Ainda pairam os
ecos de Davos. As propostas lá feitas para reformas do capitalismo têm grande influência das percepções da geração dos millennials e da geração Z (a de Greta Thunberg). Trata-se, digamos, da renovação da licença de operação do capitalismo. Agora é o “capitalismo de propósitos”, no qual o lucro, para ser sustentável, passa a ser consequência de servir à sociedade.
Estes jovens têm muito mais compromissos ambientais, sociais e éticos com a economia verde, a economia digital e a economia do bem-estar. Um novo padrão de bem-estar. Ter uma ética do trabalho e do empreendedorismo, sim. Mas ter também uma ética do bem-estar; do conectar; do lazer; e da livre iniciativa. Eles querem levar estes compromissos para as agendas ambientais dos governos e das corporações.
Nos próximos dez a 15 anos, estes jovens serão a geração de líderes que assumirão poder econômico e político. É o poder econômico e político do mundo em mutação. As expectativas e demandas deles – como investidores, consumidores e reguladores - com relação às empresas e aos governos são cada vez mais focadas na sustentabilidade do planeta.
Esta vibe pairou em Davos, com a presença registrada de 450 representantes da sociedade civil, 300 líderes jovens, 60 presidentes de países, mil CEOs, 250 ministros, e 800 vice-presidentes de empresas globais. Davos é, há muito tempo, um fórum com capacidade convocatória das elites e das agendas mundiais. Agora, este fórum, além de convocar e debater, também está começando a desempenhar o papel de formulador de políticas públicas e corporativas. Com ênfase nas mudanças climáticas e nos desejos e demandas de consumidores, clientes e cidadãos – a sociedade.
O Brasil também começa a olhar para este novo modelo de negócios, mas tem pela frente uma longa curva de aprendizagem. O objetivo geral é eliminar emissões líquidas de CO2 das empresas até 2050. O foco é no modelo de negócio sustentável, no compromisso com “stakeholders” e na cultura corporativa inclusiva. Neste contexto, o desafio da sustentabilidade não é apenas tarefa de governos e Estados. É cada vez mais dependente de colaboração público-privada.
Aqui no Brasil, o mercado precisa voltar a atuar como “agente civilizador da política”, na feliz definição de Reinaldo Azevedo. No passado, diz Azevedo, o mercado apoiou a democracia, os direitos fundamentais e os valores civilizatórios. Mas agora há um descolamento entre política e economia. As lideranças empresariais precisam debater e defender as agendas de reformas e a governança ambiental, para ajudar a ancorar a reversão das expectativas, na direção do crescimento.
Em Davos,
Paulo Guedes sentiu a quase repulsa das elites mundiais e dos investidores à política ambiental no Brasil. Guedes, sozinho, não vai produzir milagres. Rodrigo Maia e David Alcolumbre também não. As lideranças do mercado e da sociedade civil precisam apoiar as
reformas que são essenciais.
Na questão da governança ambiental, o governo brasileiro parece ter recuado. Foi criada uma coordenação para as políticas de desenvolvimento e preservação ambiental da Amazônia – o Conselho da Amazônia e a Força Nacional Ambiental, sob o comando do vice-presidente Hamilton Mourão. A intenção é construir uma solução para o problema da Amazônia. Incluindo a agenda da bioeconomia, o zoneamento econômico ecológico e a regularização fundiária.
É bom a gente prestar atenção em Greta Thunberg. Ela é produto de uma época. Já com forte presença nas agendas europeias e norte-americanas. Fala por milhões de outros jovens mundo afora e, com foco, determinação e clareza, descongelou o tema das mudanças climáticas. Desembarcou em Davos.