Dores em várias partes do corpo que persistem por meses, cansaço intenso mesmo depois de uma noite inteira de sono e dificuldades de memória e concentração. Quando esses sintomas aparecem juntos, uma das possibilidades a ser investigada é a fibromialgia, síndrome de dor crônica que altera a maneira como o sistema nervoso processa os estímulos dolorosos.
A reumatologista Valéria Valim, do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam) e professora de Reumatologia e Saúde Pública da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), explica que a doença não é provocada por uma lesão nos músculos ou nas articulações. O problema está na forma como o organismo percebe e processa a dor.
Existe uma espécie de 'amplificador da dor' no cérebro e na medula espinhal. Isso significa que estímulos que normalmente não causariam dor passam a ser percebidos como dolorosos, e dores leves tornam-se muito mais intensas
Valéria Valim, reumatologista
O fenômeno é chamado de sensibilização central. Segundo a médica, pesquisas também apontam alterações em neurotransmissores, na conectividade cerebral, no sono e no sistema nervoso autônomo. Em alguns pacientes, podem existir ainda alterações de pequenas fibras nervosas.
"É uma doença biológica, com mecanismos cada vez mais bem compreendidos pela ciência", destaca Valéria.
Como saber se tenho fibromialgia?
A dor difusa é o sintoma mais característico e está presente em praticamente todos os pacientes. Em geral, atinge diferentes regiões do corpo simultaneamente e persiste por pelo menos três meses.
Mas sentir dores frequentes, por si só, não significa ter fibromialgia. O diagnóstico precisa considerar o conjunto de sintomas e descartar outras condições que possam produzir manifestações semelhantes.
Além da dor, é comum o paciente apresentar fadiga intensa, rigidez corporal, dores de cabeça, alterações intestinais e maior sensibilidade ao toque, frio, calor, luz e ruídos. Para algumas pessoas, o cansaço chega a ser mais incapacitante do que a própria dor.
Segundo a médica, outro sinal frequente é acordar cansado mesmo após dormir durante toda a noite.
É muito comum que o paciente apresente um sono não reparador. Ele dorme, mas acorda como se não tivesse descansado
A combinação de dor disseminada por diferentes partes do corpo por três meses ou mais, fadiga persistente e sono não reparador é, portanto, um sinal de que vale procurar avaliação médica. O diagnóstico, no entanto, não deve ser feito pelo próprio paciente.
Esquecimento e dificuldade para pensar também podem ser sintomas
A fibromialgia também pode afetar concentração e memória. Alguns pacientes relatam lentidão de raciocínio, esquecimentos e dificuldade até mesmo para encontrar determinadas palavras durante uma conversa.
O conjunto de alterações cognitivas ganhou o nome popular de "fibrofog", ou névoa cerebral.
"Esses sintomas não significam perda de inteligência ou demência. Eles decorrem principalmente da combinação entre dor persistente, alterações do sono e mudanças no funcionamento cerebral", esclarece Valéria.
Segundo a especialista, existe uma relação entre esses diferentes sintomas porque alguns dos mesmos neurotransmissores estão envolvidos na regulação da dor, do sono e do humor.
Existe exame para diagnosticar fibromialgia?
Não há um exame de sangue ou de imagem capaz de confirmar a fibromialgia. O diagnóstico é clínico e considera a história do paciente, o exame físico e critérios médicos específicos. Informações de serviços públicos de saúde também destacam a dor generalizada por mais de três meses e a associação com sintomas como fadiga, alterações do sono, memória e atenção.
Exames laboratoriais ou de imagem podem ser solicitados, mas com outra finalidade: investigar condições que apresentam sintomas parecidos.
Os exames são solicitados quando há necessidade de descartar outras doenças que possam produzir sintomas semelhantes, como hipotireoidismo, doenças inflamatórias, anemia ou outras condições reumatológicas
Por isso, não ter alterações nos exames não significa que a dor relatada pelo paciente não exista. Na fibromialgia, o mecanismo da dor é diferente daquele provocado diretamente por uma lesão ou inflamação nos tecidos.
Quem apresenta sintomas persistentes pode inicialmente procurar atendimento médico para avaliação. O reumatologista é o especialista com experiência específica no diagnóstico e manejo da síndrome, segundo Valéria.
Mulheres são maioria entre os pacientes
Embora possa atingir homens, mulheres, adolescentes e idosos, a fibromialgia é mais frequente no sexo feminino. Segundo Valéria, estima-se que mulheres correspondam a cerca de 80% a 90% dos pacientes.
A doença aparece com maior frequência entre os 30 e os 60 anos, mas pode se manifestar em qualquer idade. Pessoas com outras condições dolorosas crônicas, doenças autoimunes, ansiedade ou depressão também aparecem com maior frequência entre os pacientes.
Não existe, entretanto, uma única causa conhecida para a fibromialgia. "A fibromialgia resulta da interação entre predisposição genética e fatores desencadeantes", explica a médica.
Infecções, acidentes, cirurgias, estresse intenso e traumas físicos ou emocionais podem funcionar como gatilhos em pessoas predispostas. A especialista ressalta, porém, que ansiedade e depressão não são a causa da fibromialgia.
"Podem contribuir para piorar os sintomas, assim como a própria dor crônica pode favorecer o surgimento dessas condições. É uma relação de mão dupla", afirma.
Fibromialgia tem cura?
A fibromialgia ainda não tem cura, mas os sintomas podem ser controlados. O tratamento é individualizado e tem como objetivos diminuir os sintomas, melhorar o sono, recuperar a capacidade de realizar atividades e proporcionar maior qualidade de vida.
Uma das principais ferramentas não está na farmácia: a atividade física regular faz parte do tratamento. Exercícios aeróbicos e de fortalecimento muscular podem ser introduzidos gradualmente e adaptados às condições de cada pessoa.
Educação sobre a doença e estratégias para melhorar o sono também têm papel importante. Dependendo do caso, o cuidado pode envolver reumatologista, fisioterapeuta, educador físico, psicólogo, terapeuta ocupacional e outros profissionais.
Medicamentos também podem ser prescritos para alguns pacientes. Valéria cita opções que atuam na modulação da dor pelo sistema nervoso, como duloxetina, milnaciprano, pregabalina, amitriptilina e ciclobenzaprina. A escolha depende da avaliação individual e deve ser feita pelo médico.
A especialista alerta que opioides, como morfina, geralmente não são recomendados para uso prolongado na fibromialgia devido ao baixo benefício e aos riscos associados. Ela também chama atenção para o uso indiscriminado de ketamina, afirmando que as evidências atuais não justificam seu emprego para fibromialgia e que a substância apresenta riscos conhecidos.
O que pode ajudar no dia a dia?
Além do acompanhamento profissional, hábitos cotidianos podem contribuir para o controle dos sintomas. Entre as principais orientações estão:
- praticar atividade física regularmente e começar os exercícios de maneira gradual;
- manter horários regulares de sono e buscar melhorar sua qualidade;
- evitar o sedentarismo, respeitando os limites individuais;
- desenvolver estratégias para lidar com o estresse;
- manter alimentação equilibrada;
- evitar excesso de álcool e estimulantes próximo ao horário de dormir;
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seguir o tratamento definido com os profissionais de saúde.
Terapia cognitivo-comportamental, mindfulness e programas integrados de reabilitação também podem ser utilizados como parte de uma abordagem individualizada.
Para quem convive há meses com dores pelo corpo e outros sintomas e se pergunta se pode ter fibromialgia, o caminho não é buscar um exame isolado ou tentar fechar o diagnóstico sozinho. A avaliação médica é importante justamente porque diferentes doenças podem provocar sintomas semelhantes.
A principal mensagem é que o paciente não precisa conviver resignado com a dor. Com diagnóstico precoce, tratamento individualizado e participação ativa no próprio cuidado, a maioria das pessoas consegue reduzir significativamente os sintomas e recuperar qualidade de vida
Conclui a médica.