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Mudanças

Sopram os primeiros ventos de normalidade financeira no Brasil

Para planejar o futuro é necessário acreditar que haverá futuro. Vivemos muitos anos, como Estado, famílias e indivíduos administrando crises semestrais e descontando o futuro a taxas altíssimas

Publicado em 23 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

23 jan 2020 às 04:00
Danilo Carneiro

Colunista

Danilo Carneiro Danilo Carneiro
Dinheiro Crédito: Pixabay

Nos próximos meses, a Caixa Econômica Federal se prepara para lançar, pela primeira vez no Brasil, um produto imobiliário sem qualquer correção financeira. Na prática, significa que o cidadão poderá parcelar a compra de uma casa (ou da casa que já possui) sabendo exatamente quanto vai pagar ao logo dos próximos 30 anos.

Parece algo extraordinário. E por aqui é! No resto do mundo, onde não existem jaboticabas e não vigora o caos financeiro, é bem assim que funciona. Com a prometida possibilidade de jogar fora a calculadora científica, muito seria possível discorrer sobre o incrível leque de oportunidades para o mercado de securitização, que é bastante incipiente no Brasil – mas será assunto para outro artigo.

Dessa vez, o foco é analisar o estrago que a “gangorra” financeira produziu no comportamento dos brasileiros e na nossa “pisque coletiva”. Vivemos muitos anos, como Estado, famílias e indivíduos administrando crises semestrais e descontando o futuro a taxas altíssimas.

A hiperinflação gerava emergências diárias e passamos a ser comandados pelo “curto prazo”. Parte expressiva da população tem vivido “da mão para a boca”; Outra parte na completa desordem orçamentária. Lembrando o professor Eduardo Gianetti, os jovens que somos estão explorando, sem qualquer pudor, os velhos que um dia seremos. Nos tornamos experts em planejar o final de semana ou, no máximo, o próximo ano. Mais do que isto, para nós, sempre foi exercício de futurologia.

Fiquei muito impressionado ao conversar com estudantes universitários alemães, austríacos e ingleses. Percebi que a maior parte deles tem um planejamento para a carreira e “uma certa” clareza sobre o futuro, ainda que a Europa esteja vivendo lá as suas incertezas. Os meus alunos não conseguem planejar para além do final do curso. Simplesmente não enxergam o horizonte.

Quando pergunto sobre os planos para os próximos dez anos é comum ouvir a seguinte resposta: "professor, eu não sei nem se vou estar vivo!" Imaginem... Com isto, criamos duas espécies de “bichos financeiros” igualmente perniciosos: um é a cigarra negligente com a Previdência, pública ou privada, e sempre endividada; a outra é uma formiga acumuladora contumaz que armazena para um inverno milenar. Ambas retiram a racionalidade do ambiente econômico.

Para planejar o futuro é necessário acreditar que haverá futuro. Pessoas em zonas de guerra ou pacientes terminais planejam, quando muito, as próximas horas. Em ambientes de normalidade é possível que planejem os próximos 30 ou 40 anos. Não sugiro nem pratico o hábito de descontar o presente permitindo que o velho que um dia seremos explore o jovem que somos. Mas sem plano fica bem difícil!

Somos os reis do improviso e a financeirização da nossa economia atingiu índices alarmantes e desproporcionais à economia real. E, precisamente por isto, é bom sentir os ventos da normalidade e da racionalidade. É evidente que não vivemos no futuro e não precisamos passar a vida pensando “no longo prazo”, pois, como dizia Keynes: “no longo prazo estaremos todos mortos”. Então, enquanto estamos vivos, celebremos a racionalidade, este nosso artigo de luxo!

Danilo Carneiro

Danilo Carneiro Danilo Carneiro

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