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Verônica Bezerra

O Julho das Pretas e a urgência da reparação

O Julho das Pretas não existe para ser uma "data festiva" no calendário corporativo ou estatal. O seu verdadeiro significado reside em denunciar a dívida histórica e exigir reparação

Publicado em 27 de Julho de 2026 às 04:15

Públicado em 

27 jul 2026 às 04:15
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

O mês de julho carrega um peso histórico e político de extrema relevância no calendário das lutas sociais na América Latina e no Caribe. Centrado no 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e, no Brasil, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, o chamado "Julho das Pretas" consolida-se como um movimento contínuo de denúncia, resistência e formulação política.


Contudo, diante de uma estrutura social profundamente racista, sexista e marcada por um passivo histórico avassalador, cabe a pergunta: qual é o real significado de dedicar um dia e um mês a essa pauta?


A interseccionalidade entre raça e gênero não é um conceito acadêmico abstrato, mas a métrica que define quem vive e quem morre, quem ascende e quem é empurrado para a marginalidade. 

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Dados econômicos e de segurança pública apontam sistematicamente que a mulher negra ocupa a base da pirâmide social brasileira. Enfrentam os piores salários no mercado de trabalho, mesmo quando possuem a mesma escolaridade que homens ou mulheres brancas. Constituem a maioria esmagadora das vítimas de feminicídio, da violência obstétrica e do desamparo estatal.


O racismo estrutural opera de forma a naturalizar que os corpos das mulheres negras sejam associados ao trabalho precarizado e ao cuidado invisível, negando-lhes o direito ao descanso, à dignidade e ao poder de decisão sobre as políticas públicas do país.


Reconhecer o 25 de julho no Brasil como o dia de Tereza de Benguela, líder quilombola do século XVIII que chefiou o Quilombo do Quariterê, significa disputar a narrativa histórica. Por séculos, a historiografia oficial tentou apagar a liderança e a sofisticação política das mulheres negras, reduzindo-as à condição de passividade ou submissão.


Tereza de Benguela criou uma estrutura legislativa e defensiva, organizou a produção agrícola e a metalurgia no quilombo, demonstrando que o povo negro não apenas resistiu à escravidão, mas articulou formas avançadas de governo e sociedade livre. 


Celebrar sua memória no Julho das Pretas não é um mero exercício de saudosismo, é a afirmação de que a população negra sempre possuiu projeto de país. Celebrar a memória das lideranças negras não é olhar apenas para o passado, mas reivindicar o direito de desenhar o futuro.

Mulheres negras Getty Images

O Julho das Pretas, portanto, não existe para ser uma "data festiva" no calendário corporativo ou estatal. O seu verdadeiro significado reside em denunciar a dívida histórica e exigir reparação não como caridade, mas como dever de Estado. 


Isso envolve a consolidação de políticas de cotas raciais, investimentos em saneamento e infraestrutura em periferias, e o combate ostensivo ao feminicídio negro. E ainda, fortalecer redes de solidariedade, dando visibilidade a coletivos de mulheres negras que constroem, na prática diária, redes de apoio mútuo, empreendedorismo e preservação da saúde mental em territórios vulneráveis.


E, sobretudo, pressionar por espaços de poder, incomodando estruturas tradicionais para que a presença de mulheres negras em cargos de decisão (na política, no judiciário e na alta gestão corporativa) deixe de ser exceção e passe a ser a regra.


A existência de um mês dedicado ao debate da condição da mulher negra é fundamental para canalizar o foco da opinião pública, mas a luta antirracista não cabe em 31 dias. A verdadeira transformação da sociedade brasileira e latino-americana exige que as demandas apresentadas no Julho das Pretas sejam assimiladas cotidianamente por todas as esferas sociais.


Enquanto a mulher negra não estiver livre, segura e devidamente representada, nenhuma democracia estará plenamente constituída. O Julho das Pretas nos lembra que a libertação negra é o único caminho para a libertação de toda a sociedade.


Verônica Bezerra

Verônica Bezerra Verônica Bezerra

É advogada, doutoranda em Ciências Sociais, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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