É certo que a ciência avançou rumo a limites antes inimagináveis. O controle da vida e sua demarcação, antes ligados à transcendência, parecem se estender em proporção tal que já não se aceita o fim como condição possível ao humano, diante das milhares de possibilidades que a ciência coloca à disposição.
Com um cardápio infindável de alternativas a serem sacadas pelos profissionais da saúde, a cada desdobramento e manifestações clínicas que vão surgindo no desenrolar do fenômeno adoecimento, o paciente e seus familiares alimentam expectativas de prolongamento da existência, como se fosse possível adiar aquilo que se mostra inevitável.
Profissionais da saúde, em especial médicos e enfermeiros, em particular aqueles que vivenciam o cotidiano de atendimento a pacientes graves, com doenças crônico degenerativas e situação especial de diagnóstico, forçados por uma imaginário social que os coloca na condição de quase deuses, lutam incansável e obstinadamente, por um prolongamento da vida que, na realidade, já não se coloca mais como possibilidade, mas que se impõe como realidade.
A bioética, ciência da construção reflexiva, da prudência e da tolerância, precisa contribuir para a construção de um novo paradigma acerca da vida e da morte. O fascínio pela ciência, tão importante como fator de desenvolvimento da humanidade, que nos permitiu chegar ao fantástico mundo no qual vivemos hoje, precisa se submeter a outros valores, que sejam capazes de nos manter ligados à nossa condição de humanos, vulneráveis, frágeis e, ainda hoje, limitados por nossa finitude.
A morte, condição constitutiva de nossa humanidade, precisa ser encarada como mais uma das fases de nossa existência. Uma etapa que merece ser vivida, experimentada em sua dimensão individual, mas compartilhada nos afetos, em emoções singulares e únicas.
Refletir sobre a morte e o morrer, a partir de uma racionalidade que incluísse a compreensão do ser em sua dimensão ontológica, poderia nos conduzir a um patamar de maior serenidade e prazer naquilo que significamos como vida. Pensar a morte como possibilidade concreta, inerente a nossa humanidade, poderia fomentar em nós a compreensão da temporalidade, da delicadeza e da beleza disso que chamamos corpo e que abriga nossa alma.
O corpo, que se move e que leva nossa alma para passear, precisa ser cuidado com carinho, afagado com gentileza e respeito, de forma tal que, quando chegar a hora de partir, não nos angustiemos em estratégias procrastinadoras de um fim que se apresenta como inexorável.