Seria cômico se não fosse triste que, justamente na véspera do Oscar 2020, o ministro da Economia, Paulo Guedes, definiu o funcionalismo público brasileiro como parasitário. Nas suas exatas palavras: “o hospedeiro está morrendo, o cara [o funcionário público] virou um parasita”.
E como não se pode parar o curso da História, que segue autônomo, sem preocupação com interesses políticos, foi justamente o filme sul-coreano "Parasita" o grande vencedor desta edição do Oscar, no domingo, em Los Angeles. Mera coincidência?
Teorias da conspiração à parte, parece que o tema não é privilégio do Brasil. De fato, o mundo está observando esse estado de coisas parasitárias, mas tem dado a ele uma interpretação bem diversa daquela do ministro.
O "Parasita" critica centralmente a distribuição desigual de rendas nas sociedades capitalistas contemporâneas. À sua maneira, mostra uma sociedade dividida entre super ricos e super pobres, sendo que os mais vulneráveis são explorados, humilhados, esquecidos pelos que estão no topo da cadeia financeira.
E são justamente os banqueiros, com seus lucros astronômicos, os investidores do mercado financeiro, os políticos que defendem a ortodoxia da política econômica, que levam seres humanos, como os personagens do filme, a se tornarem parasitas menores de parasitas grandes. São estes últimos, com a barriga cheia de sangue, que sugam da sociedade, dos trabalhadores, o sustento para si mesmos. Com o que sugam, desfrutam de uma vida de ostentação e privilégios.
O longa sul-coreno foi premiado tanto com o Oscar de melhor filme quanto com o de melhor filme estrangeiro, tendo sido o primeiro em idioma não-inglês a vencer o prêmio principal. Isto pode ser atribuído não ao fato de ser mais uma comédia romântica, e sim, por colocar o dedo na ferida da desigualdade que assola a maioria das sociedades no mundo, mesmo as mais ricas, como a norte-americana.
Parece que, na linguagem da arte contemporânea, aqui expressa pela Sétima Arte, verdadeiramente antenada com os problemas que atingem o ser humano globalmente, ter que se tornar um parasita não é um decisão racional tomada deliberadamente pelo indivíduo (como pareceu indicar a fala do ministro citada no início desta coluna). Na verdade, é o indivíduo que não cessa de ser sugado pelos grandes parasitas que é levado a essa condição.
O que o ganhador do Oscar mostra é a realidade de muitas sociedades, como a brasileira, na qual a desigualdade é tão extrema e sistêmica que está invisibilizada no nosso dia a dia, a ponto de o cidadão comum não mais perceber o que verdadeiramente causa a violência que o incomoda na sua vida cotidiana: a pobreza decorrente da ganância na busca por altos rendimentos e lucros abusivos por parte de uma minoria privilegiada da população.
Até mesmo a situação das chuvas e enchentes são retratadas no "Parasita", de modo a possibilitar um paralelo com a situação aqui no Brasil. Lá, a família em situação de vulnerabilidade vê a sua moradia alagada com as chuvas, mas a família abastada continua dormindo e nem se dá conta das enchentes.
Quem é parasita de quem? Esta deveria ser a verdadeira pergunta para a qual, infelizmente, muitos ainda não querem ouvir a resposta.