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Entrevista

"Diagnóstico do TDAH não é simples e tratamento vai além de medicação", diz psiquiatra

O psiquiatra Paulo Mattos desmistifica o aumento de casos, alerta para o impacto das telas na infância e detalha os três pilares do tratamento do transtorno

Publicado em 18 de Setembro de 2026 às 12:25

Guilherme Sillva

Publicado em 

18 set 2026 às 12:25
O psiquiatra Paulo Mattos fala sobre os desafios do diagnóstico do TDAH
O psiquiatra Paulo Mattos fala sobre os desafios do diagnóstico do TDAH Junior Rosa

O aumento na busca por diagnósticos de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) tem gerado dúvidas entre pais, educadores e adultos. E é com o objetivo de contribuir com a identificação precoce da condição e promover uma trajetória escolar mais inclusiva para crianças e adolescentes, que a farmacêutica Apsen lançou no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a trilha “TDAH Levado a Sério na Escola”.


Em formato totalmente on-line (twww.tdahlevadoaserio.com.br) a iniciativa permite que educadores de todo o Brasil participem da formação gratuita, voltada à identificação do TDAH e das principais comorbidades (como a Dislexia, por exemplo), além de apresentar e discutir estratégias cientificamente embasadas para manejo do TDAH na sala de aula. 


O TDAH é uma condição neurobiológica de origem genética, caracterizada por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. É um dos transtornos mais frequentemente diagnosticados entre crianças e adolescentes atendidos em serviços especializados, sua prevalência global estimada varia entre 3% e 5%. O ambiente escolar costuma ser um dos primeiros espaços onde os sinais do TDAH se tornam mais perceptíveis, especialmente pela convivência diária, pelas atividades coletivas e pelas demandas relacionadas ao aprendizado.


Em entrevista para o SE CUIDA, o psiquiatra Paulo Mattos, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), fala sobre o impacto do uso abusivo de telas no desenvolvimento cognitivo e os desafios de identificar o transtorno na infância e na vida adulta.


O especialista destaca que a identificação do transtorno exige a análise de múltiplas fontes de informação e que o tratamento eficaz vai muito além do uso de medicamentos, combinando psicoeducação, terapia e suporte escolar. Confira!


O que sabemos hoje sobre TDAH? 


A gente sabe que é o transtorno mais comum na infância: ele chega a acometer uma em cada 20 crianças. Portanto, é muito comum. É muito difícil que um professor não tenha um aluno com TDAH em sala de aula, e a gente sabe que é algo neurobiológico, com forte influência genética.

Como que essa condição é caracterizada? 


Ela é caracterizada basicamente assim: com excesso de desatenção, excesso de inquietude e excesso de impulsividade. O TDAH não é uma categoria que você tem ou não tem — todo mundo tem um pouquinho disso. O TDAH é um exagero disso, assim como a diabetes é um exagero de açúcar, mas todo mundo tem açúcar.


A quais sinais que os pais ou responsáveis podem ficar atentos? 

Muitas vezes, os pais têm dificuldade porque, quando é o primeiro filho, eles não têm muita experiência com crianças. Mas quando comparam o filho com os amiguinhos, por exemplo, numa festinha ou num parquinho, ou quando recebem um retorno dos professores dizendo que a criança é mais agitada ou desatenta do que as outras, acende-se um sinal de alerta: 'Olhe, tem algo errado aqui que precisamos investigar para ver se realmente é TDAH.'

Daí a grande importância dos educadores e professores na identificação dessa condição, além da relevância dessa plataforma que está sendo lançada hoje. Ela tem uma característica especial: tudo o que colocamos ali foi feito especificamente por dois especialistas — eu e a psicóloga Camila Bernardes. 

Na plataforma é tudo baseado em evidências científicas e naquilo que a literatura apresenta sobre como os professores podem lidar com o TDAH em sala de aula 

E o que vocês têm estudado no IDOR que pode ajudar esses professores?


Como instituição de ensino e pesquisa, nós fomos contatados para criar esse curso para professores. Mas, especificamente sobre o TDAH, nós temos duas linhas de pesquisa que envolvem o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Uma delas, curiosamente, é sobre TDAH em idosos — pessoas que passaram a vida inteira com a condição. Avaliamos como elas estão hoje, principalmente se o sujeito sempre foi esquecido: como diferenciar isso de um início de Alzheimer, por exemplo? Se esse esquecimento está compatível ou não. A outra linha de pesquisa é a combinação do TDAH com o autismo, que é algo que pode ocorrer.


Falta preparo para diagnosticar essa condição?


É uma condição difícil de ser diagnosticada. Na verdade, justamente porque todo mundo pode ter alguns sintomas de TDAH, pode ser difícil dizer o quanto aquilo está em excesso. Então, acho que sim: a gente precisa ter uma melhor formação dos profissionais, inclusive na área de saúde.


O diagnóstico envolve muitos profissionais?


Esse diagnóstico pode ser feito por um único profissional, mas ele tem que ter múltiplas fontes de informação. Ele precisa de informações do próprio paciente (se for um adolescente ou adulto), dos pais e da escola (no caso de crianças e adolescentes). Ele tem que cruzar todas essas informações para chegar a um veredito final.


Muito tem se falado sobre os efeitos cognitivos do uso excessivo de telas por crianças e adolescentes. Quais são as consequências?


O que sabemos hoje em dia é que o abuso de telas se associa a vários problemas de atenção — e não só de atenção, mas também a problemas psicológicos, como ansiedade e depressão. Essa é uma realidade nova que não tínhamos anteriormente e que, muitas vezes, dificulta o diagnóstico de TDAH. Por outro lado, sabemos também que quem tem TDAH possui uma chance maior de fazer uso abusivo de telas. Portanto, pode ser um diagnóstico difícil de diferenciar em alguns casos.


O adulto pode desenvolver TDAH ou normalmente são casos que não foram diagnosticados corretamente antes?


Hoje em dia, a maioria dos pesquisadores não acredita que alguém possa passar a ter TDAH na vida adulta. A pessoa pode até ser diagnosticada apenas na idade adulta, mas ela precisa ter um histórico anterior que sugira que o TDAH já estava presente na infância ou adolescência.


Como o senhor observa esse "boom" nos diagnósticos hoje? Estamos vendo um aumento real nos casos de TDAH?


Na verdade, não. Quando realizados por pesquisadores em estudos epidemiológicos, os dados mostram que a prevalência — ou seja, o número proporcional de casos — é a mesma em diferentes países, continentes e etnias. Portanto, a taxa real se mantém constante. No entanto, esse fenômeno do autodiagnóstico já é outra história: trata-se de um movimento completamente diferente.


E qual é a visão do senhor sobre o uso de medicamentos para tratar essa condição?


O TDAH possui várias formas de abordagem. A primeira delas é a psicoeducação: ensinar o que é o transtorno, quais são os seus impactos e o que pode ser feito para enfrentá-lo. Essa é uma das etapas mais importantes e envolve, no caso de crianças e adolescentes, orientar os pais sobre a condição. A psicoeducação é a primeira parte; alguns pacientes podem ser tratados apenas com terapia, enquanto muitos outros necessitam de medicação. Portanto, o tratamento ideal costuma ser uma combinação de três pilares: psicoeducação, psicoterapia e, em muitos casos, a farmacoterapia (o uso de medicamentos).


*O jornalista viajou a convite da farmacêutica Apsen

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