A história de Jakeline Mendonça começa como tantas outras: em um exame de rotina, sem sintomas, sem sinais aparentes. Aos 36 anos, ela se viu diante de um diagnóstico que mudaria tudo, mas não da forma que se poderia imaginar.
"Meu diagnóstico de câncer de mama chegou de maneira inesperada. Eu tinha 36 anos e descobri tudo através de exames de rotina. Lembro até hoje: voltei ao mastologista e, depois de analisar todos os exames, ele me disse que havia um nódulo, mas que não seria necessário nenhum procedimento adicional. A orientação era apenas aguardar".
Mas Jakeline não conseguiu esperar. "Alguma coisa dentro de mim não me deixava em paz. Eu acordava à noite com uma sensação muito estranha, um aperto no peito. Segui minha intuição e voltei ao médico pedindo para retirar o nódulo. Ele cedeu ao meu pedido e fizemos a biópsia. Descobrimos que aquele nódulo, na verdade escondia um câncer de mama triplo negativo – um dos tipos mais agressivos".
O câncer de mama triplo negativo representa um dos subtipos mais desafiadores da doença, com comportamento mais agressivo e menos opções terapêuticas específicas. Ainda assim, o cenário global traz uma mensagem importante: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 2 milhões de casos foram diagnosticados no mundo em 2022, mas, quando identificado precocemente, as chances de cura podem chegar a até 95%. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 78,6 mil novos casos por ano, números que reforçam a importância do rastreamento, mas também da escuta do próprio corpo.
No caso de Jakeline, ouvir a própria intuição foi determinante. Mas o impacto do diagnóstico não parou ali."Receber essa notícia foi devastador. Soube que o tratamento poderia afetar minha fertilidade. Como alguém que sempre sonhou em ser mãe, ouvir isso foi desesperador".
É nesse ponto que a medicina e o acolhimento caminham juntos. A oncologia moderna não trata apenas o tumor, ela olha para o futuro daquela paciente. Segundo a oncologista Aline Chaves Andrade, da Oncoclínicas, preservar a fertilidade em mulheres jovens diagnosticadas com câncer é uma etapa cada vez mais integrada ao plano terapêutico.
“Hoje, sempre que possível, discutimos estratégias de preservação de fertilidade antes do início do tratamento. Isso faz parte de um cuidado ampliado, que considera não apenas a sobrevida, mas o projeto de vida daquela mulher após o câncer”, explica.
Foi essa abordagem que mudou o rumo da história de Jakeline."Com muita sensibilidade, a doutora Aline me explicou que eu teria tempo para fazer o congelamento de óvulos antes de iniciar a quimioterapia. Essa orientação foi um alívio imenso. Eu me senti acolhida, segura, com uma alternativa diante de tudo o que estava acontecendo”.
O congelamento de óvulos, embora ainda não seja amplamente acessível a todas as pacientes, tem se consolidado como uma ferramenta fundamental para mulheres em idade fértil que enfrentam o câncer. Para a especialista, esse tipo de suporte impacta diretamente na forma como a paciente atravessa o tratamento.
“Quando conseguimos oferecer alternativas, devolvemos à paciente uma sensação de controle em meio ao caos. Isso tem um impacto emocional profundo e, muitas vezes, melhora inclusive a adesão ao tratamento”, afirma a médica.
O tratamento
A jornada, no entanto, esteve longe de ser simples. "Congelei meus óvulos e só então começamos o protocolo de quimioterapia. Foi um processo difícil. O medo da perda do cabelo mexeu muito com a minha autoestima. Embora as pessoas dissessem 'o cabelo cresce', só quem passa por isso sabe a dor que é. Tive a chance de tentar a crioterapia para preservar os fios e acreditei tanto, mentalizei tanto, que consegui manter o cabelo durante todo o tratamento".
Entre cirurgias, quimioterapia e radioterapia, foram períodos de enfrentamento físico e emocional. "Foram meses de luta intensa, entre cirurgias, quimioterapia e radioterapia. Tudo durou cerca de nove meses. Um tempo que parecia interminável, mas que, olhando para trás, vejo como uma travessia necessária para chegar até aqui".
A menopausa induzida pelo tratamento foi mais um obstáculo e também mais um capítulo de superação. "Ao longo do tratamento, enfrentei também a menopausa química. Felizmente, alguns meses após o término, meu corpo voltou a funcionar normalmente. Era um sinal de esperança renascendo."
Para a oncologista, esse período exige acompanhamento próximo e multidisciplinar. “A jornada do câncer não termina no fim do tratamento. Existe um cuidado contínuo, que envolve reabilitação física, suporte emocional e acompanhamento hormonal, especialmente em mulheres jovens”, destaca.
Mas, no caso de Jakeline, a história reservava um desfecho que ultrapassa qualquer estatística: "No final de 2020, engravidei. Uma gestação de gêmeos! Meus filhos nasceram perfeitos, saudáveis. Hoje, com três anos, eles são a maior prova de que a vida sempre encontra um caminho. Cada sorriso deles, cada 'mamãe' que eu escuto, é como um milagre acontecendo diante dos meus olhos."
E talvez nenhum gesto simbolize tanto essa travessia quanto o nome escolhido para sua filha. "Aline. Em homenagem à minha médica, que foi muito mais que uma profissional: foi minha amiga, meu porto seguro, meu braço direito em todos os momentos. Colocar o nome dela na minha filha é uma forma de eternizar tudo o que ela representou na minha vida. E eu vejo na minha pequena a mesma alegria, o mesmo alto astral que a minha médica carrega".