Publicado em 3 de maio de 2022 às 09:52
Se todo mundo que participou do ensaio aparecer para o show, os EUA devem reverter em breve o direito ao aborto. Rascunho da minuta da votação inicial sobre a Roe vs. Wade, vazado ao site Politico nesta segunda (2), mostra que a Suprema Corte mudará o entendimento da legislação em vigor desde 1973.>
Assim, a vitória de uma bandeira conservadora clássica deve se tornar o primeiro triunfo de Donald Trump para 2024, ano em que, especula-se, tentará voltar à Presidência. Com o Partido Republicano sob o seu controle, é muito provável que nos próximos dias ele aproveite o vazamento para sair em tom de campanha dizendo que a marca conservadora que imprimiu no tribunal já entregou resultados.>
Nos quatro anos na Casa Branca, o republicano indicou três juízes para a Suprema Corte, um terço da composição do tribunal. Ampliou a vantagem de cinco juízes de viés conservador contra quatro de viés progressista para, ao menos, cinco a três - o magistrado que falta na conta é o presidente da corte, John Roberts, que nos últimos anos se juntou à ala liberal em muitas decisões, mas nasceu conservador. Ainda não se sabe, por exemplo, como ele se posicionará na votação final.>
A única nomeação de Joe Biden até aqui também não mudará a balança, já que Ketanji Jackson, 51, entrará na vaga de Stephen G. Breyer, seis por meia dúzia no cálculo geral. O que pesou mesmo foram as indicações de Trump, o trio Neil Gorsuch, 54, Brett Kavanaugh, 57, e Amy Coney Barrett, 50.>
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Como a cadeira no tribunal americano não tem limite de tempo nem de idade para aposentadoria compulsória, os reflexos das nomeações do ex-líder americano vão perdurar por décadas. A votação inicial no tribunal espelha uma onda que vem tomando estados liderados por republicanos, como o Texas, com mudanças cada vez mais restritivas e que estimulam até mesmo um ambiente de paranoia geral, com recompensas a civis que denunciem quem praticou ou ajudou a realizar um aborto.>
Na verdade, o conteúdo da minuta vazada nem chega a surpreender: na análise de uma lei do Mississippi que veda o aborto após 15 semanas de gestação, quatro juízes já indicaram ser favoráveis à regra.>
Quem vaza algo, aliás, é quem está perdendo e precisa reverter a situação. Mesmo que o placar da votação final dificilmente vá mudar, revelar um cenário gera debate público, o que pode criar um ambiente que convença o juiz Roberts a votar junto com a dissidência -e um placar de 5 a 4 certamente expressará uma discordância maior que um 6 a 3, e qualquer mudança imprevista na corte traria o tema de volta.>
Com Biden com baixa popularidade, afetado pela diminuição do poder de compra dos americanos, pelas dificuldades para se livrar de um vírus que custa a desaparecer e por um país ainda muito dividido entre azuis e vermelhos, Trump poderá testar já em novembro o quão bem-vinda será uma nova candidatura.>
No fim do ano, a estreita maioria democrata no Senado e na Câmara pode evaporar. Média das pesquisas compiladas pelo site FiveThirtyEight mostra que, hoje, Tanto daqui a seis meses quanto em novembro, as pautas conservadores estarão presentes, seja o controle que os pais podem ter sobre o que é ensinado aos filhos nas escolas, levando a listas de livros banidos, seja o direito ao aborto. Se a economia estiver nas nuvens no momento dos dois pleitos, o que parece impossível agora, devido ao contexto de Guerra da Ucrânia, e improvável daqui a dois anos, questões relacionadas às guerras culturais podem até ser menos influentes na hora do voto.>
Seja como for, Trump ganhou um forte argumento no esforço para vender que mais quatro anos do líder mais controverso da história recente dos EUA farão a Suprema Corte ser ainda mais conservadora.>
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