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Crônica

No cinema, nem Godard resistiu à sinceridade de um espectador desavisado

Um pequeno luxo cultural chamado Cineclube Alvorada promovia sessões do chamado cinema de arte aqui na Capital nos anos 60, com filmes fora do circuito comercial sendo exibidos para uma pequena plateia

Publicado em 26 de Outubro de 2019 às 05:00

Públicado em 

26 out 2019 às 05:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Reação no cinema Crédito: Amarildo
A TV Gazeta, ainda imberbe, inaugurou por estas bandas as premières, em salas de cinema da cidade, de grandes filmes para convidados da emissora. A estreia exibiu o mais famoso de Stanley Kubrick , 2001 Uma Odisséia no Espaço. Noite festiva no Cine São Luiz, ali no Parque Moscoso.
Ao final da sessão, no saguão do cinema havia uma equipe de telejornalismo do canal 4 entrevistando alguns espectadores sobre o evento. Foi quando o discreto senador Carlos Lindenberg teve seus passos interrompidos pela repórter (Maura Miranda? Mariângela Pelerano?) querendo saber sua opinião sobre o filme. O senador tinha outras preferências no cardápio da sétima arte. Mas preferiu não ir contra ao claro encantamento da maioria, muito mais jovem do que ele. E como não era homem de mentiras liquidou a fatura com invejável astúcia : “Nunca vi nada igual!”. Quem o assistiu pela televisão achou que ele adorou o filme.
Muito tempo antes de a gente ir pra cama embalado pelos acordes de “Devaneio”, um pequeno luxo cultural chamado Cineclube Alvorada promovia sessões do chamado cinema de arte aqui na capital. Filmes fora do circuito comercial eram exibidos para uma pequena plateia que, ao final, trocava ideias sobre a qualidade do roteiro , a performance do diretor, as técnicas de filmagens. Um debate sobre o que acabavam de assistir. Andei batendo ponto nesses encontros, quando ainda se davam numa sala cedida pelo Ibeuv, da rua Graciano Neves.
A bíblia dos cineclubistas era o Cahiers du Cinema, uma revista francesa especializada no assunto. Dr. Arthur Carlos, ex-governador do Estado e cinéfilo famoso, era um dos poucos e invejados assinantes da publicação.
Mas eis que o Ibeuv, precisando dar outra finalidade a então sala de projeção, deixou o cineclube no olho da rua. Felizmente todos ali tinham um amigo em comum: Marcelo Abaurre. Sua família era proprietária de algumas salas de cinema na capital. De formas que ficou acertado, no compadrismo, que se poderia usar as instalações do cine Jandaia, no início da Princesa Isabel, para os tais encontros. Funcionaria assim: acabando uma sessão de bangue-bangue, o telão seria tomado por Truffaut, Claude Chabrol, Ingmar Bergman, Godard...
A bem da verdade, é preciso dizer que a maioria dos filmes destes gênios era chata, mas chata de doer. Quadros parados, sombras, silêncios intermináveis, um horror. E o rei da chatura – opinião de dezenas de cinéfilos – era Jean-Luc Godard. E se não me engano era um de seus filmes que assistíamos na noite de estreia na “nova” sede do Cineclube Alvorada.
Um porre! Não víamos a hora de acabar. E quando, finalmente, as luzes se acenderam, iluminando nossos semblantes de intelectuais em êxtase, do mezanino do Jandaia, um grito trincou o elegante silêncio da sala: “Que meeerda!!!" Partiu de um espectador que pagou pra ver o bangue-bangue e viu a chance de se divertir um pouco mais . Deu ruim.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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