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Veja os sinais para identificar a depressão no idoso

Veja os sinais para identificar a depressão no idoso

Pandemia de Covid-19 acentuou os sintomas depressivos nos mais velhos, mas muitos criaram estratégias para superar problema

Publicado em 23 de julho de 2021 às 15:19

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A aposentada Anamaria Vieira de Faria, de 74 anos, vive sozinha há quase 18 anos numa chácara, em Valparaíso de Goiás, cercada de plantas e bichos.
A aposentada Anamaria Vieira de Faria, de 74 anos, vive sozinha há quase 18 anos numa chácara, em Valparaíso de Goiás, cercada de plantas e bichos. "Sou muito privilegiada por estar onde sempre quis", diz. (Arquivo pessoal)

Quando a idade está avançada, é comum passar a sentir uma dorzinha aqui outra ali, ver a força diminuir, entre outras limitações. Problemas emocionais também se tornam mais presentes nesta etapa da vida, embora não seja uma regra.

A geriatra e paliativista Gleida de Oliveira Lança, da Aracê Casa de Vivência, em Vitória, lembra que muitos familiares acham natural que idosos tenham motivos para ficarem tristes e depressivos, por conviverem com perdas pessoais e familiares. Alguns acham que é coisa da idade.

De fato, a doença atinge uma parcela grande da população nessa faixa etária, após os 60 anos. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2019, mostra que a depressão afeta 13% das pessoas com idade entre 60 e 64 anos.

Mas achar que a depressão é inerente à idade é um mito que precisa ser derrubado, segundo a médica. "A sociedade ocidental tem dificuldade de compreender e aceitar o envelhecimento. O mito da juventude eterna infiltra no inconsciente coletivo tendendo a deixar o idoso invisível, assim como suas dores e sofrimentos", comenta a médica.

No entanto, diz ela, o idoso tem buscado um novo espaço social "não apenas de aceitação de seus cabelos brancos como também de busca de qualidade de vida". "Não se aceita o conceito de velhice ser sinônimo de doença e, muito menos, que depressão e dor sejam normais", observa.

Close-up nos olhos verdes de uma mulher idosa branca com cabelos grisalhos
A depressão se caracteriza pela falta de prazer na vida ou tristeza persistente na maioria dos dias. (Freepik)

Primeiro, segundo Gleida, é preciso entender o que é a depressão. "Depressão não é um baixo astral passageiro ou uma tristeza diante de circunstâncias difíceis. E não é sinônimo de luto."

SINAIS 

A depressão, continua ela, se caracteriza pela falta de prazer na vida ou tristeza persistente na maioria dos dias, associado a alguns sintomas como: falta de apetite ou apetite exagerado, alteração no sono (insônia ou sonolência), sentir-se cansado e sem energia, autoestima baixa e sensação de fracasso, dificuldade de se concentrar para fazer suas tarefas ou pensamentos de que seria melhor não estar vivo.

"Esses sintomas precisam persistir por mais de duas semanas", aponta.

Um olhar mais atento pode identificar quando se trata de algo mais grave. "Quando o idoso fica persistentemente desanimado, sem gosto para fazer as coisas que sempre fez, sem interesse às suas atividades, levanta-se o primeiro alerta. Se a presença de tristeza permanece a maior parte do tempo ou se sentir para baixo, surge o segundo alerta", descreve a geriatra da Aracê Casa de Vivência.

A médica destaca que o idoso é muito resiliente para dores e sofrimento. E que, quando ele se queixa muito, certamente tem um sofrimento emocional, físico, social ou espiritual.

"Muitas vezes, a depressão no idoso aparece de forma mais disfarçada com sintomas físicos mais frequentes e intensos como dores, tonteiras, perda de peso, náuseas e diarreia que pouco melhoram com medidas usuais. Também é frequente ansiedade, insônia e sonolência diurna, piora significativa de memória e da atenção. A depressão no idoso costuma apresentar mais falta de prazer e energia do que tristeza", afirma.

APOIO

Gleida Lança destaca que buscar apoio médico é importante para confirmar o diagnóstico de depressão e para avaliar fatores clínicos que causam ou pioram os sintomas depressivos, como anemia, deficiência de vitaminas, alterações de tireoides, de glicose e uso de vários medicamentos que podem piorar a depressão.

Mãos de um jovem segurando a mão de uma idosa.
Procurar por apoio médico é importante para avaliar os fatores clínicos que causam ou agravam os sintomas depressivos. . (Freepik)

"O uso inadequado de álcool tem aumentado entre idosos e precisa ser abordado pelo médico, pois piora muito a depressão. O controle das doenças físicas favorece a melhora dos sintomas depressivos. Assim como o tratamento de depressão favorece melhora de doenças físicas", frisa.

Há várias maneiras de ajudar o idoso a superar a doença. "A psicoterapia e o espaço da escuta ativa potencializam a melhora do humor e da depressão. Muitos familiares têm o paradigma que psicoterapia não se adequa ao idoso, mas os trabalhos mostram um efeito terapêutico importante."

A atividade física, de acordo com a geriatra, é um elemento precioso no controle da depressão. "A exposição ao sol também é muito útil. Ficar em um quartinho escuro e isolado pode piorar muito o quadro. É importante incentivar o convívio social, porém com delicadeza, pois na vigência de depressões graves, o idoso pode não dar conta do convívio", defende.

Além disso, os amigos e familiares têm um papel fundamental no acolhimento do idoso, estimulando as atividades que eram anteriormente prazerosas como passeios e ouvir boa música.

"Sair da cama é fundamental para evitar piora da fraqueza, trombose em pernas e pneumonia. A presença de pets, como cachorros, gatos e passarinhos pode contribuir, assim como convívio com netos, respeitando o desejo e individualidade do idoso", sugere ela.

A especialista destaca, porém, que estimular é diferente de forçar. Usar expressões como "reaja”, “seja feliz”, “você não tem motivos para estar assim”, entre outras do tipo, pode gerar mais angústia e culpa. "Os gestos de amor e carinho são especiais neste contexto", diz.

O uso de medicamento não é indicado para todos os casos, como reforça Gleida. "Os medicamentos são utilizados em casos moderados a graves e têm ação muito importante no tratamento. Mas a abordagem vai muito além de 'pílulas da alegria'. Existem muitas classes de antidepressivos que podem contribuir no tratamento da depressão. Alguns auxiliam no sono, melhoram a ansiedade, outros melhoram o apetite e outros atuam nas dores crônicas."

Idosa com blusa gola alta verde claro e um blazer preto por cima. Usa máscara, é branca com cabelos grisalhos bem curtos.
A pandemia do novo coronavírus foi impactante para os mais velhos. Aqueles mais vulneráveis emocionalmente tiveram seus quadros depressivos piorados. (Freepik )

PANDEMIA 

A pandemia do novo coronavírus foi impactante para os mais velhos. Isolamento prolongado, perdas, medo da morte... Tudo isso veio com o pacote da Covid-19. Aqueles mais vulneráveis emocionalmente tiveram seus quadros depressivos piorados.

Para Gleida Lança, é inegável que o isolamento social é um fator favorecedor de sintomas depressivos. Mas ela acredita que o distanciamento físico não significa isolamento. E que a pandemia também fez muitos idosos repensarem sua rotina e sua forma de encarar a vida.

"O jeitinho brasileiro tem levado a várias alternativas criativas nesta fase de pandemia, como videochamadas frequentes, encontros em locais abertos mantendo a distância e uso de máscaras, trazer o bolo predileto ou aquela guloseima de dias festivos. Vale tudo na celebração da vida!", comenta.

Desafiados a reagir às novas regras, em nome da preservação da saúde, muitos passaram a desenvolver novas habilidades, como manusear computadores, mídia social e aprender novas línguas.

"Reconhecer as emoções e compartilhar com alguém favorece a cura. Assim como é importante ajudar o idoso sair do espaço de vítima e coitadinho para a postura ativa de agente da sua própria história", diz a geriatra.

"SOU MUITO PRIVILEGIADA", DIZ APOSENTADA QUE VIVE EM CHÁCARA

A aposentada Anamaria Vieira de Faria, de 74 anos, vive sozinha há quase 18 anos numa chácara, em Valparaíso de Goiás, localizada no entorno de Brasília (DF). Sozinha em termos... Na verdade, ela está cercada de plantas e bichos. E antes da pandemia podia contar sempre com a companhia de filhos, netos e amigos.

Com a pandemia de Covid-19, ela teve que ficar inevitavelmente mais restrita. Mesmo assim, Ana conseguiu driblar a solidão focando nas coisas que mais lhe dão prazer, como ler livros, ver um bom filme, cuidar do jardim, das galinhas e dos seus cinco cachorros: Nina, Linda, Flora, Tuca, Chico e Rosinha.

"Sou muito privilegiada por estar onde sempre quis. Não me importo de ficar sozinha. Faço minha própria comida, cuido das plantas, dos meus bichos, não abro mão de tomar minha taça de vinho e de apreciar a beleza do meu quintal", diz ela.

Para aplacar a saudade dos mais chegados, assim que foi possível, Anamaria pôde contar com a visita de algumas amigas, todas já devidamente vacinadas, para jogar um baralho em casa. Os filhos e netos também foram voltando a frequentar o sítio, pouco a pouco.

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