O século XX foi marcado, entre outras coisas, pela explosão mundial do consumo, cujos bens e produtos passaram a ser adquiridos em quantidade além das necessidades individuais de cada um de nós.
No passado, por exemplo, as pessoas não precisavam mais do que um sapato pra viver e trabalhar. Somente quando o calçado estragava, fosse um chinelo ou uma bota, é que alguém providenciava um novo par de sapatos em substituição ao velho, já moldado ao pé de cada um.
“É! Talvez eu seja / Simplesmente / Como um sapato velho / Mas ainda sirvo / Se você quiser / Basta você me calçar / Que eu aqueço o frio / Dos seus pés” (Sapato Velho / Cláudio Nucci / Mu / Paulinho Tapajós)
Isso, é claro, não se aplicava à realeza e aos integrantes da aristocracia. Mas ao longo do século XX à classe média foi disponibilizada um “novo mundo” de facilidades, tais como roupas e utensílios domésticos em geral, e cada vez mais baratos, graças à indústria que já era capaz de produzir qualquer coisa por um preço acessível.
Que uma expressiva parte da população tivesse acesso a uma série produtos que lhe facilitassem o dia a dia é a parte positiva deste processo.
Voltemos ao exemplo do sapato. Conforme a atividade que se realiza ao longo do dia ou da semana, ou de acordo com o clima, é bastante conveniente ter alguns tipos diferentes de calçados: pra ficar em casa sem precisar pisar no chão frio; para trabalhar numa fábrica ou numa fazenda; para passear nos finais de semana, e assim por diante.
O aumento do consumo impulsionou o crescimento econômico, bem como é consequência dele mesmo, ou seja, o aumento do consumo veio a reboque do crescimento econômico, criando um círculo virtuoso, de um lado, e vicioso, de outro lado. O aspecto virtuoso foi a expansão em escala global do acesso às benesses da industrialização e, consequentemente, do conforto que ela proporciona à população em geral. Viver ficou mais fácil, de modo que o homem pôde cansar-se menos e ganhar tempo disponível para dedicar-se às atividades lúdicas, melhorando a sua qualidade de vida.
Não obstante, a questão viciosa está atrelada à ideia que a natureza é infinita, sendo capaz de repor permanentemente todos os insumos que alimentarão o maquinário industrial. E como todos já sabem agora, a natureza é finita e pode estar sob ameaça em diversas partes do mundo em função do seu exaurimento.
Ademais, a indústria, durante seu processo produtivo, também gera diversos elementos e materiais residuais que não são consumidos, nem comercializados ou reaproveitados, produzindo uma enorme quantidade de lixo e resíduos que comprometerá ainda mais a capacidade regenerativa da natureza.
Porém, na lógica do consumismo como fenômeno social, não bastava sequer ter um único par de calçado para um tipo de atividade.
Entretanto, a partir da crise econômica de 2008, uma nova geração de consumidores preocupados com o futuro do planeta, a maioria deles jovens cidadãos urbanos e conectados, tem impactado o mercado global, demandando produtos menos descartáveis, mais duráveis, que possam ser reciclados ou reutilizados, e que consumam uma quantidade menor de insumos extraídos da natureza.
Na Inglaterra, por exemplo, surgiu até um movimento pelo direito de consertar os eletrodomésticos, pois já não se acham sequer peças de reposição, de tal modo que os produtos se tornaram mesmo descartáveis (o que se deseja reverter agora). A troca e a reciclagem de roupas (incluindo os calçados) também já estão se tornando comuns em diversas comunidades urbanas.
Tudo indica que se trata de um fenômeno que veio para ficar e que será cada vez mais determinante para o mundo em que vivemos. Resta saber como reagirão o mercado econômico e a produção industrial diante desta nova realidade.