municipal de Vitória. Esse assassinato brutal, precedido e sequenciado por tantos outros do mesmo tipo, nos convoca a mudar de comportamento para ficarmos vivas.

Chega de bons modos! Sinto que ser "agradável" ou "bem-educada" não se encaixa quando a nossa integridade física, emocional e psicológica está em jogo. E se sinto, sei que é tempo de parar de silenciar. Seguimos caladas e reduzidas ao servir. Estamos dando espaço demais para sermos constantemente sufocadas. Gritem!

A comunicação, em sua essência mais pura, é a materialização da existência. O que é dito, o que é contado, ganha forma, torna-se real e palpável. O que permanece oculto, velado nas profundezas do não  dito, do silêncio profundo, dissolve-se em uma não-existência, uma dor que se perpetua sem nome, sem reconhecimento, sem a possibilidade de justiça. Falar é uma forma de resistir.

Precisamos contar as nossas vidas para que não nos reste apenas ter narradas as nossas mortes. Fomos meticulosamente moldadas por uma sociedade patriarcal que nos relegou a um papel secundário, nos confinando em papéis de silêncio.

É tempo de transgredir os limites invisíveis. Ainda somos prontamente rotuladas como escandalosas, histéricas, descontroladas e loucas. A vítima é facilmente transformada na ré, a perturbadora da ordem, a causadora de problemas. Não é simples reação. É uma tática de descredibilização para manter o status quo, que assegura o silêncio imposto com violência.

A dor infligida por homens violentos não pode mais ser abafada. Gritem! As vozes das mulheres que nos precederam, e que foram brutalmente silenciadas, clamam por justiça através de cada uma de nós. Gritem! Não podemos mais carregar o peso desse fardo histórico. A herança do silêncio precisa ser desfeita. Gritem!

Dayse Barbosa Mattos, comandante da Guarda Municipal de Vitória morta pelo namorado
Dayse Barbosa Mattos, comandante da Guarda Municipal de Vitória morta pelo namorado. Crédito: Instagram guardadevitoria_dayse

Quem os protege? O mundo. A estrutura social, as lacunas nas leis, a cultura arraigada, os discursos complacentes. Tudo parece conspirar para proteger o masculino violento, para justificar seus excessos, para minimizar suas falhas. E o que resta à mulher? Silenciosamente implorar por vida?

Vamos abandonar os "bons modos" que nos foram impostos como grilhões invisíveis. É o momento de deixar claro, em alto e bom som, os nossos limites inegociáveis. E temos que ser e estar umas pelas outras, para que o silêncio se torne a lembrança sombria de um passado que decidimos coletivamente deixar para trás.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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