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Crônica

A arte de poder e saber interpretar é realmente para poucos

Chego a pensar que os “bandidos” de rua, na qual estão aprisionados, constroem uma relação com objetos de sobrevivência. Por definição são miseráveis

Publicado em 18 de Fevereiro de 2020 às 05:00

Públicado em 

18 fev 2020 às 05:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Cena do filme "Coringa" Crédito: Divulgação

Nós, o povo, independentemente de raça, torcida de futebol, facção criminosa, debruçados literalmente na internet, seja jogando no celular e nos intervalos telefonando, desprezamos pateticamente a relação com o semelhante, e me ponho a pensar.

Autores como Julio de Mello, referência mundial em psicanálise, e demais ícones no estudo do desenvolvimento afetivo do homem, passaram a vida a provar a dinâmica da condição humana que exige de cara uma relação com a mãe, desde o útero passando pelo nascimento e morte. Isso dá para a pessoa a capacidade de interpretar.

Penso na insubstituível área do brincar, parte do desenvolvimento criativo e sadio. Diferentemente dos arranjos pré-pensados, que controlam a vontade das crianças, especialmente a pedagogia oficial do país. Às vezes, chego a pensar que os “bandidos” de rua, na qual estão aprisionados, constroem uma relação com objetos de sobrevivência. Por definição são miseráveis.

O brincar transforma o objeto de relação – no princípio era a mãe e seu verbo -em qualquer coisa que venha a criar, inventar. Qualquer objeto pode representar qualquer objeto. Muitas vezes, tal capacidade demora a sair da metade real e da metade simbólica, de modo que a pessoa necessita do objeto transicional, que vocês estão cansados de presenciar, um travesseiro, um boneco, um objeto que a pessoa não larga nunca, ou quase, Ele contém a realidade, digamos, de um travesseiro, e as representações inconscientes fundamentos para a estrutura do seu ego. Então.

Dia desses, assisti à entrega do Oscar e nele estrelando "JoJo Rabbit", uma imaginária concepção que vai se construindo e aperfeiçoando até destruir-se sobre as sombras do afeto, amor e ódio. Os objetos transicionais variam, mas na minha interpretação, um analista, por exemplo, é sim um desses objetos. É um ser humano que se tiver competência, vai se deixar inventar a ponto de ser um objeto de fala e mudanças eleitas pelo sujeito.

O filme concorria ao Oscar e ganhou uma estatueta (secretamente voto todo ano, para todas as categorias às quais acrescentei o grupo dos “Injustiçados e Eternos”). Assisti a uma irretocável exibição do que Freud chamou de imaginário. E tem mais do Inconsciente.

A brilhante sutileza do filme “Coringa” substitui as aparentemente grotescas tomadas. A referência ao Batman acontece em uma única cena. O Coringa faz o lúcido no papel de louco, coisa que acontece muitas vezes.

Pronto. Não se falou mais no herói original, que para não chamar atenção fantasia-se com uma máscara e tudo imitando um morcego. E lá vai ele nos quadrinhos perseguir o sofrido Coringa.

Esse Coringa do Oscar, genialmente esculpido pelo incomparável ator Joaquim Phoenix, é um moralista estético que só queria viver e salvar. A humanidade mostrou-se bandida na película. Em cada canto alguém arrancava uma fibra dessa alma repleta de amor com diferentes demonstrações.

Em “Era uma vez em Hollywood”, o papel secundário do roteiro é que era o papel principal, o de Brad Pitt. Os “gênios” da academia premiaram como está no roteiro: papel principal deve ser dado a quem estrela como papel principal, no caso o bom Leonardo DiCaprio. Brad Pitt brilhou.

Dorian Gray, meu cão infiel, continua de olho fixo vendo Maria Sanz sambar na Novo Império, da Vila Rubim.

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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