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É crise!

Presidente do PSB em Vitória prefere Davi Esmael fora do partido

Juarez Vieira afirma que  vereador tem pensamento diferente do partido e que está "ajeitando uma posição boa para ele ir". Aliado de Sérgio Sá, Davi responde que não vai a canto algum

Publicado em 07 de Fevereiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

07 fev 2020 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Vereador Davi Esmael não quer sair do PSB, mas presidente municipal busca outro lugar para ele Crédito: Arquivo
Encarregado da montagem da chapa de candidatos a vereador pelo partido este ano, o presidente do PSB em Vitória, Juarez Vieira, prefere ver Davi Esmael fora da agremiação. Questionado sobre a situação do vereador no PSB, o dirigente disse estar trabalhando em busca de um arranjo para acomodar Davi em outro partido. Alega diferenças de pensamento e personalidade do vereador com a direção partidária.  
“Eu tenho para mim que ele [Davi] tem toda a liberdade de sair, Estamos conversando sobre isso. Estamos ajeitando uma posição boa para ele ir. O Davi Esmael, aonde ele for, levará os votos dele. Ele tem a personalidade um pouco diferente do pensamento da direção do PSB.”
Questionado pela coluna, o próprio vereador negou com veemência ter a mínima intenção de se desfiliar do PSB.
"Fico no PSB. Não sairei do PSB. Eles ficam espalhando boatos. Não vou para lugar algum. Tive oportunidade de debater ideias com Juarez. Ele que falou, ele que explique.O que afirmo é que não vou a canto algum. Disputarei a reeleição pelo PSB."
Davi Esmael (PSB) - Vereador de Vitória

DIFICULDADE POLÍTICA

Durante a atual legislatura na Câmara de Vitória (2017-2020), Davi Esmael estabeleceu-se como um dos principais opositores da gestão do prefeito Luciano Rezende (Cidadania). É mentor político do presidente da Casa, Cleber Felix (de saída do PP para o DEM), que também não reza pela Bíblia de Luciano.
Entretanto, Cidadania e PSB são aliados nos governos de Vitória e do Espírito Santo. O Cidadania está no governo de Renato Casagrande (PSB), com direito a quadros nos dois primeiros escalões. Da mesma forma, o PSB está na administração de Luciano em Vitória, tendo, inclusive, o secretário municipal de Serviços, Nathan Medeiros.
Levando-se em conta essa relação política, a oposição de Davi a Luciano tem gerado, há algum tempo, situação no mínimo insólita e incômoda para os dirigentes do PSB no município e no Estado: o partido do maior aliado de Luciano (Casagrande) tem, na Câmara de Vitória, o seu principal opositor.

DESCOMPASSO IDEOLÓGICO

Some-se a isso uma certa incompatibilidade de ideias – citada por Vieira e de fato procedente – entre Davi e a cúpula do PSB. Evangélico e expoente da “bancada da Bíblia” na Câmara, o vereador mantém visão altamente conservadora em pautas ligadas a costumes, comportamento e minorias identitárias – grosso modo, a visão de Bolsonaro e Damares Alves, que campeia hoje no governo federal. Nessas matérias, Davi milita na Câmara como ativista religioso.
Não é privilégio dele. Essa postura hoje predomina no Legislativo de Vitória. Mas definitivamente não é essa a linha programática do PSB, partido de centro-esquerda, fixado na oposição ao governo Bolsonaro e bem mais liberal com relação a essas pautas. Se fosse outro o momento político, talvez ninguém nem notasse ou desse importância a esse descompasso. No Brasil polarizado de Bolsonaro, chama bastante atenção.

CANDIDATURA PESADA

Mas talvez a explicação para a maneira como a cúpula municipal do PSB quer “empurrar” Davi para fora do partido seja de ordem muito mais prática: a dificuldade dos dirigentes em bater chapa. Sem coligação na eleição proporcional este ano, cada partido precisa formar e registrar uma chapa completa – em Vitória, calcula-se pelo menos 23 candidatos, sendo 30% mulheres. Muitos devem concorrer pela primeira vez. Mas um candidato que já tenha mandato – no caso de Davi, dois mandatos seguidos – é considerado um favorito natural dentro da chapa.
A prova de o quanto Davi é competitivo foi seu resultado na última eleição, em 2016: com 5.165 votos, foi o 3º mais votado para a Câmara de Vitória, Essa concorrência interna “desleal” pode afugentar outros pré-candidatos, temendo trabalhar demais só para ajudar Davi a se reeleger – o sistema segue sendo proporcional. “Está difícil montar chapa”, admite Juarez Vieira.

NA PRÉVIA, DAVI APOIA SÉRGIO SÁ

Seja como for, a microcrise da direção municipal com Davi chega em um momento particularmente delicado para o PSB, às vésperas da prévia marcada para o próximo dia 17, na qual os filiados de Vitória indicarão o vice-prefeito Sérgio Sá ou o deputado estadual Sergio Majeski como pré-candidato da legenda à Prefeitura de Vitória.
Davi, por sinal, sempre foi um dos maiores entusiastas da tese de que o partido deve romper a aliança com o Cidadania e lançar candidato próprio. Na disputa interna, ele se destaca como um dos principais apoiadores da candidatura de Sergio Sá – exonerado por Luciano da Secretaria de Obras e Habitação de Vitória no último dia 31, um dia após ter assinado o livro de candidaturas aberto pelo PSB.
Davi defende a realização da prévia para mostrar à cidade, em definitivo, que o PSB terá candidato.
“Existe uma dúvida na cidade. Há um boato insistente em atrapalhar a articulação política do PSB. A partir do momento em que o partido define quem é o seu candidato,o partido sinaliza para a cidade algo que nós, filiados, já sabemos: que a candidatura do partido é para valer. A definição de um nome afasta o boato de que vamos compor mais à frente. A prévia, então, é para mostrar que o PSB tem, sim, uma candidatura própria, apesar do desconforto do prefeito.”
"Estamos dispostos a perder espaços para colocar uma candidatura, como já estamos perdendo. O PSB não caminhará com o Cidadania,em hipótese alguma. No segundo turno o PSB aceita o apoio do Cidadania."
Davi Esmael (PSB) - Vereador de Vitória
O vereador nega que a convocação da prévia – que pegou Majeski desprevenido – tenha o intuito de beneficiar Sérgio Sá, considerado muito mais próximo não só da cúpula do PSB como da militância do partido em geral, incluindo os pré-candidatos a vereador, que viriam pressionando a direção municipal por uma definição do candidato majoritário.
“A indefinição nos atrapalha. A convocação da prévia não é para atrapalhar Majeski e ajudar Sérgio Sá. Majeski é testado nas urnas, com votação altíssima e com ações na política que precisam ser respeitadas. As ações de fortalecimento político precisam se dar em torno de um candidato. Então precisamos definir quem é o nosso candidato. E chegou a hora de termos essa definição.”

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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