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Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

Vale: vilã ou mocinha? Crescimento econômico ou impacto ambiental?

Não há consenso nem resposta ideal para essa questão, mas ela nos faze refletir sobre a forte ligação que a mineradora tem com o Espírito Santo

Publicado em 23/06/2019 às 12h20
Atualizado em 02/10/2019 às 00h41
Canhões de névoa no pátio de pelotas da Vale. Crédito: Agência Vale
Canhões de névoa no pátio de pelotas da Vale. Crédito: Agência Vale

Nas últimas semanas, a Vale esteve sob holofotes por diferentes motivos no Estado. Anunciou investimentos massivos em programas de controle de emissão de poluentes, como com a instalação dos canhões de névoa, foi uma das responsáveis por derrubar o PIB capixaba, uma vez que responde pela grande fatia do setor da mineração por aqui, e está no centro das discussões que envolvem a construção da ferrovia EF 118, que vai ligar o Espírito Santo ao Rio de Janeiro, mas que neste primeiro momento terá o ramal limitado ao trecho da Capital a Anchieta.

As três situações têm características bem distintas: uma trata da reparação de danos ao meio ambiente, a outra mostra como a sua produção pode influenciar na atividade econômica local e a terceira revela que a mineradora pode ser fundamental para destravar pelo menos parte da ineficiente infraestrutura logística do Estado. Apesar das particularidades, todos esses três pontos comungam do fato de que as atividades que a Vale realiza e as decisões que toma são capazes de mexer com o dia a dia da população e com o mercado capixaba. E o curioso é como também sob essas três óticas é possível ver despertar entre a sociedade sentimentos como de amor e ódio ou rótulos como de vilã ou mocinha. Pois bem, vamos por partes.

AÇÕES AMBIENTAIS 

Desde a década de 60, quando o Complexo de Tubarão começou a ser construído, a Vale acumula passivos ambientais. Com o tempo, a mineradora virou alvo de críticas cada vez mais intensas por parte de moradores da Grande Vitória e de ambientalistas, que convivem e acompanham os prejuízos que o pó preto e a poluição representam para a saúde e para a fauna e flora da região.

Fruto da pressão popular e da atuação de instituições ligadas ao meio ambiente, a Vale está implantando um plano diretor ambiental que prevê ações até 2023. A ideia é reduzir a emissão de particulados e minimizar os danos da poluição que causa. Ela investirá mais de R$ 1,2 bilhão nessas iniciativas e chegará a criar 3.200 empregos diretos no pico das obras. O caso nos desperta para um conflito recorrente. A mesma Vale que polui é a que está gerando empregos e demandando bens e serviços de empresas. Algo extremamente crítico, a emissão de poluentes, retorna agora para a sociedade com a criação de oportunidades. Vilã ou mocinha?

PIB

Ao divulgar os números do PIB do 1º trimestre de 2019, na última terça, o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) mostrou como a indústria teve sua parcela de “culpa” na retração de 1,3% na economia. Da queda de 10% no segmento industrial, a mineração foi apontada como a principal responsável. O desempenho ruim na indústria extrativa esteve ligado a três fatores principais: efeitos causados pelo acidente de Brumadinho (MG), reduzindo o volume de matéria-prima para o setor da mineração no ES, paradas programadas em usinas de pelotização para manutenção, e a interdição por cinco dias das atividades das usinas 1, 2, 3 e 4 pela prefeitura de Vitória, por questões ambientais.

Tendo a Vale um peso de 13% na formação do PIB capixaba e sendo responsável pela criação de 11 mil empregos diretos, entre próprios e de terceirizadas, e outros 65 mil indiretos, qualquer “espirro” é capaz de levar o Estado a uma severa gripe. É caso de amor ou ódio?

FERROVIA

O episódio que envolve a ferrovia tem reviravoltas que ainda aguardam um desfecho oficial (documentado pelo menos, uma vez que a palavra já foi dada). Desde que foram iniciadas as conversas para a renovação antecipada da Estrada de Ferro Vitória a Minas, havia expectativas e até promessas de, que como contrapartida, a Vale construiria um ramal no sul do ES, a EF 118. No ano passado, entretanto, os capixabas foram surpreendidos com a notícia de que o investimento iria para o Centro-Oeste. Diante de forte mobilização, o Estado conseguiu não ficar de todo no prejuízo e, agora, conforme declarações mais recentes do governo federal, a Vale será a responsável por executar, com recursos da outorga da Vitória-Minas, o projeto executivo até o Rio e a construção até Anchieta.

A implantação de uma linha férrea pode colocar o Estado em um outro patamar logístico. Ampliar esse modal para que no futuro o ES esteja interligado a portos do Rio, como o de Açu, é injeção na veia de dinamismo econômico. Mas nos bastidores existe a preocupação em até que ponto a Vale vai investir nos trilhos até Ubu apenas em benefício próprio. Ela será a operadora do ramal? Aceitará cargas de terceiros? Ou está interessada apenas em se conectar à planta da Samarco, da qual é uma das sócias? São algumas das questões que têm permeado o debate sobre a ferrovia. E retornamos para a questão:

vilã ou mocinha?

E AÍ? 

Não há consenso nem resposta ideal para cada uma dessas questões. Mas todas elas nos fazem refletir sobre a forte ligação que a mineradora tem com o Espírito Santo. Temos mais benefícios ou prejuízos? Essa será uma interrogação constante.

HAJA ESPERA!

No final de abril, o secretário nacional de Aviação Civil, Ronei Glanzmann, prometeu que o Aeroporto de Vitória estaria liberado para voos internacionais ainda naquele mês. Já é final de junho e nada! As instalações do terminal estão aptas, segundo a Infraero, mas falta ainda o Ato Declaratório Executivo da Receita Federal.

LISTA "SUJA"

A reforma trabalhista esteve nos últimos dias no centro das discussões mundiais. Durante a Conferência Internacional do Trabalho, organizada pela OIT, em Genebra (Suíça), o Brasil chegou a ser incluído na “short list”, conhecida também como lista “suja”, após denúncia por violar a Convenção 98, que regula as normas de negociação coletiva trabalhista. Para críticos, desde que a reforma foi aprovada houve redução de direitos.

O advogado trabalhista Alberto Nemer, que participou do evento com a delegação da Confederação Nacional do Transporte, defendeu que as mudanças não afrontam a Convenção 98 e que o embate tinha um viés muito mais político do que técnico. “Depois da análise do caso brasileiro, concluiu-se que a modernização das leis não têm nenhum tipo de ilegalidade. Foi uma grande vitória, já que se o Brasil permanecesse na short list, poderia sofrer sanções que teriam impactos econômicos.”

O Brasil, entretanto, não escapou de ser monitorado. A OIT pediu que o governo brasileiro mantenha diálogo com sindicatos e instituições e mostre os impactos positivos da reforma. A situação será reavaliada em fevereiro de 2020.

O FUTURO DA ECONOMIA SOB 4 PERSPECTIVAS  

O mercado vem acompanhando de perto os desdobramentos do debate e do texto da reforma da Previdência. A pedido da coluna, o economista e chefe de mesa de renda variável da Valor Investimentos, Pedro Lang, traçou alguns cenários conforme a economia que pode vir com as novas regras da aposentadoria. De acordo com ele, as perspectivas levam em consideração um horizonte sem grandes surpresas no cenário interno e externo.

R$ 1,2 trilhão: País recupera o grau de investimento e atrai mais capital estrangeiro, o dólar fica no patamar de R$ 4, a Bolsa atinge os 120.000 pontos, o crescimento será de 2% ao ano nos próximos 5 anos e os juros atingem 5,5%.

R$ 900 bilhões: É o cenário base para o país. O crescimento será de 1,5% ao ano, haverá aumento de investimentos, juros ficam em 5,5%, o dólar fica controlado (varia de R$ 3,80 a R$ 4) e a bolsa atinge 105.000 pontos.

R$ 600 bilhões: Cenário neutro para a economia do país. Haverá necessidade de nova reforma antes de 10 anos. A bolsa fica em 95.000 pontos, o crescimento será de 1% ao ano e os juros em 5,5%.

R$ 300 bilhões: Quebramos!

JOGO RÁPIDO COM QUEM FAZ A ECONOMIA GIRAR 

Abrindo o baú com Márcia Lima Celga. Crédito:              Vitor Jubini
Abrindo o baú com Márcia Lima Celga. Crédito: Vitor Jubini

Nome: Márcia Celga

Empresa: Celga

No mercado: Há 42 anos

Negócio: Comércio de aviamentos, artesanatos, cama, mesa e banho

Atuação: Vitória e Vila Velha

Funcionários: Cerca de 70 diretos e 35 indiretos

Economia: É uma caixinha de surpresas neste país. Precisamos estar sempre antenados para acompanhar.

Pedra no sapato: Para todo empresário é o excesso de impostos e burocracia.

Tenho vontade de fechar as portas quando: Nunca! Sempre tenho vontade de vencer.

Solto fogos quando: os clientes e os funcionários estão satisfeitos.

Se pudesse mudar algo no meu setor, mudaria...: O clima no ambiente de trabalho. Acho que o setor deve buscar uma forma mais humanizada de lidar com o cliente, com o fornecedor e com o funcionário.

Minha empresa precisa evoluir: Nas técnicas de vendas e no acesso às tendências do setor. Também precisamos melhorar nos equipamentos, que sempre esbarram nos custos. 

Se começasse um novo negócio seria...: O mesmo. Faria tudo de novo, mas com mais maturidade.

Futuro: Reforçar o laço entre a Celga e a clientela.

Uma pessoa no mundo dos negócios que admiro: Gilberto Sarruf, dono do Rei do Armarinho, que está há quase 100 anos no mercado.

 

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