Enquanto médicos tentavam conter uma hemorragia interna e salvar seu bebê recém-nascido dentro do centro cirúrgico, Camila Gava Folli repetia a mesma pergunta: “Eu vou morrer?” Perguntou uma vez. Depois, outra. E mais outra. Na quarta tentativa, recebeu a resposta que mudaria sua história.
“A médica virou para mim e disse: ‘A gente conseguiu estabilizar’”, relembra.
O filho, Kai, havia nascido sem respirar após uma ruptura uterina — uma das complicações obstétricas mais graves e temidas, reforça Camila. O prognóstico era incerto. “Os médicos não sabiam dizer se ele sobreviveria, se abriria os olhos, se um dia andaria ou falaria.”
Entre o medo, a sobrevivência e o luto antecipado, nasceu também algo que hoje transforma a vida de outras famílias: o Instituto Kaimbe.
Camila já era mãe de Malia, hoje com oito anos, quando decidiu realizar o sonho de ter um segundo filho. A gestação de Kai aconteceu sem complicações. Como havia passado por uma cesariana anteriormente, o parto normal só seria possível sem indução. E assim aconteceu.
Tudo corria bem até o momento do expulsivo. “Eu comecei a sentir uma dor muito forte na lateral da barriga. Quando voltei para a cama, o médico não conseguia mais escutar o coração do Kai”, relembra.
No centro cirúrgico, os médicos descobriram a ruptura uterina. Kai ficou sem oxigenação e nasceu sem sinais vitais. Foi intubado e submetido a manobras de reanimação. Depois de três minutos, voltou a respirar. “Eles aplicaram adrenalina e o Kai voltou. Mas voltou hipotônico, sem resposta. Enquanto isso, eu sangrava muito”, recorda.
Durante todo o procedimento, Camila permaneceu acordada. “Eu perguntava o tempo inteiro se ia morrer. E ninguém respondia."
Kai foi encaminhado para um protocolo de hipotermia terapêutica, utilizado em casos graves de hipóxia neonatal para tentar reduzir sequelas neurológicas. Ao mesmo tempo, Camila ainda corria risco de novas hemorragias.
Enquanto tentava sobreviver, ela também lidava com as incertezas sobre o futuro do filho. “Os médicos falavam: ‘Não sabemos se ele vai abrir o olho, se vai andar, se vai falar’. Quando se trata do cérebro, a medicina ainda está engatinhando."
'Eu não fazia ideia por onde começar'
Durante os 40 dias de internação do filho, Camila viveu o que define como um dos períodos mais difíceis da vida. Além do medo constante, veio a sensação de desamparo.
A coordenadora do hospital falou para a gente: ‘Quando vocês saírem daqui, vão precisar de fisioterapeutas, neurologistas, nutricionistas… e isso custa caro’. E eu não fazia ideia por onde começar
Camila Gava Folli Fundadora do Instituto Kaimbe
A família iniciou uma busca intensa por tratamentos especializados. Um dos primeiros desafios foi conseguir um eletroencefalograma contínuo — equipamento que, na época, não estava disponível no Espírito Santo.
Nos meses seguintes, Camila mergulhou em consultas, terapias e estudos sobre neuroplasticidade, capacidade do cérebro de criar novos caminhos neurais, especialmente durante a infância. “A criança tem uma janela muito grande de neuroplasticidade até os cinco anos. O cérebro consegue encontrar novos caminhos, mas isso depende de estímulo e acompanhamento adequado”, explicou.
Mas, enquanto buscava possibilidades para o próprio filho, ela percebia outra realidade: a de famílias que nem sequer conseguiam acesso ao básico. “Eu pensava: se está difícil para mim, imagina para quem não tem informação, dinheiro ou apoio”, assim nasceu uma inquietação.
Da dor, nasceu um propósito
A inquietação se transformou em projeto ao lado da fisioterapeuta pediátrica Dafne Herrero, conhecida nas redes sociais como Doutora Brincadeira. Especialista em desenvolvimento infantil e inclusão, Dafne já acompanhava Kai quando ouviu de Camila o desejo de acolher outras famílias.
Hoje, as duas são cofundadoras do Instituto Kaimbe, criado para oferecer suporte gratuito a crianças neurodivergentes e seus familiares.
O nome Kaimbe, segundo Camila, remete à ideia de “guerreiro”, definição que ela enxerga no filho e nas dezenas de crianças atendidas pelo projeto.
Atualmente, o instituto já ajudou mais de 40 famílias diretamente e impactou centenas de pessoas por meio de mutirões, atendimentos e eventos de conscientização.
Entre as ações promovidas estão adaptações de baixo custo, empréstimos de órteses, apoio psicológico, orientação jurídica e capacitação de profissionais. “O principal objetivo é garantir direitos básicos dessas crianças: mobilidade, comunicação e o direito ao brincar”, explica Dafne.
Segundo ela, muitas famílias chegam ao instituto emocionalmente esgotadas. “A gente ouve muito mais do que fala. Essas mães chegam carregando culpa, medo e insegurança”, relatou.
Para isso, o Instituto Kaimbe realizou, em São Paulo, o evento “Um abraço do futuro para uma família do presente”. O encontro reuniu adultos com deficiência que hoje atuam como atletas, advogados, palestrantes e profissionais de diferentes áreas.
A proposta era simples: mostrar às famílias que existe futuro após o diagnóstico. “Quando uma família recebe um diagnóstico, ela acha que o futuro acabou. Então, a gente traz adultos com deficiência para mostrar que existe autonomia, existe vida”, explica Camila.
Quando acessibilidade também significa dignidade
Parte do acolhimento acontece nos mutirões organizados pelo instituto, em que profissionais ensinam famílias a criarem adaptações acessíveis, utilizando materiais simples. “Uma cadeira de posicionamento pode custar R$ 15 mil. A gente consegue adaptar uma com cadeira plástica e espaguete de piscina por menos de R$ 50”, explica Camila.
Entre as histórias que mais marcaram o instituto, está a da pequena Ângela, uma menina de três anos diagnosticada com Atrofia Muscular Espinhal (AME), moradora de Jardim Guaranhuns, em Vila Velha.
Ângela não anda e tem pouco movimento, tendo sido desenganada por médicos da UTI quando tinha oito meses, com a previsão de apenas três meses de vida.
Os médicos chegaram a dizer que nem mesmo Silvio Santos teria condições de comprar a medicação necessária para ela
Maria de Lourdes mãe de Ângela
A mãe da criança, Maria de Lourdes, enfrentava dificuldades até para manter os aparelhos respiratórios da filha funcionando dentro de casa. Quando faltava energia elétrica, precisava pedir ajuda na rua para carregar os equipamentos em carros ou chamar uma ambulância para levá-la até o hospital.
Por meio do Instituto Kaimbe, a família recebeu um aspirador com nobreak, adaptações e acompanhamento especializado. Depois disso, vieram momentos inéditos, como a primeira ida à praia, a primeira refeição em família fora de casa e o primeiro passeio usando um carrinho adaptado.
Mesmo que Ângela não consiga se alimentar no restaurante, já que recebe alimentação por meio do acesso, a mãe explica que esses momentos são muito importantes para a socialização da filha, porque permitem que ela brinque e conviva com outras crianças. "Um momento de leveza e inclusão", explica.
Hoje, conforme conta a mãe, Ângela está esperta, dança, fala e consegue até sentar com apoio. "Um médico que a havia desenganado no passado viu a gente no hospital e ficou surpreso com a melhora. Falou que ela é um milagre, mas isso só aconteceu por conta do pessoal do Instituto", contou Maria de Loudes.
'Essas bênçãos não podem parar em mim'
Hoje, Camila ainda acompanha diariamente os desafios do filho. A rotina continua cheia de terapias e adaptações. Mas existe algo que ela não tinha no início: esperança. “A medicina não consegue explicar muita coisa que o Kai faz hoje. E eu acredito que essas bênçãos não podem parar em mim”, disse, emocionada.
Além disso, Camila vive a maternidade em dose dupla. Enquanto acompanha de perto o tratamento de Kai, também dedica atenção à filha Malia, uma criança típica. Hoje, aos oito anos, Malia brinca com o irmão e, segundo a mãe, essa convivência faz toda a diferença. Além das brincadeiras, ela o incentiva diariamente, o que desenvolve uma relação marcada pela empatia e pelo carinho.
No Dia das Mães, a história de Camila fala sobre coragem, mas principalmente sobre acolhimento. Sobre mulheres que, mesmo atravessadas pela dor, encontram forças para segurar outras mãos pelo caminho. “Quando ajuda uma mãe que está desesperada, você muda muito mais do que uma vida. Você devolve o futuro”, observou Camila.
Mais informações sobre o Instituto Kaimbe podem ser encontradas no site oficial da instituição (institutokaimbe.com).