A internet tem sido festejada como o lugar no qual, de forma democrática e livre, todos podem manifestar-se rompendo os limites do controle discursivo estabelecido, desde sempre, por aqueles que possuem os espaços de fala e o poder de controlar quem fala, como se fala e o que se fala.
De fato, abriu-se com a internet e suas redes sociais, facebook, instagram, whatsapp, twitter e outros, um ambiente aparentemente livre, franqueado a todos, que despertou em muitos o desejo reprimido de manifestar-se, talvez pela primeira vez, podendo ser ouvidos, lidos sem o poder de corte, sem o veto estabelecido seja por editores, por jornalistas, por líderes religiosos, seja por professores, controladores por excelência e privilegiados que, com sua autoridade de cátedra, decidem que discurso pode ser manifestado e a forma como deve sê-lo.
O arresto discursivo, empreendido por profissionais designados para a entrega das verdades que devem e podem ser emitidas nos mais diversos ambientes públicos, também acontece no espaço das relações privadas, nos encontros de amigos, nas reuniões familiares e até no espaço dos encontros amorosos, nos quais, via de regra, um dos parceiros assume o controle discursivo e toda a potência dele originada.
Os silentes, os taciturnos, os tímidos por natureza ou por imposição social, contidos em seu desejo de expressar-se, encontram na internet não apenas o espaço de fala que sempre desejaram ou que até mesmo nunca imaginaram desejar, mas também os interlocutores que sempre lhes foram, de alguma forma, negados ao longo da vida.
E nesse desejo dialógico, de escuta e de fala, tantas vezes contido, reprimido, em uma explosão discursiva, lambuza-se do desejo, do gosto e do gozo, esquecendo-se que, no espaço público, há uma liturgia a ser seguida, um protocolo, não divulgado, mas presente, no qual expõe-se ao ridículo aquele que não o segue e que não se submete aos ritos estabelecidos por aqueles que ainda continuam como os verdadeiros enunciadores de discursos.
A mesma internet que, de forma ilusoriamente democrática e livre, escancarou as portas da visibilidade social a muitos que encontravam-se invisibilizados/ ocultados, seja em sua grandeza seja em sua pequenez, abriu a todos outras duas portas: a do pináculo da glória, para alguns; e a da execração pública, para os desavisados e incautos que, em sua êxtase midiática se descobrem, de repente, reconhecidos, não por seus méritos e qualidades, mas por sua face mais frágil, que deveria ter ficado guardada, a sete chaves, nos espaços privados ou no recôndido do ser, no qual o silêncio garante a dignidade e a nobreza da alma.