A Assembleia Legislativa do Espírito Santo aprovou a Lei 333/2020, que estabelece as igrejas e os templos de qualquer culto como atividade essencial em períodos de calamidade de saúde pública. Basta uma primeira lida no texto para percebermos os equívocos teológicos. O conceito de “igreja” não pode ser confundido com o lugar onde os fiéis se reúnem. Inclusive, se espera dos líderes religiosos tal compressão, o que naturalmente evitaria essa discussão e a pressão para voltarem os cultos presenciais.
Indiscutivelmente, os trabalhos que as comunidades de fé prestam são fundamentais. Ninguém negaria o valor da igreja durante a pandemia. O cuidado pastoral, o acolhimento das dores humanas e a assistência às famílias mais pobres são alguns dos essenciais serviços prestados pela Igreja. Contudo, nada disso está ligado ao templo. Como afirma o texto bíblico, a Igreja é composta por pessoas e sua presença no mundo não depende dos encontros públicos presenciais.
Se considerarmos as origens da fé cristã, as seguidoras e seguidores de Cristo não se reuniam em templos. As cartas paulinas e indícios nos Atos dos Apóstolos indicam a existência e sobrevivência da igreja para além de qualquer lugar sagrado. Como Paulo advertiu, o “corpo é o templo do Espírito Santo” (1Coríntios 6.19). Ou seja, na história do Cristianismo os templos chegaram depois. Por isso, é um grande sinal de desvio quando sua presença ganha mais valor do que a vida humana.
Então, não me parece honesto e responsável que em plena crise sanitária, quando há tanta negociação sobre o enfrentamento aos efeitos destrutivos da pandemia, confundirmos a importância da Igreja com suas reuniões presenciais. Tornar os encontros presenciais como serviço essencial – porque, no fundo, é isso que a Lei propõe – não representa qualquer preocupação piedosa, mas revela-se como conveniência política, intoxicação ideológica e compreensão equivocada do papel da Igreja na esfera pública. Não é colocando em risco a vida das pessoas que exercermos a liberdade religiosa ou vivenciamos a fé.
Infelizmente, a necropolítica estabelecida no governo federal também lançou seus tentáculos em terras capixabas. Com o manto sagrado das bênçãos da igreja, a Assembleia, a fim de agradar alguns líderes evangélicos e aplacar seus interesses irresponsáveis, aprovou uma Lei manchada de sangue. Para o bem da população e da própria Igreja, esperamos que o Governo Federal não caia nesse jogo, considere as consequências e vete essa irracionalidade.
*O autor é pastor, doutor em Ciências da Religião e professor