Trinca-ferro, Coleirinho e até Bem-te-vi são algumas das espécies facilmente encontradas em gaiolas nas casas brasileiras. Estes e tantos outros pássaros são alvos de um crime que chama a atenção no Espírito Santo. Durante o ano de 2025, a Polícia Militar Ambiental apreendeu mais de 3 mil aves silvestres mantidas em cativeiros ilegais em todo o Estado. Já no início de 2026, entre janeiro e fevereiro, outros 187 animais foram resgatados.
Muitos destes fazem parte da Lista de Espécies Ameaçadas do Espírito Santo, divulgada pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. Entre as 144 espécies catalogadas, 31 estão classificadas como Vulneráveis (VU), quando há redução da população; 65 estão Em Perigo (EN), com risco elevado de extinção; e 48 se encontram em Perigo Crítico (CR), última categoria antes da extinção.
“As espécies que mais nos preocupam são aquelas que possuem algum grau de vulnerabilidade, como as aves conhecidas como Trinca-ferro, Papagaio-chauá, Curió e Catatau. Há um aumento da chegada desses animais ao Centro de Reintrodução de Animais Selvagens (Cereias), em Aracruz, e ao Centro de Triagem do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), na Serra”, explica o Iema.
Todo o meio ambiente é prejudicado por esse crime. Muitas dessas aves desempenham papéis importantes na natureza, como a dispersão de sementes e o controle de insetos, e a ausência pode afetar o equilíbrio dos ecossistemas. É o que explica o biólogo especialista em aves José Nilton da Silva, da Universidade Federal do Espírito Santo.
A maneira mais ética e sustentável de apreciar a beleza e o canto das aves é preservando os habitats, plantando árvores, promovendo a conscientização ambiental e garantindo que permaneçam livres como parte fundamental dos ecossistemas naturais
José Nilton da Silva | Biólogo e ornitólogo, doutor em Conservação e pós-doutorando em Biologia Animal pela Ufes
Aves ameaçadas
De acordo com o Iema, 5.787 pássaros de 17 espécies diferentes — sendo 2.643 coleiros — chegaram ao Centro de Triagem do Ibama e ao Cereias nos anos de 2024 e 2025. Entre eles, muitos eram mantidos em cativeiro ilegal. Confira a lista das principais espécies:
01
Trinca-ferro (VU)
02
Periquitão-maracanã
03
Papagaio-chauá (VU)
04
Periquito-rei
05
Baiano
06
Coleiro
07
Papa-capim-de-costas-cinza
08
Curió (CR)
09
Papagaio-do-mangue
10
Corrupião
11
Sanhaço-cinzento
12
Catatau (CR)
13
Pássaro-preto
14
Tiziu
15
Sabiá-laranjeira
16
Bem-te-vi
17
Canário-da-terra
Quando vira crime?
A legislação ambiental brasileira estabelece que a criação de animais silvestres só pode ocorrer com controle do poder público, já que a fauna é um bem de propriedade do Estado. Logo, a captura, manutenção, transporte, comercialização ou reprodução de aves silvestres sem licença configura infração administrativa e crime ambiental, o que pode gerar desde multas até responsabilização penal.
Para criar pássaros silvestres de forma legal, o primeiro passo é fazer uma inscrição como pessoa física no Cadastro Técnico Federal (CTF/APP), no site do Ibama, na categoria criador amador de passeriformes. Depois é preciso procurar o órgão ambiental do seu estado — no caso do Espírito Santo, o Iema — para validar o registro por meio do Sistema de Controle e Monitoramento da Atividade de Criação Amadora de Pássaros (SisPass).
Com esse cadastro, as aves silvestres podem ser registradas e monitoradas, permitindo a criação legalizada em cativeiro. Mas atenção: esse registro não permite a venda dos animais. Quem deseja ter um criadouro para comercialização de espécies da fauna brasileira deve, após registro no CTF, se cadastrar no Sistema Nacional de Gestão da Fauna Silvestre (Sisfauna).