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Impacto

Uma empresa dividida entre desenvolvimento e dívidas ambientais

É importante lembrar os efeitos indiretos da presença da Vale na economia capixaba, dentre os quais três são especialmente relevantes

Publicado em 24 de Outubro de 2019 às 05:00

Públicado em 

24 out 2019 às 05:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi Arlindo Villaschi
As operações de pelotização na Vale contribuíram para o desenvolvimento do ES Crédito: Vale | Divulgação

Na passagem do quarto ano do crime ambiental provocado pela Vale/BHP/Samarco, é importante refletir sobre como a Vale construiu uma imagem junto à população capixaba que, de certa forma, a blinda de uma ação política à altura de suas dívidas ambientais, sociais e econômicas junto à sociedade do Espírito Santo.

Imagem construída a partir de sua contribuição para com formação socioeconômica do ES, ao longo de boa parte do século XX. Em primeiro lugar, quebrou o isolamento histórico do território capixaba fazendo sua primeira ligação estruturante com o vizinho Estado de Minas Gerais, através da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM).

À mesma época, deu concretitude ao projeto desenhado por Moniz Freire no final do século XIX e ampliou as condições de Vitória enquanto entreposto comercial para uma vasta hinterlândia. E a partir dos anos 1960, com a construção do Porto de Tubarão, colocou o ES como localização alternativa no processo de industrialização brasileira.

Imagem construída também a partir da contribuição da empresa através dos salários pagos a seus funcionários. Durante algumas décadas, a massa salarial gerada pela Vale era significativa para cidades (como Vitória e outras menores ao longo da linha) onde havia concentração de suas atividades operacionais. Com a reestruturação econômica do Estado a partir dos anos 1960/70, a diversificação de seus segmentos produtivos implicou na perda relativa do impacto da empresa na renda e na massa salarial do Espírito Santo.

Ainda assim, é importante lembrar os efeitos indiretos da presença da Vale na economia capixaba, dentre os quais três são especialmente relevantes. Primeiro, até os anos 1960,  a ligação ferroviária era praticamente a única alternativa de transporte viário para o escoamento da produção da região Noroeste do Espírito Santo.

Em segundo lugar, nos anos 1970/80, as operações da Vale (principalmente porto e pelotizadoras) foram elementos de atração para o ES (especialmente na Grande Vitória) tanto de atividades industriais na cadeia metalúrgica quanto de serviços de apoio.

E terceiro, há que se valorizar externalidades positivas de atividades desenvolvidas pela empresa no Estado, dentre as quais destaque para a Reserva Florestal de Linhares e o Museu Ferroviário, em Vila Velha. Externalidades positivas que podem ser identificadas também por contribuições de seus técnicos para a viabilização de cursos e pesquisas tanto na Ufes quanto no Ifes, com destaque para aquelas ligadas à engenharia e à gestão.

Explicitados esses aspectos positivos da Vale para a formação socioeconômica capixaba, há que se debater de forma mais ampla possível como a empresa deve resgatar seus débitos ambientais, sociais e econômicos acumulados com a sociedade do Espírito Santo. Débitos que vão muito além dos prejuízos causados aos municípios ao longo ao Vale do Rio Doce e da costa do Estado em função do crime de Mariana. Débitos que englobam também danos ao meio ambiente, à saúde e à qualidade de vida de moradores da Grande Vitória, diante da participação que suas atividades portuárias e industriais têm na emissão do pó preto de cada dia.

Passivos que tendem a se avolumar na medida em que os interesses políticos e financeiros da empresa a levarão a desativar parte de sua exploração mineral em Minas Gerais, com impacto nas exportações pelo Porto de Tubarão. Desativação que pode abrir oportunidades no uso da Estrada de Ferro Vitória-Minas e de Tubarão na medida em que ferrovia e porto passem a abrir mais espaços para cargas gerais.

Oportunidades que dificilmente serão abertas pelo simples funcionamento do mercado. Por isso precisam ser buscadas em negociações abertas entre o governo e representações da sociedade civil do Espírito Santo com a empresa. Negociações que precisam contemplar a recuperação de dívidas ambientais e sociais da Vale com a sociedade capixaba.

Recuperação que precisa ter trâmites transparentes de tal forma que postergações no cumprimento de acordos feitos pela empresa deixem de ocorrer com base na astúcia de seus advogados e na passividade de instâncias do setor público. Astúcia que passa despercebida pela sociedade graças à propaganda enganosa que a empresa promove de forma sistemática através dos mais diversos meios de comunicação.

Arlindo Villaschi

Arlindo Villaschi Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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