Publicado em 2 de outubro de 2021 às 16:30
O governo Jair Bolsonaro tem se queixado e pressionado o Reino Unido na tentativa de revisar as regras sanitárias para a participação de delegações estrangeiras na COP 26. A reunião global sobre o clima da ONU está prevista para ocorrer em novembro, em Glasgow (Escócia). >
Os britânicos estabeleceram a exigência de isolamento obrigatório de no mínimo cinco dias para representantes de países que estão na chamada lista vermelha do governo local. Além do Brasil, a relação inclui a maior parte da América Latina e diversas nações da África. >
O requisito de quarentena, a ser cumprida em hotéis indicados pelas autoridades britânicas, vale inclusive para visitantes que estejam vacinados contra a Covid-19. Os não imunizados devem se isolar por mais tempo - dez dias. >
Como o Reino Unido não impôs a mesma exigência para delegados de locais que não estão na lista vermelha - como é o caso de Estados Unidos, Canadá e países europeus -, membros do governo brasileiro argumentam que as nações em desenvolvimento estarão em desvantagem frente aos negociadores dos países ricos. >
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Assim, o Itamaraty se alinha nos bastidores a outros governos que também têm reclamado das normas estabelecidas pelo Reino Unido. Até o momento, as críticas públicas mais duras foram feitas pela África do Sul. >
Negociadores brasileiros relataram que a exigência de quarentena para os representantes oficiais ainda deve ter impacto nos custos do envio da missão brasileira para Glasgow. Um interlocutor relatou que, caso a imposição seja mantida, o tamanho da delegação na conferência do clima poderá ser menor do que o inicialmente planejado. >
Os britânicos, por sua vez, prometem arcar financeiramente com o isolamento obrigatório de enviados dos países que hoje compõem a lista vermelha. >
Questionado, o Itamaraty disse que ainda não é possível estimar o número total de representantes do país, uma vez que o processo de credenciamento de delegados ainda está aberto. >
O ministério afirmou ainda estar preocupado com as regras sanitárias de participação na reunião, "em especial [com] a classificação do Brasil e demais países em desenvolvimento na chamada lista vermelha". >
"Compartilhamos com as autoridades britânicas a preocupação com a proteção sanitária dos participantes da COP 26 e da população local, mas entendemos que o evento deva ser inclusivo, garantindo a ampla e equânime participação de todos os países-partes na Convenção-Quadro [das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima], bem como da sociedade civil", diz a nota da chancelaria, que também cita a questão dos custos. >
Interlocutores consultados pela reportagem afirmaram que a possibilidade de governos da América Latina e da África estarem sub-representados na conferência é uma preocupação. Isso porque há negociações em curso que opõem os interesses das nações ricas e dos países em desenvolvimento. >
De acordo com auxiliares no governo, outro ponto problemático é que as normas estabelecidas pelo Reino Unido tendem a desencorajar a participação de organizações da sociedade civil dos países que estão na lista vermelha. >
A presença do Brasil na COP 26 foi um dos temas de uma reunião bilateral recente do presidente Bolsonaro com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson. Os dois se encontraram em 20 de setembro, em Nova York, antes da Assembleia-Geral da ONU. >
Na ocasião, segundo relatos de presentes, Boris convidou oficialmente Bolsonaro a estar presente na COP 26. Como resposta, ouviu uma reclamação pelo fato de o Brasil ainda estar no grupo sujeito às mais severas restrições de entrada no Reino Unido. >
A fala de Bolsonaro foi entendida pelas autoridades britânicas como um recado de que ele não pretende viajar a Glasgow caso o país permaneça na lista vermelha. Depois da reunião, membros do governo federal disseram que a expectativa é que os britânicos alterem a classificação do Brasil na próxima revisão da lista, prevista para o início de outubro. >
As queixas do governo brasileiro têm sido apresentadas também em reuniões reservadas do Itamaraty com autoridades do Reino Unido. >
Nas conversas, diplomatas têm ressaltado que o Brasil registra, em termos proporcionais, um nível de imunização da população maior do que outros países que estão dispensados da necessidade de quarentena de acordo com a lista. >
Procurada, a Embaixada do Reino Unido em Brasília disse que a COP 26 será "inclusiva" e terá a participação de representantes de todo o mundo. Isso será possível, afirmou o órgão, "graças a um conjunto abrangente de medidas de mitigação da Covid-19". >
"Elas incluem uma forte recomendação de que todos que venham à COP estejam totalmente vacinados e testados, façam um regime de testagem e isolamento, além do distanciamento social, do uso de máscaras de proteção e boas práticas para melhores higiene e ventilação", informa o comunicado. >
"A regulamentação de viagens do Reino Unido tem como base a avaliação de risco para a Covid-19 em cada país e território, além de fatores de saúde pública mais abrangentes." >
A missão diplomática também afirmou que o governo britânico "financiará as estadias de quarentena necessárias para todos os participantes registrados para a COP 26 que, caso contrário, teriam dificuldades financeiras para participar". O Reino Unido prometeu pagar as despesas de quarentena de todos os participantes do Sul Global (o que incluiria o Brasil) e atores não estatais, como mídia e representantes de outras organizações. >
De acordo com as autoridades britânicas, já há flexibilizações nas regras sanitárias para a COP 26. Chefes de Estado e ministros não precisarão cumprir isolamento prévio. Dois assessores diretos de cada ministro também estarão isentos. >
Apesar da recomendação de que quem for ao evento precise estar vacinado, interlocutores no governo britânico reconhecem que não terão como exigir a imunização de chefes de Estado, como é o caso de Bolsonaro -como se deu nos EUA, por ocasião da Assembleia da ONU. >
O tema, aliás, foi motivo de alguns constrangimentos na viagem do brasileiro a Nova York, já que ele afirma não ter se imunizado -e a cidade determina que apenas pessoas com o ciclo vacinal completo frequentem determinados locais. A Escócia implantou seu passaporte de imunização nesta sexta (1º), para a entrada em estabelecimentos como boates e grandes eventos. >
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