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Produtividade

Conciliar inovação com modelos tradicionais pode salvar a educação

Se não superar o gargalo estrutural da educação, num horizonte de uma a duas gerações, o Brasil vai continuar patinando em voos de galinha, na armadilha da renda média e na ampliação do fosso da pobreza e da desigualdade

Publicado em 25 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

25 jan 2020 às 04:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Alunos em sala de aula Crédito: Joel Silva/ Folhapress
O Brasil entra em 2020 com perspectiva de crescimento cíclico perto dos 2,5%. É pouco diante do que o país precisa, mas já é positivo em função dos gargalos estruturais ainda persistentes. O desafio é evitar um novo voo de galinha. E o maior gargalo estrutural é a qualidade da educação e da inovação e a baixa produtividade.
Vem daí o foco na utilização de plataformas tecnológicas na educação. A Unesco tem destacado, no mundo inteiro, o potencial das tecnologias na ampliação do acesso à educação e na aceleração da aprendizagem e da inclusão social.
Exemplos como os do Japão, da Coreia do Sul e de Singapura mostram que a tecnologia melhora os resultados educacionais e, portanto, eleva a produtividade e a competitividade, com a integração de tecnologias aplicadas à educação.
Há poucos dias, Delfim Netto foi cirúrgico: “Se não continuar a criar as condições para aumento da produtividade média do trabalho, o Brasil não tem futuro”. É simples assim. Se não superar o gargalo estrutural da educação, num horizonte de uma a duas gerações, o Brasil vai continuar patinando em voos de galinha, na armadilha da renda média e na ampliação do fosso da pobreza e da desigualdade.
Neste contexto, a aprovação do novo Fundeb, fonte de financiamento da educação básica no Brasil, precisa ganhar status de prioridade da pauta do Congresso Nacional para esse ano. Também precisa ser ampliado o uso de plataformas tecnológica e da Educação à Distância (EaD), tanto no ensino formal, quanto na educação corporativa e na educação profissionalizante.
No ensino superior, já é significativa a adoção do Ensino à Distância, principalmente nas faculdades privadas. Em 2019, foram mais de 1,4 milhão de alunos no EaD. A ideia tem sido mesclar aulas on-line com aulas presenciais – o chamado modelo híbrido. Esse modelo híbrido também é defendido por especialistas para ser aplicado ao EJA no ensino médio.
Ferramentas já existentes e difundidas na educação corporativa permitem fazer ensino/treinamento em grande escala: realidade virtual e aumentada, inteligência artificial, games, “gamification”, vídeos, “microlearning”. São soluções tecnológicas para potencializar a aprendizagem, com o monitoramento de mentores e utores.
No mundo inteiro, o desafio é fazer a “compatibilização” entre o modelo educacional tradicional, com aprendizagem presencial centrada em escolas e professores, e o modelo das plataformas, centrado no aluno. O modelo híbrido – presencial e virtual – parece poder conciliar a necessidade de mesclar o foco no aluno com a necessidade da presença tutorial do professor e da convivência real com outros alunos. São experiências em processo de ensaio-erro e de busca dos melhores caminhos.
A chegada das plataformas é uma mudança de enfoque no processo de ensino-aprendizagem. Tanto no sentido metodológico, quanto no sentido dos conteúdos e dos conceitos educacionais. O “approach” das plataformas é tecnológico e centrado no aluno e nas ferramentas digitais e aplicativos móveis. Menos cursos longos e pesados, mais atividades interativas. E assim por diante.
O “approach” tradicional é mais centrado na escola e no professor. O desafio é conciliar. Sem perder de vista os ensinamentos de Paulo Freire sobre a centralidade do professor e/ou do tutor na educação e sobre o objetivo central da aprendizagem: aprender a pensar, ter autonomia, capacidade crítica e de decisão, habilidades sócio-emocionais e habilidades cognitivas.
Além do desafio da conciliação do presencial e do virtual, há o permanente dilema que circunscreve a educação – pública ou privada – desde sempre: educar para o trabalho e/ou educar para a vida?

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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