Desatenta, desorganizada ou incapaz de dar conta de tudo. Quantas mulheres já não passaram por rótulos como esses na sua rotina, muitas vezes, com impactos na sua autoestima e desafios reais para sua saúde física e psicológica? E quantos anos uma mulher passa sendo julgada antes de entender o próprio diagnóstico? O que é estigmatizado como falta de esforço ou uma falha pessoal, muitas vezes, esconde aspectos do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), uma condição que ainda enfrenta desafios e reconhecimento principalmente junto ao público feminino.
De acordo com um estudo recente publicado no Journal of Child Psychology and Psychiatry, que analisou 85.330 pessoas com TDAH, as mulheres recebem o diagnóstico, em média, até quatro anos mais tarde que os homens. “Quando uma mulher passa anos ouvindo que é desorganizada, que não consegue dar conta de tudo ou que precisa se esforçar mais, esses julgamentos podem influenciar a maneira como ela enxerga a si mesma. Precisamos ampliar o acesso à informação e abrir espaço para que as pessoas contem suas histórias sem serem reduzidas a rótulos, com mais compreensão e menos culpa”, afirma Renata Spallicci, vice presidente executiva da Apsen, que participa do Body 2026, em São Paulo.
Como se não bastasse, muitas vezes, as queixas femininas também acontecem no período de perimenopausa ou menopausa, levando a um diagnóstico ainda mais tardio das mulheres acima dos 40 anos, justamente por uma confusão relacionada a esse momento de transição feminina. “As mulheres que sofrem com o TDAH, muitas vezes, ainda vão ouvir que se trata de algo normal nesse período, quando, na prática, precisam de uma avaliação clínica mais detalhada relacionada ao seu histórico e as diferentes fases da sua vida”, alerta Fabrícia Signorelli, psiquiatra do Ambulatório de TDAH no Adulto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
As particularidades da experiência feminina também aparecem na meia-idade. Pesquisa publicada em 2025 na revista European Psychiatry, com 5.392 mulheres de 35 a 55 anos, identificou sintomas graves relacionados à perimenopausa em 54,2% das participantes com TDAH, em comparação com 30,1% daquelas sem o transtorno. Os resultados apontam para uma associação entre o TDAH e uma maior prevalência desses sintomas, reforçando a importância de uma avaliação clínica que considere o histórico e as diferentes fases da vida da mulher.
Tratamento do TDAH
O TDAH é um transtorno neurobiológico genético que se destaca pela presença de sintomas que envolvem a dificuldade em manter a atenção em tarefas específicas, inquietação constante e impulsividade.
"Esse transtorno surge na infância e pode se estender até a fase adulta, causando prejuízos e impactos na vida cotidiana das pessoas. Estudos recentes apontam para uma prevalência de 3% à 5% de adultos com TDAH, porém é possível perceber um aumento no diagnóstico, já que atualmente existem melhores recursos para uma avaliação diagnóstica mais adequada", diz o psicólogo Márcio Merçoni.
As principais características do TDAH são desatenção, hiperatividade e impulsividade. A condição também está ligada a sérios problemas de saúde mental, incluindo ansiedade, depressão e até mesmo o risco aumentado de suicídio. Dados indicam que pessoas com a condição têm uma probabilidade significativamente maior de desenvolver transtornos de ansiedade e Síndrome de Burnout, esse esgotamento mental que pode ser até mesmo mais grave do que o físico, pois pode causar danos tanto corporais como emocionais.
Além disso, indivíduos com TDAH enfrentam um risco elevado de depressão, muitas vezes desencadeada pelas dificuldades acadêmicas, no trabalho e sociais associadas ao distúrbio. "O impacto do TDAH na autoestima do adulto é muito grande. A pessoa com TDAH, até descobrir, ser diagnosticada e tratada, passa por uma somatória de experiências de vida em que se sente incompetente, incapaz e, por isso, procrastina muito”, comenta o psicólogo Márcio Merçoni.
O diagnóstico é feito de forma clínica, a partir de consulta com um profissional de saúde mental especializado no transtorno, como psicólogos, neuropsicólogos, neurologistas e psiquiatras. "Por meio de uma avaliação clínica e da investigação do contexto histórico e familiar, é possível identificar os traços que compõem o diagnóstico. Em situações específicas, podem ser aplicadas avaliações neuropsicológicas ou exames de imagem, para verificar a atuação das funções executivas do cérebro e servir de respaldo para as intervenções no tratamento"