O câncer de boca é um tumor maligno que pode se desenvolver em diferentes estruturas da boca e dos lábios. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), ele figura entre os tumores mais frequentes no Brasil, acometendo principalmente homens acima dos 40 anos, embora possa surgir em qualquer pessoa.
O grande desafio dessa doença é o diagnóstico tardio: por começar muitas vezes de forma indolor e discreta, ela é frequentemente confundida com pequenos machucados ou aftas comuns, fazendo com que a maioria dos pacientes só busque ajuda em estágios avançados.
Muitos pacientes ainda chegam ao atendimento especializado quando a doença já está em estágio avançado, exigindo tratamentos mais complexos e com maior impacto funcional e na qualidade de vida. Dados do INCA apontam que 76,3% dos casos de câncer de boca no país são descobertos nos estágios III ou IV, considerados fases avançadas da doença. Para o triênio 2026-2028, o instituto estima mais de 17 mil novos casos anuais de câncer de boca no Brasil, sendo 12.260 entre homens e 4.930 entre mulheres. No Espírito Santo, são esperados 510 novos diagnósticos em 2026.
Embora o dado seja específico sobre câncer de boca, ele ajuda a ilustrar um desafio mais amplo enfrentado nos tumores de cabeça e pescoço: a demora na investigação de sinais persistentes.
O câncer de cabeça e pescoço engloba tumores que podem atingir regiões como boca, língua, garganta, faringe, laringe, cavidade nasal, glândulas salivares e tireoide. Por envolver áreas relacionadas à fala, deglutição, respiração, alimentação e comunicação, o diagnóstico tardio pode tornar o tratamento mais complexo e impactar diretamente a qualidade de vida.
Sinais persistentes merecem atenção
Para o cirurgião de cabeça e pescoço Ricardo Mai, o principal desafio é fazer com que a população reconheça alterações persistentes como sinais que merecem avaliação.
“Quando falamos em câncer de cabeça e pescoço, muitas pessoas imaginam sintomas intensos ou muito evidentes. Mas, em muitos casos, as alterações começam de forma discreta e acabam sendo confundidas com problemas comuns do dia a dia”, afirma..
Entre os sinais que merecem atenção estão feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão persistente, dificuldade para engolir, caroços no pescoço, manchas na boca, dor de garganta contínua e sangramentos sem causa aparente
Ricardo Mai Cirurgião de cabeça e pescoço
O médico diz que nem todo sintoma persistente significa câncer. Mas todo sintoma que não melhora precisa ser investigado. "O diagnóstico precoce amplia as possibilidades de tratamento e pode reduzir impactos funcionais importantes para o paciente”, explica Ricardo.
Para identificar a doença precocemente, é importante observar feridas nos lábios e na cavidade bucal, que não cicatrizam em até 15 dias. "Manchas vermelhas ou esbranquiçadas também são um sinal sugestivo. Um erro muito comum cometido pelas pessoas é aguardar longos períodos, imaginando que a ferida possa ser uma afta e que terá uma resolução espontânea. Mas é importante destacar que lesões na boca que ultrapassam o período de duas semanas devem ser avaliadas por um profissional”, sinaliza a dentista oncológica Beatriz Coutens.
Ir ao dentista pelo menos duas vezes por ano também faz parte de uma estratégia de prevenção ao câncer de boca. Em consulta, esse profissional pode identificar sinais suspeitos, e encaminhar o paciente para uma investigação, o que pode possibilitar um diagnóstico precoce, com tratamento menos invasivo e maiores chances de cura.
"Na maior parte dos casos, uma cirurgia para remoção do tumor é necessária, portanto, quanto mais cedo for o diagnóstico, menor será a área afetada e menor a cirurgia. Dependendo da complexidade de cada caso, a radioterapia pode ser um tratamento complementar", diz o cirurgião de cabeça e pescoço Marco Homero de Sá.
Quais são os fatores de risco?
Os principais fatores de risco incluem tabagismo, consumo frequente de álcool, exposição solar sem proteção (especialmente para câncer de pele e de lábio) e infecção pelo HPV, relacionada a alguns tumores da orofaringe, como os que atingem amígdalas e base da língua.
“Durante muito tempo, esses tumores foram associados principalmente ao cigarro e ao álcool. Esses fatores continuam sendo muito relevantes, mas hoje sabemos que eles não explicam todos os casos. A relação entre HPV e alguns tumores de garganta mudou parte do perfil dos pacientes e reforça a importância da prevenção, da vacinação e da informação de qualidade”, diz Ricardo Mai.
Sabe-se que quanto maior o número de cigarros consumidos, maior o risco de desenvolvimento do câncer bucal. "Toda a mucosa da boca entra em contato com as substâncias químicas presentes na fumaça do cigarro, e esses compostos são, comprovadamente, capazes de provocar alterações celulares, ou seja, têm potencial oncogênico", explica Marco Homero de Sá.
A moda do uso dos cigarros eletrônicos entre a população mais jovem tem preocupado a comunidade médica e um dos motivos é o potencial aumento do risco de desenvolvimento de cânceres, entre eles o de boca.
O consumo de bebidas alcoólicas também aumenta o risco de desenvolvimento de câncer bucal. O alerta é ainda maior porque, em ambientes sociais, é comum que cigarro e bebida sejam consumidos simultaneamente.
Entre os outros fatores de risco estão a exposição solar sem proteção adequada (que aumenta o risco de desenvolvimento do câncer labial) e a infecção pelo vírus HPV, uma vez que o vírus pode alterar o funcionamento celular e favorecer alterações nas células da orofaringe (região da garganta).
"A higiene bucal adequada também conta muito. O acúmulo de restos de comida na boca pode promover um ambiente inflamatório e também a liberação de substâncias chamadas de nitrosaminas, que favorecem a mutação celular", explica Beatriz Coutens.