A cantora Selena Gomez compartilhou um vídeo em suas redes sociais no qual conta que esteve viciada em cigarro eletrônico por muito tempo e que ele mudou a sua voz.
“É uma caixinha de surpresas”, resume Liz sobre o conteúdo dos vapes. Os dispositivos podem ter metais pesados como níquel, cromo, chumbo e cobre, que agravam a inflamação e podem contribuir para o surgimento de um câncer. “Eles lesam o DNA de uma forma muito mais grave do que só se fosse nicotina. A nicotina por si só é muito ruim, mas adicionando essas outras substâncias fica ainda pior”, afirma.
Ainda não é possível ligar casos de câncer diretamente ao vape, porque o dispositivo é relativamente novo e a doença leva de 10 a 30 anos para se desenvolver. “Mas se o uso for contínuo, com certeza isso vai evoluir em algum momento”, diz a otorrinolaringologista. Ela também desmente a ideia de que o vape ajuda a largar o cigarro comum. “A pessoa está trocando um vício por outro. Ela não está de fato resolvendo um problema”.
Quando procurar um médico
Garganta arranhando, que vai e volta
Ardência ou queimação na garganta
Pigarro e vontade constante de limpar a garganta
Sensação de “bolo”, poeira ou pelinho na garganta
Falhas na voz ao longo do dia
Rouquidão por mais de 15 dias sem estar ligada a gripe ou resfriado. Nesse caso, a orientação é procurar um otorrinolaringologista.
Ao longo do século 20, o cigarro foi vendido como sinônimo de charme. Nas guerras mundiais, fez parte das rações dos soldados. Nos anos 1940 e 1950, virou símbolo de elegância e mistério nas mãos das estrelas de Hollywood. Nas décadas seguintes, a publicidade o associou à liberdade, à juventude e ao sucesso, mirando inclusive mulheres e adolescentes. Só a partir dos anos 1970 e 1980, com as pesquisas sobre câncer e doenças cardiovasculares e as restrições à propaganda, essa imagem começou a ruir. Campanhas antitabagistas fizeram fumar parecer feio, e muitas crianças cresceram cobrando dos pais que largassem o cigarro. Boa parte dessa geração, que hoje se preocupa com alimentação, treino e qualidade de vida, torce o nariz para o cigarro comum. Mas não para o vape.
O cigarro eletrônico chegou como o mesmo mal, só que com uma embalagem colorida e cheirinho de uva. E o apelo funciona. “Eu vejo muito paciente falando: ‘Eu odeio cigarro, mas uso vape’. É um negócio que veio mascarado de bonitinho”, conta a pneumologista Jéssica Polese. Para ela, é a indústria do tabaco repetindo a velha estratégia com uma nova roupagem. “Eles colocam a embalagem cor-de-rosa, é tudo divertido, tudo lindo, como se fosse algo natural, o que não é”, critica.
Os números mostram o resultado. Segundo uma pesquisa do A.C. Camargo Cancer Center com a Nexus, divulgada pelo jornal O Globo, a Geração Z é hoje a faixa etária que mais fuma no país. São 19% dos jovens de 16 a 24 anos que se declaram fumantes, somando cigarros comuns e eletrônicos, acima da média nacional, de 17%.
Proibido, mas fácil de achar
O problema é que, até para o usuário, o que compõe o vape é um mistério. Fabricar, vender, importar, divulgar e distribuir qualquer tipo de cigarro eletrônico é proibido no Brasil desde 2009, e a Resolução RDC nº 855/2024, da Anvisa, manteve a proibição e reforçou que o uso também é vetado em locais coletivos fechados.
Por isso, todo vape vendido no país é contrabandeado, e não há nenhum controle sobre o que ele contém. Ao contrário do que muita gente pensa, o que sai do aparelho não é só vapor de água: a bateria aquece um líquido oleoso com nicotina, aromatizantes e outras substâncias que nem os médicos sabem identificar. “Se você não sabe o que tem, você não tem como saber o que causa mal”, diz Jéssica. Ainda assim, o produto é fácil de achar: uma busca rápida na internet mostra pelo menos três estabelecimentos que vendem vapes na Grande Vitória.
Para a pneumologista, o vape precisa do mesmo tratamento que o cigarro recebeu: campanhas pesadas, que envolvam pais e escolas, e fiscalização rigorosa. “Vai ser no momento em que tiver um fumando lá no bar e ele for convidado a se retirar, e o dono do bar estiver respaldado pela lei, que ele vai pensar duas vezes”, afirma.
Este conteúdo foi produzido por Kamila Rossi, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação do editor Guilherme Sillva.