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Ameaça ou brincadeira?

Vereador de Vitória constrange assessores a fazer "hora extra"

Presidente da Casa, Cleber Felix organizou evento religioso em Andorinhas e "convocou" seus assessores em vídeo: "Se não for, na segunda-feira, você vai ter que passar na presidência"

Publicado em 01 de Novembro de 2019 às 05:30

Públicado em 

01 nov 2019 às 05:30
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Clebinho insinuou demissão de assessores por não comparecimento a evento Crédito: Amarildo

O presidente da Câmara de Vitória, vereador Cleber Felix (Progressistas), promoveu, com ajuda de sua equipe, um evento evangélico no bairro Andorinhas, seu reduto político, chamado "Celebra Vitória com Jesus". O evento foi realizado no último dia 18 (uma sexta-feira). Às 10h34 daquele dia, o vereador publicou, em sua conta no Facebook, um vídeo em que aparece rodeado por sete pessoas – todos vestidos com a camisa cor-de-rosa do evento –, convidando o público em geral a comparecer. Até aí, digamos, tudo normal.

O que foge à normalidade é um segundo vídeo gravado por Clebinho, ao qual a coluna teve acesso, direcionado especificamente aos "seus" assessores e publicado por ele em um grupo de WhatsApp formado, basicamente, por servidores indicados por ele em cargos comissionados da Câmara e da Prefeitura de Vitória. Nesse segundo vídeo, Clebinho faz o que muitos entenderam (e qualquer um teria entendido) como uma ameaça implícita de exoneração em caso de não comparecimento ao evento:

"Ó, esse recado é pra você. Esse convite é pra você. Convite, não. É uma convocação! Hoje, todos [os] assessores do vereador Cleber Felix, na Ponte da Passagem, a partir das 19 horas, 'Celebra Vitória com Jesus'. Não é um convite, tá? É uma convocação. Porque senão, na segunda-feira, você vai ter que passar na presidência."

A coluna apurou que, por motivos óbvios, alguns servidores que receberam a "intimação" se sentiram constrangidos e coagidos a comparecer ao evento em questão, sob o risco de sofrerem retaliação caso não o fizessem.

O vídeo aberto à população e o restrito a servidores foram feitos em sequência, na mesma locação – o pátio da Câmara de Vitória. Em ambos, Clebinho aparece rodeado pelas mesmas pessoas, vestindo as mesmas camisetas cor-de-rosa.

Segundo Clebinho, em resumo, tudo não teria passado de uma brincadeira. A coluna apurou que assessores não entenderam assim.

Em primeiro lugar, é preciso registrar o elementar: o evento em questão foi realizado na noite do dia 18 – fora, portanto, do horário de expediente dos servidores tanto na Prefeitura como na Câmara de Vitória, e ninguém recebe hora extra para participar desse tipo de "atividade externa".

Em segundo lugar, ajudar a organizar esse tipo de evento, ou simplesmente estar ali para fazer número, foge completamente ao escopo das atividades parlamentares para as quais, a princípio, esses assessores são contratados.

Em terceiro lugar, o caráter do evento, de cunho religioso, não guarda relação direta com as atividades de assessoria parlamentar que servidores da Câmara deveriam prestar, muito menos com as atividades de um servidor lotado na Prefeitura de Vitória.

O fato, no entanto, é que essa prática é corrente em toda parte. Muitos parlamentares mantêm, não só na Câmara de Vitória, como em várias câmaras municipais e mesmo em nossa Assembleia Legislativa, o hábito de "deslocar" assessores comissionados indicados por eles para trabalhar em eventos externos como esse, que servem para "turbinar" o mandato.

A lógica é a seguinte: esses cargos comissionados são de livre provimento e costumam ser preenchidos por critérios políticos. Portanto, cada um desses assessores está politicamente ligado ao parlamentar que o indicou.

Eventos como o de Clebinho são usados para "fortalecer" o mandato. Se o mandato se fortalece, o vereador tem mais chances de se eleger no pleito seguinte. E, se o vereador se elege de novo, ora, o assessor tem mais chances de manter o próprio emprego. Uma mão lavaria a outra e, por essa lógica, o assessor na verdade deveria ser o primeiro a fazer questão de responder, solicitamente, a esse tipo de "convocação".

Embora entranhada na cultura política brasileira, essa lógica, por óbvio, está errada e viciada. Representa a distorção e a perversão da nossa atividade política. É patrimonialismo na expressão mais antiga, ou seja, a apropriação do público por interesses particulares. Cada um desses assessores não é desse ou daquele ou vereador, mas, antes de tudo, um servidor público. Não é preciso lembrar que todos eles são pagos com dinheiro do contribuinte.

Como qualquer vereador de Vitória, Clebinho tem o direito de manter até 15 assessores em seu gabinete parlamentar. Por ser presidente, também preenche, por indicação, alguns cargos vinculados à Mesa Diretora da Câmara. Além disso, como a coluna publicou no dia 20 de agosto, Clebinho tem também a sua "cota" de cargos na Prefeitura de Vitória. Pelo menos sete comissionados, confirmados pela coluna, foram indicados por ele na gestão de Luciano Rezende (Cidadania).

No total, dá algo entre 30 e 40 assessores.

Clebinho se declara pré-candidato a prefeito de Vitória em 2020.

O OUTRO LADO

A coluna entrou em contato com Clebinho no fim da manhã desta quinta-feira (31). No início da conversa, o presidente da Câmara confirmou que o "Celebra Vitória com Jesus", no dia 18 de outubro, foi organizado por sua equipe.

Quando fizemos referência ao vídeo gravado para os assessores e citamos as palavras de Clebinho, a primeira reação do presidente foi negar: "Esse vídeo não tem nada a ver com o evento". Lembramos que a "convocação" era exatamente para o referido evento. "Essas informações eu não posso te passar não", disse o presidente, esclarecendo que preferiria conversar pessoalmente ou que lhe enviássemos as perguntas por escrito.

Pouco depois, o vereador enviou o contato de sua assessora de imprensa, a quem enviamos nossas perguntas. As respostas seguem abaixo, na íntegra.

A fala do senhor no vídeo soa como ameaça de exoneração aos assessores que não comparecessem ao evento. O senhor confirma isso?

Não. Em momento algum falo em exoneração. Todos que me conhecem sabem que o vídeo foi uma brincadeira que fiz entre meus assessores, num grupo interno de trabalho. Apenas uma brincadeira. No próprio vídeo você consegue ver meus assessores rindo. Em momento algum tive a intenção de ameaçar alguém.

O senhor acha que agiu corretamente com esses servidores?

Eu não vejo o vídeo como uma ameaça, nem tive a intenção de causar constrangimentos. O vídeo foi uma brincadeira feita no dia do evento. Acrescento que todos os que trabalham comigo sabem que possuem total liberdade e acesso para comunicar sobre qualquer assunto comigo, inclusive caso haja qualquer mal-entendido.

Algum servidor de fato chegou a ser exonerado por não ter comparecido ao evento fora do horário de expediente?

Não. Em momento algum falo em exoneração. Em todos os eventos realizados externos à Câmara os assessores têm a liberdade de participar ou não, é claro. Não há problema nenhum em relação à falta de comparecimento.

O senhor entende que, de fato, comparecer ao evento era obrigação dos assessores?

Não, não era e não é uma obrigação. Conforme disse, foi uma brincadeira entre meus assessores, que me conhecem. Fiquei surpreso com sua demanda e só soube agora que houve algum constrangimento, dias após o evento. Todos me conhecem e não soube de nenhuma reclamação interna.

Entre cargos na Presidência, em outros setores da Câmara e na Prefeitura de Vitória, o senhor mantém quantos assessores hoje?

Tenho quinze cargos, que é o que a lei permite a todos os vereadores. O restante dos servidores é da administração da Casa e estão distribuídos por todos os vereadores e a Mesa Diretora.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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